domingo, 5 de dezembro de 2010

  Capítulo Quatro A sala de música

-Ei, Nídia, o que é esse quartel? Quero dizer, o que vocês fazem?
Andávamos por algum corredor do enorme castelo. Percebi que tudo era tão enfeitado e refinado que a última coisa que eu iria pensar era que realmente era um quartel ou algo do gênero. Parecia uma casa de bonecas.
-E porque essas pessoas se vestem assim?
Quando passamos por algumas pessoas que Nídia explicou serem soldados da Finnintor. Vestidos com um sobretudo negro com um enorme laço que prendia nas costas e, quando eram mulheres, era um vestido igualmente negro com fitas e um laço no pescoço.
-Isso é porque – Ela sorriu. - A nossa superior, Lady Lali, gosta muito desse tipo de visual. E, se você notar, logo na entrada, a Finnintor parece ser um teatro. Esse é o nosso disfarce. Ninguém pode saber da nossa existência. Pelo menos, não as pessoas comuns.
-Mas o que vocês realmente fazem?
-Um tempo atrás a Aliança foi destruída. Lady Lali, a fundadora da Finnintor, vem da linhagem dos Huntterlocher. O portal que leva à Escuridão não é um mito. Ele existe. Ninguém sabe onde exactamente é a localização dele a não ser ela. Nós existimos porque sempre alguma coisa escapa de dentro da Escuridão e ataca as pessoas. Nosso trabalho e impedir que isso aconteça. - Ela deu de ombros. - Mas ultimamente, muitas coisas estão acontecendo. Muitos Condenados vêm saindo de dentro da Escuridão. Por isso a Finnintor está trabalhando dia e noite sem parar.
Fiquei um pouco assustada com essa história. Mas se esse era o trabalho dessa elite, devia estar é muito impressionada. Aquelas pessoas davam sua vida para proteger seu próximo.
-Você disse que ultimamente muitos Condenados estão saindo da Escuridão...?
Ela assentiu.
-Condenados são os monstros que vivem e nasceram na Escuridão.
“Existem os Condenados e os Perdoados. Shiro, por exemplo, é um Perdoado. Ele é um tipo de monstro que vive do sangue humano. Mas ele consegue sobreviver como uma pessoa normal se se mantêm comendo da nossa comida. Então nós o poupamos. Os Condenados são monstros que saem da Escuridão para nos fazerem mal.”
-Ei, Nídia, você também luta contra essas coisas?
-Sim, sim! - Ela disse entusiasmada. - Eu sou a capitã da 9º Esquipe de Elite Mirim. Meus soldados são o Jack Keigara e o Haruh Yooshi. - Deu um sorriso tão largo e radiante que me assustou.
-Incrível! - Realmente, fiquei impressionada.
Nídia era uma garota energética e bem feliz. Nunca, jamais iria imaginar que ela era uma caçadora.
-Legal, né? - Ela sorriu novamente. - Ah, chegamos.
Paramos diante de uma grande porta dupla branca. A parede naquela área era lilás e dava ainda mais destaque a entrada da sala. Notei também o enorme lustre de velas ali acima. Era dourado e detalhado com muito cuidado.
-Hm, escute, Ame. Acho que tem alguém usando a sala. - Ela espiava pelo vão aberto da porta. - E ele é muito bom! Escute, escute!
Me abaixei para poder olhar também. Me assustei com meu reflexo no chão de porcelanato dourado. Fiquei meio paralisada e me esqueci de continuar o que ia fazer. Apenas escutava um doce som de piano.
Aquela canção... Era a mesma canção do medalhão – Heart Ties.
Mas eu estava totalmente concentrada em minha própria imagem.
-O que aconteceu comigo? - Meus olhos seguiam todo o contorno do corpo que eu podia ver no reflexo do piso.
A imagem de uma garota alta, rosto redondo e pernas nem tão longas mas com coxas grossas me assustou. Notei também que havia uma mínima elevação em meus seios. Da qual eu não lembrava de ter visto em nenhuma lembrança perdida.
-O que foi Ame? - Nídia tornou a fechar a grande porta e se abaixou ao meu lado, preocupada. - Tem algo errado?
-Nídia... Meu corpo!? O que aconteceu?! - Eu me sentei, tentando organizar meus pensamentos novamente.
-O que há de errado com seu corpo?
-Seios, coxas, estou tão... alta e... O que aconteceu com meu cabelo?! - Eu escondi meu rosto atrás das mãos.
Nídia demorou um pouco para entender a minha reacção repentina contra o meu corpo. Mas então ela sorriu.
-Boba. - Ela segurou minhas mãos, me tranqüilizando. - Mestre Shiro explico mais cedo, que talvez você tivesse envelhecido um pouco dês daquela época. Se você estava com cinco anos, como ele diz, agora eu imagino... - Ela se levantou, dando uma olhada em mim. - Que tenha a minha idade. No mínimo, uns doze anos.
-M-m-m-mas eu ainda... Como assim?! - Fiquei irritada por ter envelhecido. Ou talvez pelas partes grandes de mais com as quais eu não estava acostumada. - Nídia! O que eu faço agora? E-eu não quero esse corpo! O o-o-o que são essas coxas grandes? - Apontei com o rosto enojado.
Nídia olhou sem expressão para minhas pernas tremulas.
-Eu acho normal. - Ela disse e sorriu. - Tonta!
-N-n-não é normal! - Forcei um sorriso.
A música parou. Eu e Nídia olhamos para a porta branca. Esperamos que ela se abrisse, mas nada aconteceu.
-Ué...? - Ela voltou a abrir o vão. - Aquela pessoa sumiu agora.
Eu ainda terminava de me recuperar quando me levantei. Suspirei, dando de ombros, ainda meio emburrada.
-Qual o problema? - Simplesmente empurrei a porta, entrando na sala.
-Ame! C-calma! Quem sabe esteja tendo algum tipo de ensaio. - Ela entrou também, me acompanhando.
Não havia ninguém.

-Melhor fechar a porta. Pode ser que alguém ache ruim agente entrar aqui nesse horário. - Ela encostou a enorme porta branca de madeira, a deixando semi-aberta.
Eu não dei muito atenção. O brilho do piano envernizado me hipnotizava.
-Que estranho, né, Ame. Eu jurava que havia um homem aqui tocando o piano. - Ela se pois ao meu lado, passando os olhos em toda a sala.
Eu me aproximei devagar do piano. Havia algo familiar ali. Talvez o cheiro da pessoa que estava tocando o enorme piano me lembrasse alguém do passado.
-Kevin... - Sussurrei sem perceber.
-Hãm? - Nídia pegava um violino enquanto tentava entender minha reacção.
Por mais alguns instantes, eu fiquei brisando, tendo um pequeno devaneio inconsciente.
Nídia começou a tocar o violino com tanta perfeição que me transmitia uma boa sensação de conforto.
-Nídia – Me virei, então, para observa-la. - Que lindo! Você toca muito bem.
Ela parou, ponto o instrumento de volta no lugar.
-Eu sei, eu sei. - Sorrindo. - Minha mãe que me ensinou a tocar assim dês que eu era pequena. Mas agora ela está muito ocupada para continuar a me dar aulas. Então eu tento aprender sozinha.
Eu a achei uma pessoa maravilhosa de repente.
-Sério, Nid?! Que demais! - Eu sorri, pondo a mão atrás da cabeça. - Eu queria ter essa paciência. Mas acho que não conseguiria.
-Talvez se alguém te ajudasse você se sentisse mais motivada, né? - Voltamos a olhar para o piano. - Mas eu realmente queria saber quem era a pessoa que estava tocando.
-Sim. Eu conhecia a melodia.
-Sério? Era realmente bonita!
-Sim. - Eu suspirei. Senti de repente uma corrente de alívio. - Parece que foi meu pai que a fez. O nome é... Heart Ties.
Ficamos em silêncio durante algum tempo. O sol batia no verniz do piano e deixava o lugar meio mágico, com um leve efeito de sépia. Era realmente lindo aquilo.
Me virei com as mãos na cintura para Nídia.
-Porque Shiro mandou me trazer aqui? Eu realmente não sei tocar nada.
Ela deu de ombros.
-Shiro é uma figura estranha, Ame. Mas deve ter algum propósito no final, né? - Novamente, sorrindo.
-Sim. - Me senti a vontade pare me sentar em uma das várias cadeiras e segurar um violão. - Talvez eu saiba tocar algo.
-Sim, sim! Tente!- Nídia pulou, me incentivando.
Ela arrastou uma cadeira e se sentou, me observando com os olhos negros brilhantes.
As cordas do violão não pareceram um território desconhecido. Eu experimentei apertar uma casa, tirando um sol perfeito.
Uma sensação exitante me pressionou e eu me senti realmente bem. Arrisquei tocar outra nota, e mais uma, até que percebi que estava tocando a mesma canção de antes. Heart Ties.
A toquei inteirinha como se eu soubesse tocar aquilo faz anos. E quando o último acorde se encerrou, eu passei o dedo indicador sobre a seis cordas bem lentamente, impactando o final da melodia.
-Ame!! Foi lindo! Nossa, onde você aprendeu a tocar assim?!
“-Segure o violão direito! Está complemente errado! Parece que você tem algum problema de coluna ou algo do tipo!
-Ah, Kevin, mas eu irei me cansar se ficar assim...
-Fique reta! Postura, postura! Assim! - Ele tocava tão bem...
Parecia mágica.”
-Talvez eu tenha aprendido... a um tempo atrás. - E sorri.
Ficamos observando o violão por algum tempo.
Nídia, então, levantou o olhar, encarando alguma coisa que eu não tinha notado ainda. Me virei para olhar também.
Havia um homem ali. Ele, talvez, estivesse ali o tempo todo. Não tínhamos notado sua presença.
Ele era realmente alto, magro, e sua pele pálida destacava seus olhos vermelhos. Os cabelos negros estavam amarrados em um curto rabo de cavalo atrás da cabeça. Ele nos olhava surpreso, não connosco, mas talvez com a melodia que eu tivesse acabado de tocar.
-Ah, oi, Guitar! - Nídia acenou para ele. - Então era você que estava tocando?
Ele ainda nos olhava meio incrédulo, quando baixou o olhar meio corado.
-S-sim.
-Ei, ei, esse é o Guitar! Ele toca violão na orquestra da Finnintor! Também toca piano, pelo visto. - Ela sorriu para ele. - Você nunca tocou. Achei que era só violão e guitarra.
Ele era tão bonito...! Parecia um príncipe! Ah, adorei aquela pessoa!
-N-nunca tive oportunidade, na verdade. - Ele sorriu, sem graça.
Começou a caminhar por entre os instrumentos e cadeiras até o espaço aberto aonde estávamos.
Ele e eu, sem querer, nos encaramos nos olhos por alguns segundos e devíamos o olhar novamente, sem jeito. Nídia notou o clima tenso que estava se formando.
-Ah, desculpa. - Ela sorriu amarelo. - Essa aqui é a Ame, mestre Guitar.
-Olá. - Ergui a mão no ar, fazendo oi, mas não atrevi a olha-lo no rosto de novo.
-Ame? - Ele disse, de repente.
-Sim! - Nídia confirmou. - Qual problema?
Ele olhou para o lado novamente, sem graça.
-N-nada. É que esse nome... me lembra uma pessoa muito especial.
-Viu, Ame! Guitar não é um verdadeiro Perdoado e nem um Condenado. Apesar de ser como o Shiro, ele é um Mutante. Foi por transformação. - Ela explicou.
Porque eu estava tão sem graça diante daquela pessoa? Ele apenas era lindo de mais. E devia ter uns vinte anos, por que raios eu estaria tão incomodada com sua presença?
Ele suspirou, ajeitando o casacão vermelho que trajava.
-Estou saindo, Nídia. - Ele acenou para nós antes de sair. - Tenho algo a resolver na cidade.
Ela assentiu, acenando também.
-Ah, Guitar – Ela o parou. - Qual o nome daquela música que estava tocando?
Ele segurava já a maçaneta da porta quando respondeu para a garota a olhando com o rabo dos olhos.
-Ah, sim. - Ele se virou para nós duas, sorrindo. - Heart Ties.
E ele saiu. O rosto sério foi minha última imagem dele. Fiquei imóvel sobre a cadeira, quase deixando o violão cair.
Nídia riu da minha expressão. Eu estava quase babando, em transe.
-O que foi, Ame? - Ela deu um estalo de dedos na minha frente.
Acordei.
-D-deixa pra lá. - Dei de ombros.
Ela deu um riso malicioso.
-Você achou o mestre Guitar bonito, hum? Ho, ho, ho...
Eu levantei a cabeça para ela, vermelha, e me arrependi, me encolhendo.
-N-não é isso...
-Tudo bem. Eu guardo segredo. - Ela piscou, fazendo o típico polegar positivo.
-Sua b-boba... - Sorri amarelo, olhando para o lado.
-Bom, missão comprida! - Ela jogou os braços para o alto. - Agora, agora... Eu quero te por uma roupa decente! Estou cansada de ver esse seu vestidinho sem graça, rasgado e sujo.
Eu sorri de novo sem vontade.
Algo pareceu subir minha pressão, dentro de mim. Algo que pareceu me enforcar. Deixei o violão cai no chão, fazendo um enorme barulho. Me levantei, tapando meu rosto. Parecia que algo estava querendo se apossar de meu corpo. Eu lutava contra aquilo.
-Ame?! - Nídia tentou me ajudar, pondo uma mão sobre meu ombro. - Tudo bem?
-Nídia... - Algo realmente me sufocava.
Desci as mãos para o meu pescoço. Estava queimando!
-Ame!! - Nídia pareceu se assustar com algo. - Seus olhos! Seus olhos estão... estão v-vermelhos! Está sentindo alguma dor, Ame?! Está bem?
Mas ela parecia distante.
Senti, agora, algo saindo das minhas costas. Meus pés deixaram de tocar o chão. Eu sentia um membro novo em meu corpo. Eu podia bate-lo levemente no ar. Quando percebi duas asas negras em minhas costas. Elas invadiram quase toda a sala.
-Ame! - Nídia tentava fazer com que eu voltasse a mim.
Mas existia uma força maior, dentro de mim, que não deixava.
Ela tentou segurar meu braço.
As pontas dos meus dedos riscaram com as unhas algo macio. Eu podia sentir um cheiro doce no ar. O cheiro de...
-S-sangue. - Sussurrei, olhando Nídia no chão.
Senti um certo prazer em ver o líquido vermelho escorrendo. Não percebi que estava sorrindo maliciosamente, passando a língua sobre os lábios.
Mas eu ainda tentava voltar a mim mesma.
Em seu rosto haviam três cortes que sangravam. Mas ela tentou se levantar novamente, insistindo em me ajudar.
-P-por favor – Sussurrei novamente. - Nid, f-fuja de mim...
-Ame, volte! - Ela puxou minhas mãos para baixo com força e meus pés voltaram a tocar o chão veludoso da sala.
Senti uma forte queimação em meu peito. Minhas asas se eriçaram, se debatendo, e de repente, elas voltaram violentamente para dentro de mim e eu cai de joelhos no chão.
Minha cabeça doeu e eu gemi.
Olhei para minhas mãos, atordoada. Mas fiquei ainda mais mal quando olhei para Nídia, machucada.
Arregalei os olhos, me levantando com medo do meu feito. Nídia tentava me tocar, mas eu só queria que ela mantivesse distância de mim.
-D-desculpa. - Sussurrei. - E-eu... eu não devia... Preciso ficar longe...
-Ame. - Ela tentou segurar minha mão. - Calma. Está tudo bem agora.
Eu passei por ela, correndo em direção a porta, saindo da sala. Me direcionava a saída, vi que danifiquei alguns instrumentos. E então, senti raiva de minha existência.
-Ame, volta! - Escutei ela gritar.
Mas eu tinha a machucado e ela não pode correr atrás de mim.
Corri desesperadamente por entre os corredores e salões do castelo, procurando por uma saída. Eu queria ficar longe daquelas pessoas. Eu iria machuca-las se ficasse muito perto. Eu precisava, então, manter distância. Seja lá o que eu era, era perigoso.
Até que achei uma escadaria estreita que levava para um jardim, fora do castelo da Finnintor. Passei por ele à mil. Nem deu tempo de olhar o cenário de rosas azuis que o formava. Até chegar a uma enorme moita que atravessei sem problemas.
Senti minhas asas retornarem e me senti em vantagem para me distanciar ainda mais daquele lugar, me aprofundando naquele bosque cada vez mais. Até que achei que já estava bem longe, já que a própria Finnintor ficava localizada já um pouco distante da cidade. E me deixei mergulhar entre as árvores, caindo no chão de limo e folhas. Minha cabeça doía e meu corpo estava totalmente dolorido.
Fechei os olhos e adormeci. Aquela força... me consumia.

O anjo negro está aqui. A parte escura... da tal pedra de Ametista.

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