sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

 Valley Ice

Acordei cedo hoje. Pensei desesperadamente em limpar a casa, já que meus pais estariam vindo para o Natal. Mas isso não era o que mais me incomodava. O pior, é que nem eu sabia o que estava desorganizando minhas idéias naquele dia.
Simplesmente, me levantei e comecei a arrumar minha bagunça habitual.
-Bom dia, Gil. - Sorri, e logo desviei o olhar para o guarda-roupa todo fora de ordem.
O gato preto e magro se espreguiçou, e depois se jogou no chão, aos meus pés.
-Saia daí. Está atrapalhando. - Passei o pé sobre ele, mas ele simplesmente me ignorava. - Ó, vou te esmagar.
-Por que está arrumando o guarda-roupa? - Ele me perguntou, ainda sem se mexer. - Está doente? Isso não é normal.
Eu o empurrei para o lado com o pé, jogando toda a roupa pelo chão.
-Idiota. - Ri. - Meus pais irão vir para o Natal, esqueceu? Minha irmã também. Se não estiver tudo em ordem, minha irmãzinha chata vai passar a semana me enchendo o saco dizendo que não tenho capacidade de me virar sozinha. - Revirei os olhos.
-E você não tem. A propósito, Ly, e o Demitri? Nunca mais vai ir atrás dele?
Minhas mãos paralisaram, enquanto uma angústia tomava conta de mim.
-Demitri? - Eu sorri, tenebrosa. - Espero que ele tenha morrido. Aquele - Soquei a pilha de roupas. - Idiota! Idiota, idiota!
No meio do meu ataque de raiva, perdi o equilíbrio e caí de cara no meio das roupas, não fazendo nenhum esforço para me levantar de novo.
-Mas, Ly. Será que você não entendeu errado? Ele não tinha motivos para te largar assim e desaparecer. - Ele riu. - E além disso, você sempre acaba gostando de caras estranhos e...
-Ele não é estranho! - Me levantei, segurando Gil pelo pescoço. - Retire o que disse seu gato idiota! - Comecei a sacudi-lo, ainda rindo assustadoramente.
-É s-sério... Ele n... não parecia do tipo que f... faz isso. - Gil tentou dizer, enquanto eu o asfixiava.
Eu o soltei, suspirando, olhando para outra direção.
-Qual é? Demitri era um cara misterioso, realmente. - Eu ri sem vontade.
Meus pensamentos voaram para um tempo atrás. Droga.
-Ly? Não vai mais arrumar? - Senti as patas de Gil fazerem cócegas na minha perna.
Eu o olhei, séria. Me levantei, passando por cima de tudo, e quase esmagando propositalmente o Gil.
-Não! Que se dane a limpeza! - E me tranquei no banheiro, batendo a porta.
Ainda escutei Gil falando baixinho:
-É muito sem noção mesmo.


O homem de longos cabelos negros, presos em um laço discreto, se sentou na poltrona vermelha, em frente a lareira. Ergueu a taça de vinho diante da boca, e ficou olhando as chamas do fogo dançarem.
-Ei. - Ele começou. - Porque não se senta aqui ao meu lado? Podemos encher a cara a noite toda. Quem sabe eu não chame as garotas para uma brincadeira, hein? - Ele riu, malicioso, e tomou um gole.
Não houve resposta. Ele suspirou, pousando a taça sobre a mesa, se acomodando ainda mais.
-O que está acontecendo? Está mais depressivo que o normal. - Ele revirou os olhos, e depois os fechou.
A outra pessoa estava sentada em uma cadeira, com a testa encostada no vidro da janela. Os cabelos pretos estavam um tanto que molhados, já que tinha acabado de sair de um banho.
-Não é nada, primo. - Ele ergueu um pouco a cabeça, e voltou a batê-la no vidro. - Estou pensando em me jogar no poço. Ou acha que o telhado é mais conveniente? - Ele riu baixo.
O homem de cabelos compridos e um rosto bonito, tomou mais um gole de vinho e se levantou, mexendo no fogo com o objeto brilhante de prata.
-Seja lá como pretende se matar, tente fazer isso fora da minha mansão. Que tal se jogar do alto da catedral da cidade? Eles adoram um bom show.
-Seria bom, não é... - Ele sussurrou. - Túlio.
-Hm? - Enquanto se afogava na garrafa, dessa vez.
-Eu preciso que você faça um favor para mim.
-Não vou me responsabilizar pelo seu corpo no meio da praça central, pode esquecer. - E voltou com a garrafa na boca.
-Não é nada disso. - Ele se agarrou aos braços da cadeira.
-O que é, então?
-Eu preciso... Preciso ir a um lugar onde tenha plantas.
Túlio riu.
-Vá até o jardim. O que quer, afinal?
-Não. Um lugar que tenha plantas. Rosas roxas... e um balanço.
-Playground? Não acha que está grande para isso? - Ele disse, sem se mexer. - Se bem que saindo de você, eu não vou argumentar.
-Túlio. - Ele se levantou, parecendo um pouco irritado. - Eu preciso da sua ajuda.


-O que você pensa que está fazendo? - Gil desviava das roupas que eu jogava para trás, sem ver aonde iam parar. - Ly!
Ignorei, continuei a jogar as roupas.
-Ly! Ly, quer parar e se explicar para mim?! Está querendo me matar, garota?
-Ainda tem duas semanas para o Natal, não é isso? - Parei, passando a mão na testa suada.
Gil fez algum esforço para atravessar o quarto no meio das montanhas aglomeradas de roupas, mas com um salto, ele chegou até mim.
-Qual seria a loucura? - Suspirou.
Me virei com violência, quase o acertando com o cotovelo. Me levantei, fechando a janela com pressa, animada.
-Eu quero ir até a o Vale do Gelo antes do Natal. Quero comprar coisas de lá, e quero esquiar no gelo. - Falei animada.
-Porque isso de repente? - Ele suspirou de novo, subindo na cama, de novo com dificuldade passando por entrar as roupas. - E você nem se quer sabe esquiar no gelo. Seria por isso que seus pais não queriam que morasse sozinha por algum tempo?! Francamente, você não tem um pingo de responsabilidade e... Ly!
A mala tinha caído em cima da minha cara, me achatando no chão de roupas. Eu a pus de lado, e comecei a jogar todas as roupas que via dentro da mesma.
-Francamente, Ly...! Você quer mesmo fazer esta viagem de repente? Você nem sabe pra que lado fica e, o inverno está aí. Se formos pra lá e nos perdermos no caminho, iremos virar cubos de gelo...
-Você não quer ir? - Ergui uma sobrancelha, dando um tapa de leve no pelo de Gil. - Está em cima do meu sutiã, saia!
Ele revirou os olhos.
-Mas é porque....!
-Gilbert, você está sendo um chato! Eu faço o que eu quiser, droga. Já tenho idade o suficiente para tomar minhas decisões sozinha. - Suspirei, fechando a mala e me levantando. - Vai ser divertido. Lá tem peixe e canudos açucarados. Você vai querer perder essa? - Levantei uma sobrancelha.
Ele revirou os olhos, com a voz manhosa.
-É melhor eu ir. Para me certificar que o mundo irá estar a salvo com uma louca dessas a solta nas ruas.
Ergui um dedão positivo.
-Isso mesmo, Gil! Agora, vamos logo que quero chegar lá antes da hora do jantar.
-Está brincando...? Teremos que pegar carona com alguém. E só com isso, ainda estaremos na metade do caminho. - Ele resmungou.
Continuamos a discutir fora do quarto.
Desci as escadas, pegando meu casaco favorito no porta chapéu: era um preto com pom-pom em baixo do pescoço, além do laço branco que prendia atrás, na cintura. Logo peguei minha velha bolsa rasgada. Devia ter algum dinheiro ali. Algumas moedas de ouro, quem sabe...
-Acho que dá pra ir e voltar com isso. - Olhei.
-Dez moedas de prata, e duas de ouro?! Se voltarmos para o Natal do ano que vem, isso não será o suficiente.
Já estávamos do lado de fora. O jardim cheio de rosas roxas já me deixava com saudades. O cheiro era tão bom...
-Não é melhor deixar um aviso, Lyre? Pode ser que alguém te procure. Afinal, as pessoas normais não costumam sair de casa sem saber pra onde ir faltando pouco para o Natal. - Gil suspirou de novo.
-Hm... aviso...
Demorei um pouco para terminar de escrever.
-Não acredito nisso!
-Um aviso, oras. - Revirei os olhos.
-Mas você escreveu na madeira da porta! Sua doida, estragou a porta! - Gil irritado era engraçado.
-Não ligo. Agora sempre que estiver fora, tem o aviso aí. - Dei de ombros. - Agora, vamos.
Eu já estava do lado de fora, fechando o portão branco e baixo, me despedindo com o olhar da casinha de madeira confortável.
Levantei a cesta para frente. Achei que Gil não gostaria de andar, já que eu estava o forçando a fazer aquilo.
-Pule aqui, Gil. - Sorri.
Ele estava profundamente irritado, mas eu o preferia assim.
Ele subiu no muro da casa e depois pulou para dentro da cesta, onde tinha uma almofada, para que ele se acomodasse.
-Espere só. Quando eu voltar a forma humana... - Resmungou de novo.
-Fique quieto. Você é uma graça como gato. Não sei porque quer voltar a forma humana. E a culpa é sua. Sabe que não sou boa em poções.
-Quem já se viu, um cara com vinte e oito anos deixar sua prima de dezenove fazer isso... Ei, Ly, olhe por onde anda! Pode vir uma carroça! Olhe antes de atravessar!
-Pare de ser tão chato... O que quer dizer com "sua prima de dezenove anos"? Você que pediu para fazer a poção para dor de cabeça, seu chato. Hunf. Eu já te pedi desculpas. O efeito deve acabar em alguns dias.
-Por que fui morar do lado da casa dessa louca...? Que babaca...
-Pare de ser maldoso!
-Olha quem fala...!
E continuamos nossa discussão ao longo do caminho.
É verdade, Gilbert não é meu gato. E sim, meu primo. Ele é um cara realmente alto, branquelo, tem olhos verdes e um cabelo negro, comprido e liso. Gil pode ser bem chato, mas ele sempre esteve ao meu lado dês que éramos pequenos. Houve até uma vês, em que ele disse que iríamos nos casar, he. Mas éramos crianças, claro. Gil é insuportável de mais para que eu me apaixonasse por ele. Além disso, somos parentes muito próximos, acredite ou não.
-Ly, caso eu vire humano novamente... Espero que não tenha esquecido que um animal não precisa de roupas, mas se eu voltar ao normal, saiba que estou pelado.
Eu estava meio em transe, encantada com a paisagem. A mensagem demorou um pouco para chegar até mim.
-Quêêêêêê......?!!

Por causa disso, gastei duas moedas de prata comprando qualquer coisa para Gil em uma lojinha da estrada no meio do caminho. Aproveitei e pedi informação. O Vale de Gelo ainda estava tão longe... Mas isso não me desanimou. Afinal, Gil estava ali. Qualquer coisa, ele daria um jeito.
-Né, Gil? - Eu disse, em quanto olhava um mapa, grudado a parede em frente a loja.
-Você só garantiu com que eu viesse para ser seu salva-vidas caso estivesse na pior das situações?
-Não, na verdade. Você veio porque quis. - Terminei de olhar, satisfeita. - Já sei por onde.
-Francamente... - Ele pulou da cesta, caminhando ao meu lado.
Eu sorri para ele, e voltei a andar. Estava mesmo frio.
-Mas sua altura iria assustar as pessoas, então como gato você está ótimo. - Sorri de novo, rindo.
-Me chamou de aberração?! - Irritado.
-Ora, você é uma aberração. - Eu disse, brincando.
-Você tem um nariz enorme, aberração 2. - Revirou os olhos.
-Não diga isso... E-eu sei... Fique quieto! - Olhei para frente.
A estrada parecia não ter fim. Seguíamos pelo meio das árvores por um caminho que ainda não estava coberto de neve. Ali, naquela área, começava a cair alguns flocos de neve. Era bom por a língua para fora, e sentir o gosto docinho deles. Gil pulou para dentro cesta de novo, irritado por ter que andar. Mas ele também estava gostando. Estava manso e preguiçoso.
Fomos andando por ali, enquanto a noite caía. Era bom ver o sol se pondo entre as árvores. Tão bom...


-Ly? - Uma pata me incomodava, cutucando meu rosto. - Faz o favor de abrir os olhos. Morreu, é?
Estava bom dormir ali no meio da neve. Gelado e macio... Irritada, lancei um punho em Gil. O gato rolou na neve. Abri os olhos, olhando para o céu nublado. Tão branco, quanto a neve.
As árvores com os galhos sem folhas lembravam uma gravura. E me lembrava, de uma lembrança que já tive.
-Essa foi a gota d'água, Ly! Você me deu um soco legal... Não sinto meu focinho!
-Que seja. - Revirei os olhos, me sentando.
Fiquei perdida em meus pensamentos de novo. Toda aquela neve, as árvores, um longo caminho... Me lembrava uma pessoa. Uma pessoa que foi essencial, e ainda era, mas que deveria estar longe.
-Ei, Ly...
-O que é? - Meus olhos em fendas.
-Você anda pensando de mais no Demitri. Enquanto estava jogada aí, você não parava de repetir o nome dele. - Ele virou a cara para outro lado, meio incomodado com o assunto.
-Está tudo bem, Gilbert. Eu estou bem. Isso é passado. - Me levantei, sorrindo. - Onde está a mala?
Dei alguns passos e tropecei em algo duro, raspando minha mão em um tronco de árvore.
-Achei. - Disse, uniforme. - Hm, droga.
-O que é? - Gil se lambia, enquanto eu desenterrava a mala e a bolsa.
-Me cortei aqui. - Enterrei a mão entre as pernas, a escondendo no vestido. - Achei a bolsa.
-Se cortou?! - Ele parou, atento, olhando para mim. - Onde?!
-É só um corte. Aff... está mais pesada que antes! - Eu puxava a mala para cima, mas ela não se mexia muito.
A aba da mala soltou, ragando, e eu caí na neve, batendo as costas no tronco de uma árvore ali. A neve que estava sobre os galhos da mesma, me cobriu.
-Ly, droga! - Gil pulou em minhas pernas, tirando o máximo de neve com as patas. - Não consegue se manter viva e a salvo por um segundo?
-Estou bem. - Resmunguei, suspirando. - Saia daí.
Dessa vez, eu peguei a mala por baixo e a levantei. Mas eu não iria muito longe com a aba dela arrebentada. Estava pesada para carregar. Sentei sobre ela, suspirando.
-Não vamos a lugar algum desse jeito.
-Estou te pedindo para esperar alguém passar e pegarmos carona. Teimosa, quis vir a pé? Você não tem jeito. - Gil pulou ao meu lado, se jogando sobre a mala, deitando-se.
-Mas quem iria nos dar carona, Gil? - Suspirei, olhando para a mão sangrenta. - E além disso, o Vale do Gelo é muito longe para alguém querer nos levar até lá.
-Pra começo de conversa, essa viagem não devia nem ter começado! - Ele levantou a cabeça, brigando de novo.
-Okay, okay... Mas é Natal. Todo Natal agente ia pra lá com...
Abaixei o rosto, irritada.
Gil me olhou de lado, e voltou a se deitar, suspirando.
-Já entendi. - Ele resmungou. - Esqueça esse cara, Lyre. Não vale a pena. Além disso, ele não estava com aquela garota loira no dia em que disse que tinha que ir embora?
-Não precisa me lembrar!! - Explodi. - Eu sei...
Me encolhi ao me lembrar da imagem dele, e depois com a bela garota loira ao lado.
Eu sei...
Gil e eu ficamos em silêncio depois disso. Me veio um velho pensamento na cabeça. Não era uma boa hora para comentar aquilo, mas com Gil não era boa hora pra tudo.
Resolvi arriscar.
-Gilbert, você lembra...
-Hm?
Eu hesitei. Abaixei a cabeça, meio constrangida.
-Você se lembra que prometemos um ao outro que iríamos nos casar e...
-Olhe, Ly! É uma passeata de Natal! Quem sabe eles nos dão carona em um daqueles carros! Vamos! - Ele já estava na neve, pulando em direção a um enorme carro transado, onde pessoas cantavam músicas natalinas.
Fiquei decepcionada. Acho que era besteira desenterrar lembranças de infância naquele momento. Era perda de tempo.
-Tudo bem. - Sussurrei.
No fim das contas, aquelas pessoas foram gentis conosco, e acabamos indo bem além de uma cidadezinha agitada. Nos deixaram na estação ferroviária. Ali podíamos facilmente descer na cidade da Salvação e ir até o Vale do Gelo.
Mas houve um problema no trem.
"Senhores passageiros, o trem enguiçou devido a neve. Pedimos que os senhores saíam imediatamente, e se hospedem no vilarejo ao lado. Voltaremos a nossa rotina na segunda de manhã. Obrigado."
-Quê....?! Ah, não. - Suspirei. - Bem agora. Estávamos na metade do caminho já, e logo isso... Gil!
-Ah, não. Vou fugir. - Gil brincou, descendo do banco.
-Vamos pelos trilhos. Não deve estar muito longe.
-Tá maluca??! Nessa nevasca eu não vou a lugar algum! E você também não!! Está apelando para morte, Ly! Que droga!
-Mas você é só um gato. Não pode me impedir. Já estou indo. - Falei, quase cantalorando.
-Espere, Ly...!
-Opa. Desculpa, senhor. - Sorri amarelo.
Enquanto eu passava pelo corredor amontoada com a mala, esbarrei em alguém. Ele se virou, sorrindo. Era um rapaz de cabelos pretos e compridos assim como Gil, a única diferença é que ele prendia em um rabo e era um pouco mais longo os cabelos daquela pessoa, com uma barba rala e olhos quase amarelos. Ele não chegava ser alto como Gil, mas chegava perto.
-Ah, não tem problema. - Ele sorriu. - Vai ficar na cidade também?
-Oh, não pretendo. - Ri. - Eu vou seguir adiante por mim mesma.
-Nessa nevasca?
-Sem problemas. - Eu sorri para ele, tentando passar. - Foi um prazer esbarrar no senhor. He. Gil, vamos!
-Ah, não quer carona? Meu primo e eu estamos indo para a cidade seguinte também e vamos pegar um com um carroceiro conhecido daqui.
-Ah, obrigado. - Eu sorri. - Mas, não, obrigado. Eu quero realmente continuar como estou. Tenho Gil comigo, então estarei bem. - Eu ergui o gato preto no ar.
Gil estava meio enfezado por ser apenas mostrado como um gato.
-Ah, tudo bem. - Ele deu de ombros, sorrindo. - Meu nome é Túlio Hadclaw, para a senhorita. - Ele fez uma reverência com a cabeça.
-Ah... É? - Eu corei um pouco. Apressada, eu já me metia na multidão. - Meu nome é Lyre. Lyre Sakurana. Foi realmente um prazer, adeus!
-Lyre... Sakurama? - Ele coçou a cabeça. - Já ouvi esse nome... - E sorriu, dando de ombros.

-Ly! Olhe a tempestade de neve! Não vamos chegar lá! Vamos voltar! - Gil se escondia do vento gelado na cesta.
-Nada disso! - Eu tremia, enquanto tentava acompanhar o caminho dos trilhos. - Eu preciso, e vou chegar no Vale de Gelo! Não é essa neve insignificante que vai me fazer... - Tropecei, caindo no trilho.
Senti meu rosto se ferir, mas eu estava fraca para reagir a dor. Não tinha comido nada a algum tempo e nem dormido muito bem.
-Lyre! Ei, Lyre! Levante, vamos voltar! Lyre!
Mas a voz de Gil sumiu. Eu tinha apagado completamente. Meus ossos doíam tanto...

Afundei meu corpo na cama macia. Era quente e tão bom ali... Abri os olhos, sorrindo por estar em um lugar tão aconchegante.
Alguém segurava na minha mão. Era uma mão quente. O toque fazia meu coração vibrar.
Quando vi o rosto da pessoa, uma raiva tomou conta de cada fibra do meu corpo.
Na sala, Túlio virava uma folha de algum livro qualquer, escutando a barulheira no quarto no andar de cima. Um vaso caiu no chão, e ele revirou os olhos, rindo.
-É, primo. Cutucou a onça com a vara curta.

-Demitri! Pare de correr de mim! Você merece isso! Volte aqui...! - Eu tentava alcança-lo pelo longo corredor.
Mas ele se divertia fugindo de mim.
-Mas é que você está me dando medo. He.
Olhei para o lado, me apressando para tentar acerta-lo com o próximo vaso que visse. Sem efeito, ele desviou, tentando se aproximar de mim novamente.
-Sai!! - Eu gritei, chorando, me encolhendo. - Depois do que você fez você devia se envergonhar só por respirar o mesmo ar que eu...!
Ele suspirou, parando de rir. Se sentou no chão e, bem devagar, foi engatinhando até mim.
-Ly... - Ele sussurrou. - Eu posso explicar. Se você permitir.
-Não permito!! Quero que você morra! - Eu disse,  saindo engatinhando para o lado oposto. - Nunca mais quero ver seu rosto, Demitri! V...você...
Meu corpo tremeu e despencou enquanto eu rastejava para longe dele. Me virei para o chão, despencando em minhas mágoas.
-Ly, me escuta, por favor. - Senti sua mão tocar meu ombro trêmulo de raiva e dor. - Eu fui embora uma vez, e nem te expliquei o porquê. Aquela garota que você viu é...
-Não quero saber! - Eu gritei. Como ele tinha coragem de tentar explicar aquele pecado?
-Ela se chama Christina. Ela é minha irmã mais nova. Ela veio me chamar porquê papai morreu. Eu tive que ficar com ela por algum tempo. Ela estava desesperada e tem o corpo frágil. Mas confesso que foi cruel não ter te dito nada. Me desculpe.
Parei de chorar por um momento. Senti a mão dele me puxar para cima, para um abraço.
Demitri, em segundos, estava esticado no chão. Eu o dei uma boa cotovelada na fuça.
-Espero que isso sangre até você ficar seco e morrer! - Eu disse irritada. - Não explica os dois anos que você não apareceu, nem me escreveu. Você é ridículo, Demitri. Houve algo entre nós, mas acabou! Doeu muito quando você foi embora, cara! E agora você me fala que foi tudo um mal entendido?! Se bem que você sempre foi assim, desligadão. Adeus, Demitri.
Doeu. Porque na verdade, eu queria voltar para ele. Mas era difícil ignorar o erro fatal que ele tinha cometido. Se bem que ele é tão ingênuo que... Nada disso.
-Morra. - Sussurrei, e saí escada a baixo, procurando pela porta mais próxima para o lado de fora de seja lá aonde eu estava.
-Pisou na bola feio, hein, primo. - Túlio riu, em frente ao rapaz que lacrimejava por causa da dor. - Está sangrando mesmo, hm.
-Esse não é o fim! - Ele se levantou, com a mão no rosto.
-Ela vai acabar com você se ir atrás dela agora. Tem que contar a verdade se quiser que ela volte pra você. - Túlio riu, acendendo um cigarro. - Ou é melhor você deixa-la.
O rapaz parou no meio do caminho, olhando sombriamente para trás.
-Não se intrometa.
Túlio revirou os olhos, e riu novamente.
-Faça o que quiser. - Tragou o cigarro uma vez e voltou a sorrir. - Mas você não pode se deixar enfraquecer ao lado dela, hein, primo. Sabe o que irá acontecer.

-Francamente, quem ele acha que é?! - Eu disse, passando pela ponte que tinha por cima do lago que tinha em frente ao hotel deluxe. - E onde está o Gilbert? Quero ir embora imediatamente...
-Aqui em baixo, tonta. - Escutei a voz dele, de repente ao meu lado.
Agachei, abraçando-o com força.
-Gil! Vamos embora daqui! - Esfregando meu rosto em seu pelo.
-Ei, Ly. Me solte, sua pegajosa...! - Ele suspirou, quando o pus no chão. - Eu vi a briga de agora pouco. Eu te avisei que aquele cara não prestava! Não quero te ver com ele! Escutou?
-Por que isso de repente? - Suspirei. - Além disso, eu não vou voltar com Demitri. Ele foi mal comigo. Não quero ver o rosto daquele cara nunca mais.
Gil suspirou, andando já para frente.
-Ótimo. Isso mesmo. - Ele parecia realmente aliviado, mas escondeu o rosto ao dizê-lo.
O acompanhei até a porta do jardim. Parece que Gil já tinha providenciado tudo para que fôssemos embora. Estava tão mais desesperado do que eu?
-Ei, Gil.
-Hm?
Suspirei, deixando meu rosto um pouco preocupado.
-Apesar do que ele fez, e do que ele me disse agora pouco, parece que está escondendo alguma parte da história, não acha? O Demitri que eu conheço não fica bem quando está com algo em mente que tem consciência de que não está certo. Eu deveria voltar e repensar sobre...
-Lyre! - Gil se virou, parecendo realmente irritado. - Isso é estranho e pronto! Não importa o motivo, ele te deixou triste, te magoou, e você quer voltar para ele?!
-Eu sei, mas... Ora, somos adultos. Eu posso ter perdido alguma parte. - Falei baixinho.
-Não vai voltar pra ele e pronto! Hum. - Gil subiu na carroça, pronta para nos levar. - Vamos embora.
Suspirei, olhando para trás. Quando vi Demitri atravessando o jardim em minha direção.
Não pensei novamente. Peguei as rédeas, e parti, o deixando para trás. Ainda estava magoada, de certa forma, afinal.
Estranho foi que antes da vegetação do bosque esconder o lugar, quando olhei para trás, onde Demitri estava, ele tinha desaparecido. Talvez ele tenha caído. Fiquei preocupada, mas dei de ombros.

-Ainda quero ir para o Vale do Gelo. - Suspirei. - E Gil... aonde conseguiu essa carroça e o cavalo?
-Túlio me emprestou. O primo dele, no mínimo, nem é tão mal assim
.

-Que tal passarmos a noite aqui?! Que fofo...! Olhe, Gil!
Meus olhos faiscavam enquanto eu olhava empolgada para uma pequena vila toda enfeitada para o Natal. Parecia até que tudo ali era de brinquedo. Tinha um pequeno palco no meio da rua, onde haviam músicos e pessoas dançando. Era pequena e bem movimentada. Perfeita. A minha cara.
-Que nojo. - Ele falava, enquanto se lambia.
-"Que nojo"... É muito bonita! Vou alugar um quartinho para nós. Não vou passar a noite em um hotel na beira da estrada.
-Ah, tanto faz. Melhor que ficar perto daquele cara. - Disse, enfezado.
Enquanto andávamos pela vila movimentada e enfeitada, procurando por uma hospedaria, notei que Gil andava meio incomodado com a aparição repentina de Demitri.
Será que seria algo que eu pudesse perguntar pra ele? Olhei para o chão, vendo o gato preto andando irritado ao meu lado.
Deixei pra lá. Provavelmente, seria mais motivo de implicância comigo.

-Será que está tudo bem com ele? - Sussurrei, enquanto eu me trocava para dormir, já no quarto.
Gil parecia ter escutado, e suspirou, voltando a discutir comigo.
-Você está preocupada?
-Eu dei uma boa porrada na cara dele. - Eu ri, me lembrando. - Foi legal...!
Gil arfou, se jogando na cama.
-Ei, não olhe, seu tarado! - Ri amarelo, me encolhendo.
-Tá tudo bem, eu não estou olhando. - Suspirou de novo. - Por que você se preocupa tanta com ele se diz que não quer mais ver nem a sombra daquele cara?
Demorei para responder. Antes, terminei de me trocar. Depois me sentei na beirada da cama, pensativa.
-Eu não o odeio, afinal.
-Então você o ama?! - Gil se pois de pé.
Olhei para ele com uma sobrancelha levantada.
-Por que está tão interessado no assunto?
-N...não estou! - Se virou de costas, se deitando novamente. - Vá dormir, tontona!
Eu o encarei, confusa por algum tempo. Depois assoprei a vela ali ao lado e me deitei.
-Você é misterioso de mais as vezes, Gil.

-Gil? - Eu o procurava pelo quarto logo pela manhã. - Gilbert?
Parecia que ele não estava ali. Talvez tenha saído para dar uma volta. Não me preocupei muito mais com aquilo.
Alguém bateu desesperadamente na porta do quarto. Me assustei, tropeçando, caindo sobre a cama. Cambaleante, fui abrir a porta.
-Sim? Ah... Demitri...?!
-Você precisa me escutar bem agora! - Ele me empurrou para cima da cama, me prendendo pelos braços.
Aquela era a expressão que eu conhecia: os olhos fundos, trêmulos, e uma voz adolescente insegura. Ele não tinha mudado muito. O cabelo estava um pouco maior, talvez. Era liso, e ao mesmo tempo, um tanto ondulado.
-Saia de cim...!
Ele me segurava com mais força, enquanto eu me debatia.
-Me escuta! - Vi seus olhos deixarem uma lágrima nervosa sair. - Ly, me desculpa por ter me afastado de você! Mas se eu te contasse a verdade, você não iria compreender! Iria me chamar de... louco, ou algo assim! Por isso, por isso você tem que me escutar!
Deixei meus olhos em fendas se aliviarem, e suspirei, disposta a ouvi-lo.
-Diz.
-É que... - Ele parecia não saber decidir em que olho prestar atenção. - É que...
-Não quer se sentar, Mitri? Assim não vai a lugar nenhum. - Falei uniforme.
-Mas você vai fugir!
-Eu não vou fugir. Se prometer que vai tentar fingir ser uma pessoa civilizada. - Franzi a testa.
Meio inseguro, ele me soltou, e se sentou. Ainda segurava meu pulso, mas não olhava para o meu rosto.
-Eu não voltei, Ly, porque estou amal... - Ele hesitou.
-Mitri?
-Estou amaldiçoado. - Ele olhou para mim, com a testa franzida, assim como a minha.
Eu ri por um momento, achei que ele estava brincando.
-Como, amaldiçoado? - Meus olhos se fecharam em fendas novamente.
Ele me soltou, se levantando, pondo as duas mãos na parede, tentando se livrar do desespero que carregava em mente.
-Papai carregava essa maldição. Porque ele sempre se metia com o pior tipo de gente possível. Minha irmã estava desesperada, porque sabia que ele ia morrer, e me chamou. Isso estava certo. Até que quando ele morreu, isso foi passado para mim. Por isso não voltei. - Ele se virou de novo, pondo um joelho sobre a cama, chegando o rosto perto do meu. - Porque você iria ficar com medo de mim, e ia me deixar!
Eu o afastei um pouco com as mãos, ainda tentado compreender.
-E o que exatamente é essa maldição, Mitri? Você está falando mesmo sério?
-Mas é claro que é sério! - Ele ergueu a mão insegura no ar, passando em meu rosto. - Eu não te deixaria se não fosse pelo seu bem. F... fiquei com medo de que achasse que sou um monstro e... Eu me escondi. Túlio me achou e me fez voltar, mas eu não estava pronto até... Até eu me tocar que estava ficando louco por não poder te ver...!
Quando menos percebi, o rosto corado de Mitri estava tão perto, que não senti sua mão empurrando minha cabeça. Seus lábios quentes tocaram os meus, e seu corpo ficou mole, deixando seu peso cair sobre mim. Eu tentei afasta-lo, impedindo que o beijo continuasse, mas meu coração vibrante pedia mais.
Ele me prendeu em seus braços, e caímos no chão, os dois. Ele riu, vermelho, eu também corada, estava totalmente sem jeito.
-M...Mitri...?
-Sim, princesa? - Ele passou a mão em meu rosto novamente, com o nariz colado ao meu.
-V...você ainda não me disse, o que é essa maldição.
Ele ficou sério, e fechou os olhos. Uma outra lágrima quente foi derramada, caindo sobre meu rosto. Aquele simples gesto fez meu coração vibrar.
-É mesmo, né.

-O que significa isso?!
O corpo de Demitri foi jogado contra a parede com força, e eu me levantei do chão rapidamente.
-Gilbert! - Eu disse, sendo rápida ao subir na cama pular dela, me pendurando em seu corpo.
Ele tinha voltado ao normal, e vestia as roupas que eu havia comprado lá trás.
-Para, Gil! Está tudo bem! - Eu fui escorregando por causa dos longos cabelos de Gil, sendo inútil tentar para-lo.
Demitri se levantou cambaleante, sorrindo descaradamente.
-Então você é aquele gato preto? Eu lembro de você, Gilbert. Mas não acho que tenha que se intrometer em algo que é só da conta da Ly. Se ela me quiser de volta, a escolha é dela.
-Ora, seu... - Gil avançava para ele, mas eu tinha me prendido as pernas compridas dele.
-Eu não disse que voltamos!- Gritei para Demitri, e depois voltei a tentar impedir Gil. - Para, Gilbert!
-Sabe, Gilbert é realmente nome para gato, não acha? - Ele se apoiava no braço do sofá de madeira ao lado, com o corpo fraco.
-Para de provocar, Demitri! Gil, se acalma! Ele não me fez mal nenhum!
Gil parou, e me segurou pelos ombros à sua frente.
-Você o ama, não é?! - Seus olhos verdes tremiam de raiva.
-P...por que se importa com isso?! - Gritei.
-Você o ama...?
-Eu o amo, sim! E daí?! Isso não significa que eu vá voltar para ele, Gil!
Demitri deixou o corpo cair no chão novamente. Parecia que ele estava realmente machucado, pela pancada. Já bastava o soco que eu dera nele mais cedo.
-Mitri? - Olhei por cima do ombro.
-Já está noite, não é isso...? - Ele sorriu de lábios fechados, ainda ao chão.
-Mitri... - Arregalei os olhos.
Ele começou a se contorcer, parecendo que seu corpo estava em chamas ardentes.
Me virei para olha-lo por inteiro. Gil me envolveu, me mantendo longe de Mitri, atrás de seus braços.
Demitri se levantou com dificuldade, se apoiando nas paredes. Ele tentou sair pela porta, mas bateu a cabeça com força na parede na primeira vez. E então saiu.
-Demitri! - Eu tentei me libertar de Gil, mas ele me prendia com força. - Me solta, Gilbert! Me solta!
-Ly... - Ele tinha se abaixado, sussurrando em meu ouvido direito. - "Por que eu me importo tanto?" Isso não é obvio, sua idiota.
Prendendo meu rosto com uma só mão, segurando pelo meu queixo.
-Gil... - Fiquei meio assustada, eu não estava entendendo.
Ele parecia estar até mais desesperado do que Mitri, mas Gil era mais reservado. Ele não iria compartilhar o que estava pensando comigo tão abertamente. Não. Ele iria deixar para outra ocasião.
Ele só me fitava com uma expressão tristonha.
Me soltou, parecendo mais direcionado.
-Me desculpa. - E ele se sentou sobre a cama, passando a mão no rosto.
-Você voltou ao normal, que bom, não é? - Tentei anima-lo. - Não precisa pedir desculpas. Mas... - Olhei para a porta aberta. - Gil, Túlio deve ter te contado sobre tudo. O que o Mitri...
-Ele é transformado em um tipo de demônio, ao anoitecer, Ly. Se é o que quer saber. Aconselho manter distância. - Ele me encarou sério, e depois deixou o corpo tombar na cama. - E não a nada que possamos fazer.
-Nós não. Mas eu, quem sabe. - Sussurrei.
-O que está pensando? - Ele se levantou novamente, tão rápido, que levei um susto.
-Deve haver alguma maneira, eu acho.
-Ly...
-O que há, Gil!? Você é bem melhor como um bichano, de qualquer jeito. Droga... - Cruzei os braços. - E eu vou fazer Demitri voltar ao normal. - Suspirei.
-Mas...! - Ele já ia começar a falar, mas hesitou, de repente. - Nem sabemos por onde começar, sua besta. E isso é perigoso. Não vou te ajudar.
-Tudo bem, vou sozinha. Vou me trocar e voltar para falar com o Túlio.
-Ly...?!
-Que? - Parei no caminho para o banheiro.
-N...nada. Eu vou com você. - Ele abaixou o olhar.
Eu sorri, e entrei no banheiro. Durante um tempo, eu fique parada, olhando para minha imagem no espelho, pensando em Demitri.
Tomara que ele, no mínimo, fique bem...

-Impossível. - Túlio disse, enquanto tomava de um cálice de vinho. - E não é apenas o Demitri, sou eu também. E todos da nossa família.
-Mas tem que ter alguma forma! - Bati com as mãos sobre a mesa.
-Eu não sei, Ly. Se tivesse alguma forma, eu já teria feito.
-Ly, se ele está dizendo...
-Quem fez esse feitiço?!
Túlio pousou o cálice sobre a mesa. Fez-se silêncio por um longo tempo. Até que me virei de costas, irritada.
-Quem foi, Túlio?
Ele riu.
-Não vai querer ir atrás dessa pessoa. Ele pode ser um grande amigo de nosso pai, mas é um impostor. Já tentei ir atrás dele, mas ele nos ameaçou, e quase matou o Demi. Papai se vendeu para ele em troca de nossa fortuna a muito tempo atrás.
-O nome, Túlio. - Repeti, com a voz uniforme, mas impaciente. - Não importa quem seja.
-Ele é um feiticeiro. Mora bem mais ao Oeste daqui. Até lá, são quatrocentos quilômetros. Irá demorar dias e dias para chegar lá.
-O nome dele é...?
-Stephan Scoria. - Ele levou a taça a boca.
-Você pode me levar até lá, não é, Túlio. Afinal, você tem asas. Demitri não vai querer me levar até lá.
Túlio riu, se interessando pela idéia. Gil se levantou, me virando violentamente para ele.
-Não irei permitir essa loucura, Ly! Está doida?! Vai morrer...!
-Não se preocupe, Gilbert. - Ele riu, tomando mais um gole de vinho. - Aquele cara não irá resistir a uma garotinha jovem como a Ly. Ele é um garanhão de primeira, e, se tudo der certo, Ly pode matar o cara antes dele descobrir o plano.
Arregalei os olhos junto com Gil. E em coro, espantados, repetimos:
-Matar?!
-Isso mesmo. - Ele sorriu. - Clássico, não é? Uma punhalada no coração, e pronto.
-Se é tão simples assim, por que você já não resolveu?
-Por que é impossível chegar perto do Scoria sem morrer! - Escutei a voz de Mitri vindo de trás de nós. - E não vou deixa-la ir até aquele lugar.
De primeira, não reconheci sua voz. Estava mais rouca e ele estava cor de osso. Haviam presas em sua boca, e suas mãos haviam virados garras esqueléticas.
-Mitri... - Eu o olhei por um instante, e depois me soltei de Gil, olhando de Demitri para Túlio. - Claro que vou. Túlio, por favor, você pode me levar ainda hoje, está noite, aproveitando que vocês estão transformados?
-Nem pensar! - Escutei Mitri e Gil ao mesmo tempo.
Os dois se entre olharam com caras furiosas, e depois voltaram a atenção para mim.
-Isso é uma decisão minha, afinal. Posso ir até lá a qualquer instante que eu queira. - Eu disse aos dois, me voltando para Túlio. - Por favor, Túlio. Me leve até lá.
Gil suspirou, mas se sentou no sofá enfezado, e acabou por ficar quieto.
-Ly... - Escutei a voz rouca de Demitri no meu ouvido. - Por favor, não vai.
Seus braços, agora frios, me envolveram. Senti meu coração vibrar com aquilo. Eu queria ficar com ele. Mas aquilo teria que esperar.
-Vou cobrir sua falta, Mitri. Você ficou todo esse tempo longe de mim por causa disso... Agora vou te libertar dessa maldição.
Me virei para ele, olhando-o nos olhos, agora, cor vermelho vinho.
-Não vai... - Seu corpo estava mais mole do que antes.
Ele se abraçava em mim, mas também jogava todo seu peso sobre meu corpo.
-Demitri... o que há com seu corpo? Você está... Demitri, você está sangrando?! - Limpei o sangue que escorria um pouco pelo canto da boca dele.
-Ele bebeu sangue humano. Como o organismo dele não está acostumado a isso, ele está adoecendo. - Túlio disse, sem um pingo de ironia dessa vez, o que me fez falta nessa ocasião. - Ele não se alimenta bem durante o dia, Ly. Se ele comesse bem durante o dia, a fome demoníaca iria cessar durante a noite. Mas como ele passou muito tempo depressivo, longe de você, não andou comendo de dia, e seus instintos reagiram a noite. Ele foi beber sangue.
-Pelo que parece - Gil o olhava por pequenos intervalos. - Ele já está doente.
-Temo que sim. - Túlio voltou a encher a garrafa com o vinho cheiroso.
-Demitri...! - Eu o segurava por baixo dos braços. - Ele irá morrer do jeito que está! - Deixei algumas lágrimas caírem.
-Parece que esse é o único jeito de salva-lo, então. Não é interessante? - Túlio enchia cada vez mais a cara de vinho.
Estava começando a achar impressionante aquela bebedeira excessiva.
-Demitri, por que você se maltratou, seu tonto? - Ele deixava o rosto cair sobre o meu, tentando chegar nos meus lábios. - Mitri, você tem que descansar!
-Porque eu te amo, Ly. - Ele sussurrou, quando seu rosto caiu sobre meu ombro.
-Demitri! N...não faz isso!
Seu corpo caiu por completo em cima de mim. Ele estava fraco e morrendo.
-Gil!
Mas Gil já estava segurando o corpo dele, e o pondo no sofá.
-Mas esse idiota aparentava estar tão bem mais cedo. - Gil o fitou de mal-humor.
-Demitri consegue esconder bem sua situação quando está como humano. Mas quando cai noite, o que está dentro dele é mais forte. E ele não para de vomitar sangue. Normalmente, ele sai de casa durante a noite, se escondendo de mim. O caso é que a escolha é dele. Se ficar em casa, eu o prendo e o forço a comer comida normal. Mas ele rejeita, porque a noite, a sede por sangue é muito forte.
-Mas ele devia querer me morder também, não é, Túlio? - Eu disse, agachada ao lado de Demitri, segurando sua mão gelada.
-Sim. - Ele largou os lábios em um sorriso sinistro. - Mas é que ele está tão doente, que nem sente mais o cheiro de seu vício.
Eu passei a mão na testa fria de Mitri, que ofegava a cada instante, sem parar, tossindo.
Estava determinada a fazer o que podia por ele.
-Eu vou encontrar essa pessoa, então. - Eu disse séria, me levantando.
-Ly... - Ele puxou a manga da minha capa. - Fica comigo. Por favor, fica comigo.
-Eu vou te curar, Mitri. Eu prometo que volto antes do Natal. - Me ajoelhei de novo, segurando uma mão dele. - Estarei aqui em breve.
-Não vai. - Ele tossiu um pouco mais. - Se ir, promete voltar? Promete... que não irá fazer como eu fiz?
Eu deixei uma lágrima nervosa escorregar. Mas assenti.
-Eu prometo.
Antes de voltar a me levantar, ele puxou minha manga de novo.
-Por favor... Me beija.
Meu coração vibrou no fim da frase sussurrante. Mas, como sempre, ele já me manipulava a chegar para perto de seu rosto. Sua mão atrás da minha cabeça, tão rápida, me incentivava a continuar o trajeto até seus lábios. Ele corou um pouco, como sempre, antes de fazer meu coração virar uma bola de pura excitação e alegria. Derramei algumas lágrimas, porque era tão bom, que aquelas lágrimas seriam uma forma de testemunhar minha alegria.
-Eu volto logo, prometo. - Eu encerrei logo.
Primeiro que eu o estava beijando na frente do meu primo, Gilbert e de Túlio. Fiquei meio envergonhada.
Gil pigarreou.
-Terminou? - Ele disse, irritado.
Eu revirei os olhos, e depois acariciei uma última vez o cabelo de Mitri, que havia fechado os olhos, sem forças para continuar a piscar.
-Gil, cuida dele, por favor. - Eu pedi, o abraçando. - Você é meu melhor amigo, Gil, e é a pessoa que mais confio.
Gil pareceu corar um pouco com isso, mas ele só resmungou algo bem baixo, e me abraçou também, com o rosto tristonho.
-Vê se volta. Não me force ir atrás de você. Isso é loucura. Antes estávamos em uma viagem maluca para o Vale do Gelo, e agora minha prima doida e totalmente irresponsável tem que matar um mago "pegador" por causa do namorado demônio que apareceu de repente depois de dois anos. Como é que vou explicar isso para a tia Lika?
Eu ri com o resumo dos fatos.
-Nos vemos mais tarde, primo. Eu te amo. - Eu o beijei no rosto, e corri diante de Túlio, que já estava de pé, ansioso.

Já do lado de fora, no jardim, eu me segurei firme nas costas de Túlio. No meio da escuridão, eu me perguntava se ele iria enxergar.
-Ei, Túlio, você acha que está bem para voar depois daquelas quatro ou cinco garrafas de vinho?! - Minha voz saiu hesitante.
-Está tudo bem! - Ele respondeu, gargalhando, enquanto suas enormes asas negras já nos colocavam no ar.
-Tem certeza?!
-Não! - Ele voltou a gargalhar.
E, bom, era tarde de mais para mudar de idéia.

Achei ter escutado Gil falar "eu não esqueci nossa promessa," lá atrás, depois de nosso abraço de despedida. Mas achei que foi coisa da minha cabeça.

Não demorou mais que uma hora e meia para chegarmos. Fiquei meio assustada com o tamanho do castelo. Era um palácio e tanto.
-Quantas pessoas moram aqui mesmo? - Perguntei, tentando afastar meu medo repentino.
Túlio gargalhou enquanto pousava no meio da mata.
-Boa sorte, pequena. - Escutei enquanto ele sumia na escuridão.
O barulho de suas asas foi diminuindo conforme ele se afastava. Dali, eu estava sozinha.
Caminhei por entre as árvores, até chegar nos portões do castelo. Típico de uma história de terror, pensei. Mas aquilo, de certa forma, me deixava ansiosa para descobrir o que aconteceria a seguir.
Tentei ser mais prática, e já que a porta estava aberta, pulei a introdução, e fui entrando gigantesco hall do castelo tenebroso.
Tudo estava muito quieto. Tinha um relógio enorme no canto do hall, e notei também que o chão era coberto por um carpete vermelho que evitava o barulho irritante do andar de pessoas intrometidas - como eu. Ali tinha uma enorme escadaria, que se dividia, mais acima, em quatro caminhos diferente. Tentei um dos dois centrais, e comecei a subir.
Depois, começava por um longo corredor. Eu estava tensa. Onde foi que eu tinha me metido? Ainda pensava em ir até o Vale do Gelo. Eu poderia ir com Demitri e oficializar nosso namoro novamente. Mas naquele momento, eu não podia ficar pensando em menores problemas.
No fim do corredor, tinham duas cadeiras, parecendo tronos. Ridiculamente, corri para me sentar em uma delas.
-Plebeus. - Eu disse com uma voz esnobe, e depois ri da minha própria fala.
Notei que atrás das duas cadeiras ali, havia uma enorme janela, que mostrava o céu escuro. Não haviam estrelas nem uma lua brilhante no céu, então aquilo poderia significar uma possível tempestade.
A direita, havia um corredor mais estreito e pequeno. Haviam portados dos dois lados dele. Fiquei curiosa, e me apressei ao explorar o local. Era estranho que tudo estivesse tão quieto, parecia até que a casa, ou devo dizer, o castelo, estava abandonado. Mas estava em ótimo estado, e bem cuidado de mais para estar abandonado. Apenas estava muito silencioso.
Ouvi um sussurro. Não sei se era bem um sussurro, porque eu não conseguia escutar muito bem. Poderia ter sido o vento.
Ao fim do corredor, ele se prolongava para a direita e para a esquerda. Tomei a esquerda, entrando cada vez mais no enorme castelo.
Tudo era tão refinado... Poderia ser um pouco mais claro, mas tudo bem. Não deixava de ser belo.
Foi quando dei mais dois passos que comecei a escutar um barulho bem baixinho. Parecia uma melodia, tocada por piano. De certa forma, aquela música me atraía, e me deixava ainda mais ansiosa para descobrir seu locar de origem.
Olhei uma vez para trás, pensativa. Talvez fosse melhor aguardar alguém aparecer, porque eu poderia me perder dentro do lugar. Mas dei de ombros, e comecei a andar.
O vento sussurrava passando pelo corredor. Eu só não sabia da onde ele estava vindo. Porque eu não enxergava nenhuma janela. Nem mesmo o fim do corredor.
O som vinha de um andar acima. Olhei para o teto, e encontrei um enorme lustre com velas. Estava apagado, claro. Eu não conseguia vê-lo muito bem.
Tinha que ter alguma forma de alcançar aquela melodia. Uma escada... Isso! Ali ao canto, havia uma escada caracol estreita. Fiquei receosa quando toquei o corre-mão, mas minha força de vontade estava agindo além de mim, e rapidamente subi.
Naquele andar, dava para uma sala com lareira, sofás e uma mesa de jantar. Estranhei, pois haviam dois pratos posto na mesa, os talheres e a porcelana acompanhando.
Mas não dei muito mais atenção para aquilo. Continuei a seguir a melodia pelo corredor que continuava ali, ao canto da sala.
Quando cheguei ao fim deste, uma porta estava entre aberta. Me deu um certo desespero nesse momento, como se eu devesse sair correndo daquele lugar, mas quisesse ficar ali, ao mesmo tempo.
Lenta, eu encostei a mão na porta, com medo que ela rangesse se eu a empurrasse. Mas ela acabou abrindo sozinha, o vento a empurrou um tanto. Paralisei quando isso aconteceu.
Depois de um tempo, quando meu choque havia passado, eu espiei para dentro da sala. Estava vazia, e só do outro lado do enorme salão, havia um piano genuíno de madeira. Uma pessoa o tocava divinamente. Ele era muito bom.
Ousei a entrar na sala, silenciosa, e talvez esperar aquela pessoa terminar de tocar a melodia.
Ele virou a cabeça para o lado, me olhando com o rabo dos olhos por um momento. Eu senti um pouco de medo, me afastando um pouco. Mas ele fez um gesto com a cabeça, fazendo sinal para que eu me aproximasse.
Demorei um pouco para me mover, porque agora, eu estava com medo. Mas, passo por passo, cheguei até seu lado.
Eu sabia tocar piano, mas fazia tanto tempo que eu havia aprendido... Aquilo era humilhação. Ele deveria ser um profissional.
Ele deixou apenas uma mão no piano, deixando a música apenas aguda, e me incentivou a sentar-me ao seu lado. Eu não olhei ainda para seu rosto, tremendo.
Sua mão alcançou a minha, e a pois sobre o piano. Eu poderia tentar acompanhar. Ele agora, subiu a mão para meu ombro, me encorajando.
-Mas eu não me lembro. - Sussurrei.
Ele esfregou a mão em minhas costas - meu coração vibrou um pouco com isso, então me senti um pouco incomodada - e voltou a me encorajar.
Tentei começar a acompanha-lo, bem devagar. A melodia parecia fazer algum sentido, afinal. Sendo assim, fiquei feliz por continuar, e fui movendo os dedos, e o acompanhando.
Quando terminou, finalmente, me senti nervosa. Tirei a mão do piano, e a pousei sobre minhas pernas, de cabeça baixa.
Ele riu. Sua risada também atingiu um pouco o meu coração, mas dessa vez, eu gostei.
-Está tudo bem? - Ele perguntou, passando o braço a minha volta, arrastando meu corpo para perto do dele.
Meus olhos se arregalaram um pouco com isso. De repente, fiquei meio irritada. Não parecia certo. Mas eu precisava fazer isso. Pelo bem do Mitri. Ele deveria estar vomitando litros de sangue, agora. Tremi só de pensar sobre isso.
-Algo está te incomodando? - Ele aproximou o rosto do meu, tentando encontrar meu olhar.
Eu só vi a parte de baixo de seu rosto, e ele parecia ser muito bonito. Seus traços perfeitos eram sedutores. Mas não fiquei encarando o rosto dele muito tempo.
-Me desculpe. - Sussurrei. - E... eu estava perdida e, e fui entrando sem bater ou pedir permissão... - Comecei meu teatro.
Ele riu, e me abraçou, como se nos conhecesse-mos a longo prazo. Seu perfume cheiroso me seduzia, e me fazia querer abraça-lo também. Mas me mantive quieta, na minha. Não ia dar corda.
-Agora está segura em minha residência, senhorita. - Ele disse em meu ouvido.
-Hãm... obrigado. - Sussurrei novamente.
 Ele riu novamente, baixinho.
-Parece estar com fome, não é, senhorita? - Enquanto alisava meus cabelos.
-Não se incomode. - Fingi estar um pouco sem jeito. - Eu vou embora.
-Ah, não seja tão apressada. Não há problema em passar a noite aqui... comigo. Não irá dar trabalho nenhum. Além disso, o jantar já está servido.
Seria possível?
Quando voltamos naquela sala, por onde eu havia subido, a mesa, antes apenas com os dois pratos, estava servida de um banquete magnífico. Minha boca se abriu em um perfeito "O".
-Então, sirva-se, minha doce visitante. - E ele estendeu a mão para a mesa, segurando a minha com a outra que estava livre.
Achei o jantar meio tenso, pelo fato de que eu acabara de conhece-lo, e ele me tratava como uma amiga íntima. Chegava a ser um insulto. Mas eu não estava ligando muito para isso.
Enquanto ele se servia de vinho, eu me encolhi, por já ter terminado - não era de comer muito, sabe.
-Como disse que se chamava, senhorita? - Ele sorriu.
Arregalei os olhos quando o olhei. Dessa vez, consegui ver seu rosto todo. Ele era realmente lindo, e ele tinha cabelos sedosos, que despencavam graciosamente para todos os lados. Seus olhos enigmáticos, pareciam ser hora amarelos, hora verdes, hora azuis... Eu não sabia dizer.
Era melhor não confessar meu nome verdadeiro, eu teria que ser rápida e inventar.
-Ly... Lisandra. - Eu disse baixinho, e abaixei a cabeça.
-Lisandra, hm? - Ele bebeu da taça e continuou. - Um belo nome.
-É... obrigado.
-Mas eu acho que seria melhor você me contar seu nome de verdade. - Ele riu, enquanto bebia da taça de novo.
Arregalei os olhos, mas fechei o rosto em uma máscara séria. Levantei a cabeça e o encarei por algum tempo.
-Não irei dizer meu nome a um estranho.
Ele gargalhou. Fiquei meio hipnotizada, mas tratei de me ligar.
-Está certo, pequena. Mas acontece que seus olhos já me contaram seu nome, Lyre.- Ele pois as mãos sobre a mesa, entrelaçando os dedos.
Ele me olhava sorrindo, prazeroso. Afinal, tinha me posto contra a parede agora.
"Será que ele sabe, então, o motivo por qual vim aqui?"
Ficamos nos encarando em silêncio, até que resolvi me levantar. Deixei um talher cair no chão, propositalmente. E enfiei a faca na manga do vestido, escondendo-a.
-Acho melhor... ir embora. - Eu disse, tentando segurar a máscara.
Eu ainda precisava fazer o que tinha vindo para fazer. E não podia ser descoberta tão cedo.
Quando me virei para sair em direção a escada caracol, ele já estava com a mão erguida na minha frente. Me assustei com aquilo. Olhei para trás, e seu lugar estava vazio.
-C-como...?
-Já disse que pode passar a noite aqui, Lyre. Eu a acompanho até meus aposentos. Pode ficar lá. Eu ficarei em qualquer outro quarto. - Ele sorriu.
Meu corpo tremeu um pouco, mas abaixei a cabeça, e segurei na mão dele. Ele sorriu, satisfeito, e me segurou nos braços, não dando uma brecha se quer, para que eu tentasse fugir.
Por debaixo de meus cabelos, com a cabeça baixa, eu sorri tenebrosa, satisfeita com meu progresso. Agora, só dependeria de mim.

Durante a noite, me levantei da cama. Escondi a faca sob o travesseiro quando ele me forçou a trocar de roupa, pondo uma camisola preta e quente. Não gostei muito, porque me deixava um tanto que sufocada. Mas tive que agradecer.
Ele deveria estar em um cômodo próximo. Mas eram tantas portas, que o problema era achar o quarto certo. E entrar sem acorda-lo. Mas será que uma pessoa tão estranha, dorme a noite?
Notei que agora, as velas que serviam de luz em toda a casa, estavam acesas, e isso facilitava um pouco. Mas aquilo podia significar que ele estava acordado. Então escondi a faca na manga novamente.
Eu estava no terceiro andar, numa sala vazia onde apenas tinha uma grande janela que cobria a parede toda. Fiquei curiosa por olha-la. Perdi uns vinte minutos admirando a paisagem escura. Pensei em Demitri, se ele estaria bem. Ele parecia mais uma garotinha, e eu o príncipe herói. Mas ele conseguia me deixar sem graça toda vez que se aproximava de mim.
Suspirei, me sentando sobre o tapete que cobria toda a sala. E resolvi relaxar um pouco, irritada.
Dois braços me envolveram, e me arrastaram para o meio de duas pernas compridas. Me assustei com aquilo, mas a mão dele impediu com que eu protestasse.
-Achou minha sala secreta, não é? - Ele riu, massageando minha cabeça com a ponta dos dedos. - Você é uma garota bem espertinha.
Quando ele tirou a mão, finalmente, eu tentei fugir, mas seus braços me prenderam contra seu corpo novamente.
-Me solta!
-Ah, porque... ? - Ele me abraçava cada vez mais forte. - É tão divertido.
-Não...! M...me solta, eu...
-Ei, Lyre. Eu sei porque está aqui. - Ele riu.
Eu arregalei os olhos, e fiquei quieta por algum tempo. Confuso, ele tentou beijar meu pescoço, esperando que eu tentasse fugir novamente.
Tentei ser rápida. Me virei, fingindo abraça-lo, fazendo com que ele caísse sobre o tapete, deitado. Fiquei sobre ele, prendendo os lábios, tentando me deixar mais convincente.
Ele sorriu, parecendo estar gostando da minha ousadia. Então continuei, aproximando meu rosto perto do dele. Quando me vi preparada, tirei a faca da manga e rasguei o ar com ela, sentada sobre suas pernas.
Meus olhos se arregalaram, ele havia parado minha mão no ar facilmente. Sorrindo malicioso, ele tirou a faca de minha mão, a jogando para longe, e nos invertendo no chão.
Ele se pois sobre mim, e fiquei sem saída. Não conseguia me mover, por mais que eu tentasse chuta-lo, ou escorregar para o lado. Ele era forte de mais.
-Que vai fazer comigo? - Sussurrei, agora realmente assustada.
-Nada, eu... - Ele riu. - Se casar comigo, liberto seu namorado da azaração.
-Casar com você?! Nunca! - Virei o rosto, tentando ficar o mais longe possível do olhar dele.
-Então ele irá morrer. - Ele riu, e se sentou de joelhos ao meu lado. - Sinto muito por isso.
Eu respirava rapidamente, e minha testa suada me deixava ainda pior. Dei um tempo para que meu corpo voltasse ao normal. E então, me sentei, me encolhendo.
Não sentia meu coração bater. Seria forçada a amar uma pessoa que não gosto, para salvar a que amo de verdade?
-Sente nada. - Eu sussurrei.
Ele riu de novo, e engatinhou até mim, pondo a mão em meu ombro.
-Você é uma pessoa terrível. - Continuei. - Mas... aceito. Se prometer que irá cura-lo.
Stephan riu, e passou a mão em meus cabelos.
Prometo.

Faltava um dia para a véspera do Natal. Eu estava vestida com um vestido branco um tanto que exagerado. Mas era bonito. Uma pena que eu odiava meu noivo.
Suspirei de frente ao espelho. E irritada, caminhei para fora do quarto. Onde ele me aguardava. De pé, com terno, e uma cartola preta.
Bonito de mais para ser o vilão. Revirei os olhos.
Estendi a mão para ele, e com sempre, ele a beijou, antes de me guiar.
Não estranhei ter uma pequena capela no jardim do local. Estranhei, sim, quem iria nos casar. Não havia ninguém ali. Apenas eu e ele.
-Eu aceito casar com essa bela dama. Sempre a amarei e estarei ao lado dela. - Ele sorriu, estendendo o anel e pondo em meu dedo. - Agora, Lyre, você me aceita como seu esposo?
Então era assim que ía ser. Demitri, pelo menos, estaria bem. Fiquei feliz pelo menos, por isso. Dei um pequeno sorriso, ao me lembrar de seu rosto. E o de Gil. Meus melhores amigos.
Como eu iria contar a papai e mamãe sobre isso? Que me casei com um completo estranho um dia antes da véspera de Natal, e que esse é o fato que explica minha ausência em casa?
Suspirei, falando baixinho.
-Aceito.
E também enfiei o anel em seu dedo, sorrindo levemente, sem vontade. Derramei uma lágrima, que escorreu de meu rosto para o chão frio, de pedra.
-Se existe alguém que se opõe a essa união, diga agora, ou cale-se para sempre. - Ele disse, brincando.
Eu olhei para seus olhos, mas voltei a abaixar a cabeça. Realmente queria escutar a voz de Mitri, ou de Gil dizendo...
-Eu me oponho!
Ambos olhamos para quem o disse, que entrava pelo tapete vermelho com um pedaço de pau na mão. Uma varinha? O que era aquilo afinal?
-Túlio! - Sorri, soltando as mãos de Stephan.
-Ly, venha pra cá! - Gil apareceu ao lado de Túlio, me estendendo a mão.
Meus olhos brilharam. Tentei chegar até ele, só que Stephan segurou meu braço, e eu acabei caindo, com a dor.
-Ah, convidados. Que bom. - Ele disse, rindo. - Não adianta mais. Eu me casei com ela.
-Não é oficial até que a beije! - Túlio riu.
Stephan e Túlio eram muito parecidos, no aspecto de serem irônicamente irritantes com as palavras.
-O problema é esse? - Ele me puxou para perto.
Virei meu rosto, tentando fugir, estendo o braço para Gil.
Um feixe de luz verde passou por cima de mim, e Stephan soltou meu braço. Eu sorri, e desesperada, corri para encontrar a mão de Gil.
-Ly! - Escutei Stephan gritar. - Hm, então, você vai trair seu noivo no dia do casamento.
Me virei para olha-lo.
-Eu não sou sua noiva, e nem vou me casar com você, Stephan! Retire o feitiço!
-Trato é trato. E agora, todos irão morrer. - Ele riu, e estalou os dedos.
O vidro que fazia dali um local fechado, se quebrou, e os cacos flutuaram.
-Última chance, Ly. - Ele disse, sorrindo.
Meus olhos tremeram, mas não deu tempo de pensar, porque Gil já me carregava para fora do local comigo por sobre os ombros.
Túlio começou um duelo com Stephan através da varinha. Eu só via os lampejos de luz, que iluminavam todo o local.
-Gil, e o Demitri?! - Perguntei, em meio a fuga.
-Que tal conversarmos mais tarde... ?! - E entramos no enorme castelo.
O único modo de sair, era por onde entramos, a porta principal.
-Túlio vai ficar bem?!
-Espero que sim!
E enquanto subíamos as escadas que levavam ao jardim, uma explosão verde se estendia lá fora.
-Túlio! - Sorri.
Ele vinha correndo atrás de nós.
-Vai, vai, vai!
Uma faísca amarela passou por Túlio, que havia desviado, mas acertou a perna de Gil. Aquilo poderia ser um problema?
Sim... Porque quando passamos para o corredor, Gil acabou me derrubando no chão.
-Gilbert! - Olhei ao redor, mas apenas suas roupas estavam no chão. - Gil!
-Vem, deixa isso pra lá! - Túlio recomeçou a me arrastar.
Escutei os passos de Stephan subirem a escadas, mas ele parecia tranquilo, porque nem chegava a correr.
Meu dedo começou a queimar. Percebi que o anel fazia isso, e ardia cada vez mais.
-Túlio... minha mão...  - A dor já estava tanta, que eu chegava a derramar lágrimas.
-Tira o anel! Está envenenado! - Ele olhou apenas por um momento, e depois voltou a correr comigo.
Já estávamos no grande corredor, onde haviam as duas cadeiras que pareciam tronos.
Enquanto passávamos, o chão se rompeu a nossa frente, se abrindo ao meio, e não nos deixando passar. Enquanto eu lenta, com dor, pensava em uma forma de pular aquilo, Túlio me arrastava para o corredor a esquerda, e novamente ao fim dele, entramos a esquerda, indo em direção as escadarias centrais.
Eu não consegui tirar o anel, não dava. Quando finalmente chegamos ao hall, aliviados por estarmos perto da porta, ela começou a queimar, impedindo nossa passagem.
-Droga. - Túlio me sentou no chão. - Deixe-me ver.
-Não sai... - Gemi, ainda tentando tirar.
-Espere, espere, eu vou tira-lo.
-Ele só irá sair, se eu quiser. - Escutamos Stephan.
Ele estava a alguns metros de nós. Então aquela era a verdadeira identidade daquele bruxo.
-Tire isso da garota, seu desgraçado! - Túlio se levantou, avançando na direção de Stephan.
Seu corpo atravessou o de Stephan, como se ele fosse de fumaça. Quando ele caiu no chão, Stephan apareceu ao seu lado, e com um movimento com a mão, fez o corpo de Túlio voar, e bater com força contra o pilar mais próximo.
-Para...! - Tentei impedir, em meio a dor. - Por favor, eu me caso... com você... Mas pare, Stephan!
Ele sorriu. Caminhou até mim, e com um movimento de seu dedo, fez com que meu corpo se estendesse no ar, de frente a ele. Mesmo assim, eu virei o rosto, para não encara-lo.
-Incrível com os pessoas mudam de idéia conforme a necessidade. - Riu baixo.
Ouvi um miado vindo de baixo. Ambos olhamos. Um gato preto e magro arranhava as pernas de Stephan com toda a vontade, mas facilmente, Stephan o chutou, o fazendo voar no ar, e cair com violência no chão.
-Gil! - Gritei. - Stephan, quero que você morra!
Ele riu, chegando perto de meu rosto, encostando sua testa na minha.
-Morre comigo. - Sussurrou.
E depois disso, seus lábios avançaram para perto dos meus.
Foi muito rápido. Eu nem notei as coisas acontecendo, com meu corpo queimando.
Fora a mágoa que eu sentia por ter metido Gil e Túlio naquilo, com a esperança de derrotar um bruxo forte daqueles.
Então, apenas vi os olhos, agora meio acinzentados, de Stephan arregalados. Começou a descer sangue de sua boca, e ele caiu para trás. Seu corpo se contorceu no chão, e eu vi uma pequena faca enterrada em seu peito. O sangue manchava o chão, e se misturava com a cor do carpete vermelho.
Meu corpo caiu com violência no chão, mas não doeu tanto, quanto aquele veneno de cobra me queimava. O anel derreteu, sumindo de meu dedo. Vi Gil se transformar em humano novamente, mas não fui muito mais além disso. Porque eu acabei apagando.
Doía tanto...
Acabou?

Quando acordei, desesperada, procurando sair de onde estava - parecia ser uma carruagem fina, da qual pensei que pertencia a Stephan.
-Calma, Ly. - Ele riu. - Estou aqui.
A voz me paralisou. Seria possível...? Virei a cabeça lentamente, só para ter certeza de que não estava errada.
-Demitri... - Meus olhos se arregalaram. - Você está...
-Bem? - Ele riu. - Estou ótimo. Graças a você, Ly.
Minha boca se abria, impressionada em ver a imagem perfeita de Mitri depois de tanto tempo.
Eu o abracei, com tanta força, que era capaz deu mata-lo. Mas eu ainda estava fraca, então não foi nem tão forte assim.
-Ly... - Ele riu de novo. - Calma...! He. Estou ótimo, mas assim vai me sufocar.
-Ah, é verdade. - Eu corei, me afastando. - M-me desculpe, é que...
-Ly.
-Hãm? - Eu corei quando meus olhos encontraram os dele, e eu deixei escapar um sorriso.
Mas agora, eu estava feliz de verdade.
Mitri prendeu meu rosto em suas mãos quentes, e encostou a ponta do nariz no meu.
-Eu senti saudades. Me desculpa por te fazer sofrer tanto... Eu apenas... sou um idiota. Todos concordamos com isso.
Fiquei sem jeito por um momento, mas desviei o olhar para o lado por um segundo, deixando escapar o comentário:
-Isso é verdade. Você é um idiota, Mitri. - Eu sorri, e voltei a olha-lo.
Ele estava corado, e seus olhos tremiam um pouco.
-Mitri? - Assustada, achei que tinha o ofendido.
Mas ele apenas tocou seus lábios nos meus, me fazendo lacrimejar de alegria. Minha pele esquentou até o talo de um segundo para outro, e me entreguei ao beijo.
Como eu te amo...
Escutamos uma pigarreada ali a frente. Nossos olhos se abriram, olhando para o lado rapidamente. Fomos obrigados a separarmos nossos rostos.
-Ah, Gil... Não te vi aí. - Desviei o olhar, sorrindo descarada.
-Idiota. Porque insistem em se beijarem na minha frente? Droga. - Ele parecia irritado de novo.
Então me lembrei de antes, enquanto Mitri se explicava, eu me tocava de uma coisa.
-Ah, G-Gil... Achei que você estivesse dormindo porque acabou de ser medicado e... D-desculpa e...
-Desculpa, Gil. - Eu abaixei a cabeça. - Nossa promessa... Me desculpa.
Gil franziu a testa, mas depois, com o rosto vermelho, virou a cabeça para o vidro, fingindo olhar a paisagem.
-Tudo bem, Ly. - Ele disse, meio hesitante.
Suspirei, segurando na mão de Mitri.
Mas então Gil, de repente me beijou no rosto e voltou a olhar para a paisagem.
-Hãm, o quê...?! - Mitri ia começar a dar um treco.
Mas eu o abracei, encostando a cabeça em seu peito, suspirando contente.
-Que bom que as coisas se ajeitaram, né? - Sorri.
Demitri me envolveu também, acariciando meus cabelos.
-Sim, afinal. Obrigado, Ly. - Me apertou com um pouco mais de força por um segundo, e logo voltou a me abraçar normalmente.
Pensei em Stephan. Naquele momento, quando ele ia... me beijar, ou algo do tipo, alguém lançou o punhal nele.
-Agradeça a seu primo, não a mim. - Eu disse, feliz. - Foi ele que matou aquele bruxo.
Gil olhou sem expressão para nós, erguendo uma sobrancelha.
-Hm?
-Não foi Túlio.
-E também não foi eu. - Eu disse, franzindo a testa.
-Quem foi? - Mitri sussurrou.
-Foi Christina. - Ele sorriu. - Ela me forçou leva-la junto naquele dia, caso acontecesse alguma coisa. Já que ela e eu estamos juntos, ela resolveu me seguir e, não deu para...
-Minha irmã?! - Demitri se levantou, um pouco irritado. - Você está com minha irmã?!
-S...sim. - Gil sorriu amarelo, mas logo ficou sério. - E você com a mina prima.
Ambos suspiraram. Eu ri.
A carruagem tremeu um pouco, e Mitri caiu no banco, se sentando novamente ao meu lado.
-A propósito, aonde estamos indo?
Mitri virou o rosto para mim, sorrindo.

-Ah...! O Vale do Gelo é tão lindo! Olhe, Gil! Está nevando! - Eu me atirei sobre Gil, o derrubando na neve.
Seu cabelo comprido ficou sujo de branco, e eu ri, jogando um punhado de neve na cara dele quando ele se levantou novamente.
-Vou te pegar, garota. - Ele levantou uma sobrancelha, fingindo rir, irritado.
Naquele lugar, tinha um enorme lago. Estava congelado, claro. E dês de pequena eu freqüentava ali. Mas por um tempo, fiquei sem ir. Por conta da mudança, quando fui morar sozinha. Mas em uma véspera de Natal, resolvi visitar novamente aquele local sozinha, e então, eu conheci Demitri.
Todo ano, ele me trazia naquele lugar e sempre dançava comigo sobre o lago congelado, por mais que eu o derrubasse muitas vezes, por não saber patinar. Mas nos divertíamos muito.
-Gil! - Escutei uma outra voz. - Vamos até a loja de doces...?! Lá tem canudos açucarados que preciso experimentar! Ly me disse que você também gosta, então...
Christina era mesmo bonita, loira e abaixa. Perfeita para Gil, e totalmente o oposto dele. Era engraçado ver os dois tão felizes juntos, e isso também me fazia feliz. Gil não ia ficar no meu pé perto de Demitri.
Falando nisso, ele me esperava na pista de gelo.
Com algum esforço, caminhando sobre a neve fofa, consegui chegar até ele.
-Ly, eu já volto. - Escutei Gil, mas nem olhei para vê-lo.
Meus olhos só seguiam Demitri.
Quando entrei na pista de gelo, meus pés escorregaram, e por um momento, achei que iria passar o Natal sem meu tornozelo no lugar. Mas os braços de Mitri já estavam dispostos ali, me segurando. Era bom tê-lo perto novamente. Eu corria menos risco de vida.
-Ei, Ly, eu quero te dizer uma coisa importante. - Ele disse, enquanto estávamos no meio da pista, agora parados.
-Hm? - Meu nariz enterrado no pescoço dele.
Ele me afastou um pouco agora, passando a mão em meu rosto. Ficamos nos olhando por algum tempo, e começou a nevar. Os flocos macios de neve caíam levemente sobre nós. Era mágico...!
Ele segurou minha mão, sendo discreto, e rápido ao se abaixar.
Vi um pequeno objeto brilhar entre seus dedos, e seu rosto branco ficar vermelho novamente.
-Ly, depois de tudo isso, achei que... Hoje seria um dia perfeito para lhe falar. Sabe que eu te amo, e que me arrependo por ter sido um retardado. Se disse não, eu irei entender. Então...
Pisquei rápido duas vezes, tentando entender.
-Hm...?
-Você... você quer casar comigo, Ly?
Demorei um pouco para receber a mensagem, como sempre. Meu coração foi mais rápido do que eu, começando a bater fortemente, e fazer meus olhos lacrimejarem.
-Tudo bem se disser que... Ly?
Eu me abaixei, ficando de joelhos de frente para ele. Fiquei inexpressiva por um momento, porque eu não estava conseguindo organizar meus pensamentos. Mas então, cheguei perto de seu rosto, o fazendo voltar a corar, e devagar, encostei meus lábios nos dele, o pegando de surpresa.
Acho que escutei Gil gritando alguma coisa do outro lado da pista, mas nós estávamos muito ocupados.

Enfim, voltamos para casa a tempo do Natal. Foi bom rever papai e mamãe, e a chata da minha irmã. A casa estava uma bagunça, mas isso pouco importava para uma festa de Natal. Todos trouxemos pratos diferentes, e naquele mesmo dia, eu e Demitri ousamos tentar a fazer um bolo. Não ficou muito bom, mas era um bolo.
Então, tudo correu bem.
Dançamos a noite toda, cantamos músicas natalinas... Típico de uma família, da minha família.
Mas quando deu meia noite, todos ouvimos um estrondo do lado de fora.
-Pessoal, aqui! - Túlio gritou do topo de uma árvore.
A maior árvore de Natal que eu já tinha visto na minha vida. E então, dela começaram a sair fogos de artifício, que explodiram no céu. E foi tão lindo...
E então, enquanto todos estavam entretidos com os fogos, Mitri e eu fomos para atrás da casa, no meu pequeno jardim de rosas roxas, onde tinha um balanço.
-Nunca me senti tão bem.
-É... Nem eu. - Sorri, vendo os fogos, sentada ao lado dele.
-Ei, Ly.
-Hm?
-Sabia que eu te amo?
Sorri, me encolhendo para perto dele.

Que seja sempre assim, né?

                                                                                                        I. S. Greco

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