sábado, 25 de dezembro de 2010

Oitavo Capítulo Ilusão

-Ame!
Assim que passei pela porta de entrada de algum quarto que Shiro havia reservado temporariamente para mim, Nídia me agarrou, me abraçando. Era difícil respirar.
-N-Nídia... - Eu tentei dizer, sufocada pelo abraço forte.
-Eu fiquei preocupada – Sua voz amorosa, agora, tomou um rumo mais severo, olhando para meu rosto com os olhos em fendas. - O que você estava pensando? Sair correndo da segurança do nosso quartel... Poderia ter se ferido! Existem muitos monstros lá fora nesse momento! Nunca mais faça isso comigo!
Eu sorri, feliz em com a preocupação de Nídia. Mas meu sorriso escorreu quando vi os cortes, já cicatrizados, em seu rosto claro de porcelana. Ela notou, quando me viu abaixar a cabeça, fazendo uma cara irritadiça.
-Ei. - Ela levantou meu rosto com a mão. - Foi um acidente. Acidentes acontecem. Está tudo bem agora. Vê? - Ela pontou para o rosto, sorrindo.
Eu sorri também, um pouco mais confortada.
Não existem acidentes.
Escutei a voz de antes. Mas já estava virando hábito tê-la em minha cabeça, então eu a ignorei.
De repente, acordei de meus pensamentos que já estavam começando a vagar para o além.
-Ah, Nid, preciso te apresentar uma pessoa. - Eu a puxei para fora do quarto.
Estávamos paradas na porta, mesmo assim, tive que fazer algum esforço para arrasta-la.
Kio, alto e mal humorado, estava encostado na parede. Nós dois tínhamos feito uma trilha de lama e sujeira quando entramos pela porta dos fundos do grande castelo. Fiquei preocupada com isso, mas Shiro disse que não iria ter problema.
-Oh, que pessoa alta! - Ela disse com a boca aberta em um “O”.
-Nídia, eu conheci essa pessoa, bom... enquanto estive fora. - Dei de ombros. - Kio, essa é a Nídia. - Dei um tapa em seus braços, para descruza-los.
-Kio? O nome dele é esse?
-Na verdade, é um apelido. Mas o chame assim. - Disse sussurrando no ouvido de Nídia, para provoca-lo.
-Hunf. Que seja. - Ele revirou os olhos. - Por que eu estou aqui mesmo?
-Se quer ir embora, apenas saia, se este lugar esta o incomodando. - Arqueei minha sobrancelha esquerda.
Ele bufou, mas me segurou pelos braços, esfregando a mão em minha cabeça com força, fazendo queimar.
-Idiota, o que está fazendo? - Eu tentei me libertar,
-Eu achei que você precisasse de uma babá.
No meio da brincadeira, ele parou, pondo a mão em meu ombro. Eu estranhei, mas por um momento, eu não tinha notado. Só então olhei para seu rosto, que me encarava sério.
-O que foi?
Ele franziu a testa, e me empurrou, virando a cabeça para o outro lado, dando um riso abafado.
-Não é nada.
-Ei, ei, vocês dois estão horríveis! O que me lembra, é que você está com esse vestido rasgado a três dias, Ame!
-N-na verdade – Eu ri, olhando para outro lado. - estou com esse vestido a duzentos anos.
Nídia não parecia ter escutado. Mas não deixava de ser verdade.

-Ok. Pode sair, Ame. Quero ver como ficou!
Do outro lado da porta, eu escutava Nídia batendo palmas para me apressar.
Aquele não era o uniforme da Finnintor, nem nada. Mas ainda sim, era preto e tinha um laço vermelho gigante em meu pescoço, o que me parecia mais uma coleira.
Demorei um pouco para sair dali. Eu precisava me olhar de todos os ângulos no espelho. Até mesmo os banheiros daquele lugar pareciam de um conto de fada. Tudo era tão bem preparado.
Com a ponta dos dedos, tirei o laço do pescoço e o rasguei no meio – eu esperava que Nídia não tivesse escutado o barulho do rasgo – e amarrei em meus pulsos, fazendo um novo laço. Achei que assim ficou mais gracioso e menos extravagante.
Já o cabelo, apenas o penteei. Estava realmente longo, agora penteado. Notei que ele era liso até a metade de minhas costas e meio ondulado nas pontas. Um castanho escuro bonito. De quem eu havia herdado aquilo?
Parei um momento agora, de frente, diante do espelho. Abri um leve sorriso de lábios fechados, olhando para a garota alta, com seios um tanto grandes e coxas inchadas.
Minha testa se franziu e parei de sorrir, a beira de um ataque depressivo. Não me conformava com aquele corpo! Argh!
-Ame! Vamos saia! Kio já está aqui!
-Nídia, o que é essa blusa?! Não havia nada...
-Ah, fique quieto. Você está perfeito! Ame..!
Meu reflexo se mexeu diferente no espelho. Me assustei, me encostando na parede do outro lado da pequena sala. A garota no espelho sorriu. Um sorriso assombroso. Eu jamais iria sorrir daquele jeito! E além disso, ela carregava uma certa frieza nos olhos.
-Como isso... - Sussurrei.
Ela tirou algo de em volta do pescoço: era o medalhão do papai. Um tanto assustada, fiz o mesmo.
-O que faço com isso? - Perguntei a ela, ainda em um sussurro.
Ela sorriu, como se eu tivesse feito a pergunta certa.
A garota se abaixou, pondo o medalhão brilhante no chão. Ela aguardou, para que eu fizesse o mesmo.
Lentamente, eu o fiz. E esperei por novas coordenas.
Ela voltou a se erguer. Os olhos tremeram, prazerosos. Ela levantou o pé descalço, como o meu, sobre o medalhão, e o lançou contra o pequeno objeto.
Eu gritei enquanto o pé dela cortava o ar, em direção ao medalhão. Mas meu grito não saiu. Como se alguém me tivesse posto no mudo, que nem uma televisão.
Ele se desfez em pedaços brilhantes. Eu ainda ao chão, olhei para o rosto da garota. Ela chorava. Como se estivesse sendo forçada a fazer isso. Como se algo a obrigasse a destruir aquilo que era mais importante naquele momento para ela. Enquanto chorava, ela sorria assustadoramente.
-Porque fez isso? - Perguntei em um sussurro.
Ela olhou para meu rosto e depois para o pé impostor, que havia quebrado o delicado medalhão. Estava sangrando, claro. O vidro do lado de dentro do medalhão, onde as palavras estavam cravadas, havia cortado o pé da garota – ou meu reflexo, que seja.
Ao lado dela, apareceu um homem. Ele era realmente alto. Ele apareceu ali a um pisque meu. Ele não me era estranho. Ele lembrava...
-Guitar? É você? - Sussurrei de novo.
Mas ele estava concentrado na garota ali. Se fosse Guitar, estava só um tanto diferente. Os cabelos estavam um pouco mais ondulados nas pontas e compridos, até a metade do braço. Ele prendia o cabelo em um rabo, o que deixava aquela pessoa realmente bonita.
Notei que não deveria ser o Guitar, porque os olhos dele eram vermelhos. Dessa pessoa, são amarelos florescente. As vezes, o olhar dele ficava assustador.
Ele se abaixou atrás da menina, envolvendo seu corpo. Por um segundo, ele olhou para mim, sorrindo. Tirou algum objeto de dentro da roupa – notei que ele se vestia como um boneco, parecendo ser um fantoche de pano – que refletiu na luz. Era um pequeno punhal, mas que parecia bem afiado.
Eu arregalei os olhos, percebendo as intenções daquela pessoa. Eu engatinhei até o espelho, encostando minhas mãos em seu vidro, tentando alcançar seu interior. Mas, nada.
A garota também não se esforçava para fugir dele. Ela apenas sorria, olhando para o medalhão destruído.
Quando vi ele fazer um movimento rápido com a mão, cortando a frente da garota, eu fechei os olhos, me encolhendo.
-Ame! Abra está porta! - Kio batia na porta, me incomodando com o barulho. - O que está acontecendo?!
Quando voltei a levantar a cabeça, o espelho só abrigava meu reflexo, junto comigo, sentado ao chão. O rosto refletia a luz nas lágrimas que tinham escorrido.
A melodia melancólica estava tocando. Era o medalhão, ainda intacto. Me arrastei até ele, o segurando nas mãos. Não havia nada de diferente, ou quebrado nele. Estava normal. O olhei por mais algum tempo, e depois tornei a coloca-lo em meu pescoço. Um fato curioso, é que dentro do espelho, o medalhão destroçado ainda estava ali.
Quando fui tentar me levantar, uma dor aguda me impediu. Meus olhos localizaram sua origem.
Abri a porta, ainda no chão.
Não demorou nem meio segundo para Kio estar me envolvendo, examinando meu pé misteriosamente todo cortado. Haviam cacos de vidro nele também, apesar de que o que aconteceu, foi dentro do espelho. E vai saber se não foi uma ilusão. Mais ardia e me torturava.
Kio me pois sobre a enorme cama macia, segurando meu pé entre as mãos.
-Ei, garota, pegue algum pano ou algo para enrolar o pé dela! - Ele gritou para Nídia.
-Ok. - E ela desapareceu pela porta.
Eu não estava preocupada com o que estava acontecendo, só com meu pé doendo.
-T-tire a mão! Está doendo! – Eu dizia agoniada.
Me esforçava para me manter calma e deitada. Mas a dor era insuportável. Eu sentia o sangue escorrendo. Era perturbador.
Kio não repondera. Ele segurava minha perna com força, para que eu não a movesse. Com a outra mão livre, cuidadosamente, cuidava de tirar os pequenos cacos de vidro que tinham entrado dentro da carne do pé.
Ele era incrível, hm?
-Kio! - Eu gritei quando ele tirou algo que estava um pouco mais profundo.
Eu tinha me sentado, e tentava afasta-lo, chorando de dor.
Ele parou, deixando o caco atravessado meio caminho. Me encolhi, quando o vidro recuou um pouco para dentro novamente.
Suas mãos estavam sujas de sangue, assim como o uniforme da Finnintor, que o deixava realmente diferente. Não conseguia me concentrar em nada disso em quanto a dor me sufocava.
Ele se sentou ao meu lado, me puxando rapidamente para cima de seu colo, me envolvendo como fez antes, quando eu estava prestes a cair naquele abismo escuro.
-Sua tonta! Se não me deixar tirar, vai ficar ardendo! - Ele me bronqueou, falando no meu ouvido.
Eu não havia percebido, mas por conta da dor, eu o apertava, gemendo com meu rosto enterrado em seu ombro.
-Mas dói ainda mais quando você puxa! - Eu o apertei com força, quando bati meu pé de leve na madeira da cama, e doeu.
Seus braços me abraçavam, de forma que me deixava longe do pé sangrento.
-Você tem que confiar em mim, Ame. Se você confiar, posso fazer essa dor parar. - Ele passava a mão fria em minhas costas, me confortando. Mas ainda falava com uma certa irritação na voz.
“Eu posso fazer a dor parar. Vai doer um pouco, mais a dor irá parar.” A voz que vinha da minha mente.
Como parecia que não havia outro jeito, eu apertei o corpo de Kio o máximo que consegui, chorando sem fazer algum barulho.
-Em você, eu confio. - Eu disse baixinho.
Depois a dor apertou um pouco mais, mas eu apaguei.
Só que eu não senti os braços de Kio me soltarem, e nem eu o soltei. Ele era o que me mantinha confiante, por algum motivo, de que a dor iria parar.
Ainda doía um pouco. Meus olhos, semi-abertos, procuraram por alguma presença no grande quarto. Pela janela, a brisa macia da noite entrava, fazendo as cortinas voarem.
Meus olhos analisavam cada móvel, inclusive o lustre ornamentado que fazia parte da decoração. Era bem a cara do esquisito quartel. Eu sorri, de repente.
-Ei.
Uma voz baixa e rouca sussurrou ao meu lado, me assustando, quando me pegou de surpresa. Virei a cabeça para a direção dela, com a testa franzida, meio irritada pelo susto.
-Kio? - Eu arqueei uma sobrancelha.
-Não se mexa, tontona.
-Por que? - Perguntei, irritada.
-Porque aquele do cabelo engraçado veio aqui e medicou o seu pé com algum tipo de macumba. - Disse sério, sendo irônico. - Pode me contagiar também se você se mexer e isso passar para o ar.
Eu fiquei o encarando, irritada, por algum tempo.
-Shiro?
-Não sei o nome dele. - Deu de ombros.
-Por que está aqui? - Suspirei.
-Porque não tem outro lugar para ficar. - Ele disse, fazendo uma careta de sem noção.
-Por que não foi embora, se aqui o incomoda?
-Quer que eu vá?
-A escolha é sua. - Revirei os olhos.
Quando voltei a encara-lo, ele estava sentado no chão, com os braços apoiados nos joelhos, olhando pela janela afora.
Kio estava totalmente diferente com o uniforme da Finnintor. Parecia tão elegante... Estava vestindo o típico casacão negro, com o laço azul amarrado na cintura. Fiquei hipnotizada por ele algum tempo.
-Ele disse para você não se preocupar. Que tudo isso... é natural. - Resmungou. - Ei, Ame?
-O que? - Fechei meus olhos, suspirando, e me afundando no colchão.
-Já é noite.
-O que tem de mais?
Por algum tempo, ele não respondeu. Eu só escutava o vento entrar pela janela. O som do silêncio me deixava impaciente. Esperei por mais dois segundos e tornei a suspirar. Abri os olhos, procurando por ele, de mal humor.
-Kio?
Mas só tinha a minha presença insignificante naquele cômodo. O calor e a segurança que ele me passava ao estar por perto, tinha se dissolvido, como mágica. E de repente fiquei desesperada.
-Kio?! - Gritei, irritada. - Pare de fazer brincadeiras sem graça!
Me sentei sobre a cama, arrastando minhas pernas para fora dela, querendo me por de pé.
Eu sei que eu havia acabado de conhece-lo. Mas era importante, de alguma forma.
Meu pé, todo enfaixado, queria me atrapalhar. Mas eu não deixei com que a dor aguda me me impedisse. Caminhei mancando desesperada sobre o carpete escuro de madeira até a janela. Quando percebi que iria tropeçar, minhas mãos já tinham alcançado o peitoril da janela.
-Kio...? - Sussurrei, procurando por algum tipo de vulto na escuridão.
Mas da janela, alguns cinqüenta metros do chão, não se dava para ver muito bem. Além disso, estava escuro. A lua iluminava vagamente a vegetação que rodava o castelo. Eu não iria enxergar nada naquele momento.
-Aonde você foi, tonto? - Falei baixo, para mim mesma.
Escutei algumas batidas na porta.
-Shiro? - Me virei em sua direção.
Ainda mancando, lentamente, me movi até ela. Meus revirei meus olhos antes de girar a maçaneta dourada, com aparência de ouro velho.
-Quem é o senhor? 

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