sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

 Nono Capítulo Reunião

Ele me parecia bem jovem. Não muito mais alto do que eu, cabelos loiros e lisos. As pontas, para baixo, escorriam também para os lados, fazendo alguns cachos bem de leve. Os olhos pareciam ser de cor verde, mas eu não tinha certeza absoluta de que os dois eram igualmente verdes, por conta de seu olho direito estar tampado por um tapa-olho.
Sério, ele apenas me encarou com os olhos em fendas. Parecia que pelo olho descoberto, aquela pessoa conseguia enxergar além de minha imagem, quem sabe até minha alma era nítida para ele... Que medo.
-Posso ajudar? - Perguntei, tombando a cabeça.
Ele abriu a boca, parecendo que iria falar algo, mas a fechou novamente. Voltou a me encarar, sem dizer nada.
-Ei, você está bem? - Estava perdendo a paciência, e soltei uma voz mais arrogante.
-Agnell? - Finalmente, ele falou algo.
Eu revirei os olhos, mas sorri, respondendo:
-Pode-se dizer, que esse é meu sobrenome. Só... não tenho certeza absoluta.
-Por favor, você deve me acompanhar agora. - Ele segurou meu braço firmemente, já me puxando.
Resisti meus pés no chão, segurando com a outra mão livre na maçaneta da porta.
-Ei! O que está fazendo?! - Puxei meu braço de volta, irritada.
-A senhorita Lali quer vê-la na presença dos quatro superiores. - Ele disse, dando uma explicação rápida, sem olhar para meu rosto.
-Mas meu pé ainda dói! - Fazia força com o braço na direção da porta, me puxando pela maçaneta.
Ele me soltou, ficando paralisado por algum tempo, de costas para mim.
Ficamos, pelo menos, mais trinta segundos em silêncio.
-Ei. - Eu já ia reabrindo a porta.

-Isso realmente era desnecessário! Me coloque no chão, agora! Agora! - Eu gritava, puxando a cara dele para todos os lados, tentando fazê-lo me soltar. - Eu vou puxar seu tapa-olho, ó!
O garoto havia me pego nos braços, e me carregado até uma grande porta esverdeada no mesmo andar.
Enquanto eu puxava o máximo que eu conseguia a bochecha de seu rosto tão liso, o que usei contra ele em uma tentativa de irrita-lo, ele suspirou, inexpressivo.
-Senhorita?
Eu dava uma risada sinistra, tipo “ho, ho, ho, ho” enquanto eu o “torturava”. Parei, prestando atenção no que ele diria a seguir.
-Por favor, se comporte diante de mim e meus colegas. - A voz uniforme, sem alterações.
-O que? - Remuguei, arqueando uma sobrancelha.
Me pois no chão com cuidado, permitindo com que eu me apoiasse em seu ombro.
-Terceiro Superior, se apresentando. - E bateu à porta.
Por algum tempo, ninguém nos atendeu. Ficamos no escuro do grande e alto corredor por pelo menos mais de dois minutos. Estava começando achar que era algum tipo de pegadinha, ou coisa do tipo. Até que a enorme porta se abriu, iluminando com uma luz amarelada uma parte da parede, fazendo um retângulo que crescia a medida que a porta abria. Parecia que ninguém havia aberto a porta. Porque quando entramos, não vi ninguém atrás da mesma, segurando a maçaneta para fecha-la. Ela simplesmente, se fechou sozinha.
-Terceiro Superior? - Indaguei, um pouco assustada, enquanto entrávamos.
Haviam cinco pessoas ali, não contanto comigo e com o garoto.
O homem alto de cabelos brancos se virou, sorridente, para me olhar. Levantou uma mão, acenando.
-Olá, Ame. Vejo que está melhor, hm? - Shiro e sua voz feliz parecia perturbar os outros na sala.
Enquanto o garoto loiro que estava ao meu lado tomava posição ao lado dos outros, eu me afastei um pouco, me sentindo pressionada por todos os olhares estarem voltados para mim.
-S-sim. - Sussurrei. - O que houve, Shiro?
Ele me fitou por um segundo, notando minha insegurança, e se levantou da cadeira de madeira, refinada como tudo. Se pois ao meu lado, pondo a mão em meu ombro, encarando as pessoas ali com seu sorriso misterioso.
-Tudo bem. Agora que estamos todos reunidos, por favor, prossigam logo com isso. - Ele disse, fazendo um movimento com a mão no ar, pedindo para que continuassem.
A mulher de cabelos curtos, pretos e óculos redondos, se sentou sobre a mesa de pernas cruzadas. Aquela deveria ser a senhorita Lali?
-Criança, sabe por que te chamamos aqui? - Ela me perguntou.
Eu hesitei um pouco. Franzi a testa, mantendo um postura rígida, ou tentando aparentar segura.
-Na verdade, não, senhora. - Eu disse baixinho.
Ela deu um riso sarcástico por um segundo, e voltou a se por de pé.
-Eu respeito nossos motivos, senhorita. - Shiro pois a mão na frente da boca, escondendo o sorriso. - Sem cerimônias. Ame já está grande o suficiente para entender os fatos.
Ela o encarou severa por um algum tempo, e depois soltou mais um riso sarcástico, contornando a mesa, e se sentando na cadeira de couro vermelho ressaltante.
Enquanto todos estavam em silêncio, aproveitei para analisar as outras pessoas dali. Além do garoto loiro que me trouxera, tinha mais três homens. Deviam ser o resto dos quatro superiores. Havia um outro cara loiro, bem alto, de olhos azuis. Ele parecia ser bem jovem. Carregava um jeito preguiçoso, e tinha uma barba rala que o deixava charmoso. Suas roupa, uma camisa largona, aberta no peito, estava um tanto que rasgada. Fiquei imaginado qual seria o trabalho daquela pessoa. Ele tinha deixado metade do sinto que sobrara solto. As calças também estavam lá em baixo. Devia ser mesmo um cara bem novo.
O outro, ao lado dele, ainda mais alto, tinha um cabelo comprido, ruivo, que prendia em um rabo de cavalo no topo da cabeça. Seu traje era um tipo de deca preta com alguns detalhes dourados, que me lembrava um samurai ou algo do tipo. Até porque, ele carregava uma longa espada ao seu lado. Seus olhos era o que mais me chamavam a atenção: eram de cor roxa.
O último, estava sorridente. Ele não era alto como todo mundo ali. Parecia ser normal. Mas esse impressão foi apenas por um segundo. Quando percebi que suas pupilas eram apenas dois riscos dentro de um círculo verde. O cabelo preto sedoso, escorria para baixo e, do meio dele, haviam duas elevações de cada lado da cabeça. Achei que era algum tipo de topete, de início. Mas quando ele percebeu que eu o fitava, as duas elevações ficaram de pé, uniformes. Eram duas orelhas?! Parecia que aquela pessoa era um tipo de gato, ou algo assim. Ele se vestia como um soldado, mas suas roupas eram diferentes do resto dos outros que eu vira lá trás. Ele carregava um distintivo, que mostrava dois dragões entrelaçados em volta de uma espada – que mais cedo, Nídia tinha me explicado que era a marca da Finnintor. Ele sorriu para mim, mas eu me encolhi quando os olhos daquela pessoa me fitaram.
-Tudo bem, vamos ao ponto, então. - A mulher continuou. - Já que o seu “responsável” disse que está grandinha para entender o que está acontecendo, vou lhe explicar.
Assenti com a cabeça.
Todos ficaram olhando para mim, esperando que eu fizesse alguma coisa. Não entendi. Olhei para Shiro, e ele continuava a sorrir, sem tirar os olhos da mulher ali a frente.
Voltei a encara-la, desesperada, e meu corpo avançou para frente. Shiro tinha me empurrado para cima da cadeira em que, de início, estivera sentado.
Fiz o óbvio, já que era assim. Me sentei, me encolhendo, agora que estava mais perto daquela pessoa.
Ela suspirou, repreendendo minha lentidão. Mas voltou a sua postura severa, entrelaçando os dedos sobre a mesa e olhando fixamente para mim, o que me deixou desconfortável.
-Aparentemente, soube que tem descendência dos Agnell, não é? - Ela recomeçou.
-Sim, senhorita. - Respondi, uniforme.
-É verdade que você também não se lembra de absolutamente de nenhuma lembrança antes do meu soldado acha-la nas ruínas da mansão dos Agnell?
-S-sim, senhorita. - Abaixei a cabeça, mas minha voz continuava alta e sem alterações. - Mas estou me esforçando. De vez em quando, eu consigo ver rostos e escutar vozes. E também, tenho um nome. Não lembro de quem é, mas quando penso nesse nome, sinto que era uma pessoa especial.
Ela não falou nada. Levantei a cabeça novamente, encarando-a.
Ela mudou a posição da cabeça, deixando os olhos em fendas.
-Um nome, hein? - Ela sorriu por um momento. - Ah, então nos diga.
Minhas mãos agarraram os braços da cadeira, e as vezes apertavam com força a madeira dura. Eu estava nervosa. Mas tinha que manter a calma. Porque parecia que aquilo era algum tipo de sentença.
-Eu não tenho absoluta certeza. Mas o nome é... – Abaixei os olhos na hora de dize-lo.
Ouvi alguém sussurrar ali ao lado. Tentei olhar para trás com o rabo dos olhos, mas a senhorita ali não deixou.
-Oh, agora está ficando interessante. - Ela sorriu.
-Por favor. - Eu disse de cabeça baixa. - Se a senhorita puder, por favor, me mostre o que devo fazer. Eu quero descobrir porque estou aqui, agora. A senhorita deve saber que... aconteceu alguma coisa na sala de música a alguns dias. - Minha voz foi sumindo. - E também, deve saber, da existência daquele medalhão que estava comigo quando Shiro me encontrou.
Levantei a cabeça. Só a encontrei sorrindo, com a cabeça apoiada sobre uma mão.
-Está tudo bem. - Ela disse. - Nós já sabemos de tudo isso. Mas o que queremos saber, você sabe o que é esse poder?
Eu abaixei a cabeça, pensando inutilmente. Eu não sabia bem o que era. Sabia que quando a “coisa” tomava conta de mim, eu sentia dor tentando repreende-la. Como se eu tivesse vontade de me transformar naquilo.
-Não tanto quanto eu gostaria. - Eu disse baixo.
-Senhorita – A voz de Shiro. - Não acho que seja necessário contar a ela. Não agora.
-Mas eu quero saber! - Me virei para Shiro e depois me virei para a mulher de novo. - Por favor, me contem o que eu sou?! Como posso tentar saber o que eu fui, se eu não sei o que sou agora? Por favor, me contem...
-Está tudo bem, mocinha. Se comporte. - Madame Lali disse, severa de novo.
Cruzei os braços, irritada. Suspirei, e aguardei.
Ela jogou um olhar para alguém ali ao lado.
-Existe uma profecia, que há de se realizar. - O homem alto e loiro se pois ao lado de Madame Lali, com as mãos nos bolsos, encostado na parede. - Você deve ter notado as asas de penas negras, claro, não é?
Eu o encarei por um tempo, e tornei a abaixar a cabeça, suspirando.
-O que elas são?
Silêncio. Madame Lali olhou para o homem loiro e alto, jogando um olhar irritado para que ele prosseguisse.
-Por favor, Calaio. Continue. - Ela disse.
Ele levantou a cabeça, sorrindo levemente, olhando para o teto alto, onde um gigante lustre de pedras roxas se apossava de todo o espaço.
“Há muito tempo, antes das três grandes famílias, os Huntterlocher, os Knight e os Agnell, formarem a Aliança, com intuito de proteger a passagem da Escuridão para nosso mundo, um homem Condenado, deu início a família Agnell, a terceira família. Como aquela pessoa havia saído de dentro de tal lugar macabro, ninguém sabe. Mas é ainda mais curioso o que ele trouxe consigo. Uma pedra, onde ele trancafiou toda vontade da Escuridão. Com ela, se dava para controlar todos os demônios que de lá saíam e, até mesmo selar a passagem dos mundos. Essa pedra se divide em duas forças diferentes: a Pérola Branca, e o Anjo Negro. As duas partes não podem ser divididas, nem postas em corpos distintos. Caso contrário, seria o fim de toda a forma de vida existente, porque ao tentar ferir a vontade da Escuridão, a passagem irá se estender e tudo que mora lá, iá destruir nosso mundo.”
-Parece que o que existe dentro de mim, soa exatamente como esse Anjo Negro. - Sussurrei para mim mesma.
Mas todos escutaram.
-Exatamente. - Lady Lali deu continuidade. - Sem dúvidas, alguma parte da pedra de Ametista está dentro de você. E é isso que me preocupa.
-Como pode ter certeza de que... - Enquanto eu levantava o olhar de novo, e tentava fazer minha voz surgir novamente.
-As asas... - Ela se levantou, de braços cruzados. - Os olhos, a imagem que você talvez tenha visto, o sangue escuro... Tudo indica que o Anjo Negro, é você.
Me levantei, irritada.
-Mas eu não desejei isso! Se papai pois esse poder dentro de mim, deve ter algum propósito! Não teria a intenção de ferir as pessoas, e nem...
-Como pode ter certeza, Ame? - Ela me calou. - Você nem se lembra de seu pai. Além disso, ele foi um Condenado. Ele nasceu nas trevas, e por mais que tenha matrimônio com uma humana, não deixa de ser um demônio.
-Meu pai – Minhas lágrimas começaram a se empoçar em meus olhos, mas eu sustentava a voz alta e irritada. - Meu pai não era um monstro! Posso não me lembrar dele, mas eu sinto que ele era uma pessoa boa! Shiro viveu naquela época, não é? Não é?! - Me virei, para olha-lo.
Shiro estava sério, pensativo. Me surpreendi por não ter visto seu sorriso.
-Ouvi também que as pessoas gostavam de papai! Só havia essa má fama de que os Agnell eram pessoas ruins, porque papai era um Condenado, mas... Mas não foi ele quem selou essa passagem?! Não foi ele quem ajudou vocês?! Por tudo que me disseram, só deu a entender que ele protegeu a todos, e que foi parte fundamental da Aliança!
-Você ainda não entendeu, não é? - Calaio recomeçou, sorrindo. - Um Condenado não morre. Satoshi não pode morrer. - Ele fez um sinal com a cabeça, apontando para Shiro. - Por mais cruel que seja – Ele riu, voltando a olhar para outro lado. - não deixa de ser um demônio.
Eu voltei a me sentar. Cruzei as pernas, e joguei um sorriso descarado.
-E qual é o ponto, sobre isso?
-Sedric jamais iria morrer, a não ser que desejasse isso.
“Um Condenado só deixa de existir, quando deseja a morte. É por isso que os membros da Finnintor tem um preparo especial. Para torturar Condenados de todas as formas possíveis. Física e mentalmente. Até que a pessoa, ou devo dizer, o demônio, deseje a morte.”
Minha pele congelou. Meus olhos tremiam, arregalados.
Atrás de Calaio e de Lady Loli, do lado de fora, o céu escurecia cada vez mais. Nuvens negras cobriam todo o espaço, já escuro. Uma possível tempestade estava se aproximando.
Seria ele, então, um traidor?
Não.
Não pode ser.

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