quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

 Sexto capítulo Nova aparição

Novamente, abri meus olhos. Agora estava tudo muito claro, tudo mais nítido.
Me levantei, me espreguiçando. Ainda estava no meio daquele bosque. Eu era tão inútil que ninguém veio procurar por mim. Talvez Nídia estivesse assustada de mais para contar a alguém o que tinha acontecido.
Não me preocupei. Mas... o que eu iria fazer naquele momento?
-Com sorte – Suspirei. - Acho um bom lugar para cometer suicídio.
Um som invadiu aquele espaço.
Heart Ties?
Procurei pelo pingente ao redor de meu pescoço. O encontrei, mas ele estava fechado. Aquela música não era dali.
Uma borboleta amarela surgiu em meio a vegetação baixa, voando com toda sua liberdade. Eu sorri para ela, guardando o pingente para dentro do vestido.
Me abaixei diante dela, me deitando no chão. Estendi a mão devagarinho em sua direção e aguardei. Como eu esperava, ela pousou na ponta do meu dedo indicador. Meus olhos se espremeram e deixei algumas lágrimas caírem. Aquilo era um alívio.
A grama verde, a brisa macia e o dançar das árvores... era perfeito. Um lugar perfeito.
A melodia parou quando a pequena e graciosa criaturinha se esvoaçou, me deixando.
-Um sinal? - Perguntei, agora me sentindo sozinha sem a pequena borboleta amarela.
Me ergui de pé, olhando aonde eu me encontrava. Agora parecia mais um meio de bosque vazio e inabitado. As árvores caçoavam de mim em vês de dançarem com a brisa.
“Sozinha...” Escutei em minha mente.
Eu rodei várias vezes, vendo se encontrava alguma direção, algum caminho, mas, nada. Eu estava perdida.
Caí sobre meus joelhos, chateada.
Encostei minhas mãos no chão, sentindo a grama úmida. Ela parecia respirar se eu ficasse bem quieta.
Fechei meus olhos, esperando.
“Por quem, Ame?”
Até...
Um barulho. Abri os olhos rapidamente, assustada. Olhei ao meu redor, preparada para desviar do que quer que seja. Mas parecia que aquilo foi apenas algum ruído da floresta. Não tinha mais ninguém ali.
Imaginei que se eu ficasse parada, em algumas horas eu iria morrer de fome, ou de frio, ou devorada por algum animal selvagem, qualquer coisa assim. Mas acho que eu apenas iria ficar fraca de mais e aquela “coisa” iria tomar conta do meu corpo de novo. E por instinto, eu iria acabar me alimentando de qualquer coisa.
-Que ódio! - Gritei para o nada, e me joguei no tapete verde de grama.
Fechei os olhos, desejando querer destruir tudo aquilo.

Minha barriga soltou um urro. Aquilo me incomodou. Eu estava com fome.
O céu ainda preservava as nuvens cinzas e o sol havia desaparecido.
Quando minha barriga voltou a gemer, eu dei um sorriso um tanto forçado. Finalmente aquele seria meu fim.
“Mas por que você deseja morrer dessa forma tão sem graça, Ame?”
-Cale a boca. - Sussurrei para a voz da minha mente.
Continuei a sorrir. Estava me contrariando. Eu odiava estar sozinha ali naquele nada.
“Afinal, eu fiquei tanto tempo sozinha... Esse não era meu desejo? Poder ficar junto das pessoas novamente?” Meu sorriso morreu. “Mas se essa é a minha sina, machucar a todos, então eu prefiro morrer. Não quero ser uma aberração.” Pisquei os olhos. “Não quero descobrir sobre meu passado, se eu machuquei ainda mais pessoas.” Pisquei de novo. “Mas seria muito bom... se eu não fosse uma má pessoa. E pudesse me lembrar de tudo.” Pisquei uma terceira vez e fechei os olhos, fazendo as lágrimas transbordarem.
O vento soprou por entre as árvores. O sussurro delas me confortava.
Heart Ties... novamente?
Me sentei, depressa, tensa, procurando a origem do som. Me levantei rapidamente, ainda quieta e atenta. O som parecia vir do norte. Segui por ele. Tropecei algumas vezes, mas nada importava mais do que achar qualquer coisa que fosse que estivesse transmitindo a melodia.
Voltei a sentir o vento frio. Mas isso ainda não me impediu.
Foi muito rápido.
O abismo parecia ser bem fundo. Mas talvez eu morresse antes de alcançar seu fim. A espectativa de deixar aquele lugar, finalmente, subiu a minha cabeça. Eu realmente esperava morrer. Talvez eu estivesse sendo idiota e burra de mais para perceber... que aquilo tudo, afinal...
“...poderia...”
Algo me agarrou. Meu corpo recuou no ar com violência.
“...significar...”
Era um corpo gelado. Os braços eram compridos o suficientes para agarrar duas de mim. Aquela pessoa devia ser alta. Mas eu não estava com vontade de descobrir quem ou o que tinha me salvado.
Me impedido, seria a palavra certa.
Meus olhos tremeram nas órbitas. Eu olhava meio aflita para a enorme e funda depressão. Abaixei a cabeça, encarando minhas mãos sujas e machucadas de quando saí correndo por entre as árvores – os troncos tinham muitas lascas salientes que me cortaram. Meu cabelo cobriu meu rosto.
-Por que? - Sussurrei.
Depois de algum tempo, eu tentei me arrastar para o buraco do abismo novamente. Mas os braços frios me seguravam determinados.
-Me deixe – Eu cochichava. - Me deixe. Eu não sou precisa. Eu não sou importante. Então, por que...?
Eu parei. Senti as mãos que seguravam meus ombros fazerem menos pressão. Me sentei sobre meus joelhos.
-Não quero machucar. - Eu dizia sem perceber. - Não quero ferir as outras pessoas. Por favor, então, mantenha distância.
Ele me segurou pelo pulso, me levantando com força. Eu fazia força para baixo, deixando meu corpo pesar. Mas ele era muito mais forte do que eu. Não adiantava nada.
Tentei libertar meu braço, mas isso também foi inútil.
Eu me debati mais uma vez e então parei, desistindo.
Deixei algumas lágrimas desesperadas rolarem.
-Sou inútil até em tentar morrer. - Sussurrei.
Aquela pessoa segurou meus cabelos com força, me forçando a levantar o olhar. De olhos fechados, eu me pendurei em seu braço, tentando fazer doer menos. Mas ele prendeu minhas mãos com a outra mão livre.
Irritada, tive que cooperar. Me assustei um pouco quando o vi. Os olhos laranjas continuavam como na noite anterior. Meu coração deu uma pulsada mais forte com o susto. Mas eu o mantive bombeando tranqüilo.
Eu apenas encarava aquela pessoa com os olhos fora de foco, propositalmente.
-Não posso.
Ele disse, com uma voz tão linda, que nem acreditei que pertencia a ele.
E então, pude voltar a pisar no chão livremente – ele tinha me soltado.
Meus olhos começaram a arder e fui forçada a vê-lo nitidamente. E não teve como não perceber que aquela pessoa era realmente alta.
Ele trajava roupas velhas e rasgadas. Era um camisão sujo que faltava alguns botões e uma calça suja e marrom.
O que ele quis dizer com “eu não posso”? Não pode me deixar me matar? A vida é minha. Se eu quiser bater a minha cabeça em uma pedra até ter uma hemorragia cerebral, o problema era meu. Só que eu não era corajosa o suficiente para isso. Até para isso.
Ele se abaixou, se apoiando em um joelho, diante de mim.
-Não posso – Ele baixou o olhar, deixando o cabelo laranja cair na frente dos olhos. - Não posso ser uma pessoa... melhor do que você.
Eu arregalei os olhos, meio surpresa. Ele era a pessoa de ontem, realmente!
-P-por que?
-Uma vez que vivo dependendo – Ele levantou a cabeça de novo, olhando sério para mim. - da morte de outras pessoas para sobreviver.
Meu coração pulsou mais forte uma vez de novo. Encara-lo era algo assustador.
-Assustador, você deve estar pensando. - Ele baixou a cabeça novamente.
Pisquei rápido duas vezes, franzindo a testa.
-Assustador?
-“Essa pessoa parece um monstro”, deve ser o que está pensando. Estou errado?
Não respondi. Ele parecia mesmo ser um monstro. Mas... monstros não salvam pessoas que estão prestes a cair em abismos. Não é?
-Estou errado?!! - Ele gritou, ainda de olha baixo.
Eu me assustei de novo. Ele parecia estar no mesmo barco que eu. E, então...
-Entendi. - Eu disse baixinho, sorrindo.
Antes que ele pudesse voltar a me encarar, confuso, eu chicoteei meu palmo na carne fria do rosto dele. Me senti irritada, de repente.
Ele passou a mão no lugar onde eu tinha batido. Me olhava com os olhos brilhantes arregalados.
Cruzei os braços, o olhando feio.
-Cale a boca. - Comecei. - Por que está se rebaixando? Quem você pensa que é? Um monstro não me salvaria! Um monstro iria me devorar agora, se fosse o caso! - Eu o segurei pelas vestes. - Por que me salvou, então, afinal?! Me salvou para me torturar?! Uma pessoa não tem o direito de salvar aquela que quer se matar! Por que fez isso?! - Eu tentei sacudi-lo. - Por que?!!
Eu o soltei. A respiração ofegante. Tentei me acalmar novamente.
-Q-que pensa que está...?!
Eu tapei sua boca, o encarando séria de novo.
-Nós mesmos fazemos nossas próprias asas. Ninguém pode determinar que cor ou o quão eficientes elas irão ser. Por isso, não se rebaixe antes de tentar se superar.
Ele me fitava um tanto incrédulo. Mas aí, ele se deixou cair no chão de raízes e limo. Uma mão na cabeça e a outra como apoio no chão. Ele começou a rir.
-O que foi, idiota? - Cruzei os braços, esperando impaciente, ele para de rir.
Mas ele estava praticamente gargalhando.
O vento soprou. O abismo soltou um barulho sinistro e a folhagem seca dançava com a brisa para dentro do buraco escuro.
Ele parou de rir, finalmente. Me olhou, com um sorriso de lábios fechados.
-Tem razão, né.
Ficamos nos encarando.
Achei ter notado um olhar malicioso nos faróis brilhantes laranjas. Mas percebi que ele estava apenas refletindo.
Em meio segundo, ele estava de pé. Eu resolvi apenas observa-lo.
-Não importa o que as pessoas determinem o que você seja – Eu dizia mais pra mim do que para ele. - Apenas você pode decidir o que quer ser.
-Mesmo que eu não possa controlar o que sou? - Voltou a dizer sério.
Fiquei refletindo por alguns segundos. Suspirei.
-Acho que se tudo fosse tão fácil, não iria ter graça nem sentido, lutar por algo que pode estar na palma de nossa mão conforme queremos. - Bati com o punho no palmo da outra mão. - Por isso, por isso temos que nos esforçar para sermos quem queremos.
Ele me olhava com os olhos brilhantes. Soltou um riso sarcástico, passando a mão nos cabelos rebeldes.
-Você é estranha.
-Não mais do que você.
Nos encaramos sérios.
Uma forte corrente de ar jorrou do abismo e eu tive que me sentar para o vestido não voar junto com aquilo.
Percebi os cortes feios em minhas mãos, porque eles voltaram a arder. Eu gemi baixinho, aproveitando o barulho da ventania.
De novo, aquela pessoa agiu rapidamente, segurando minhas mãos sobre seu palmo. Com o olhar sério, ele sorriu para mim, que o olhava meio perdida.
-Então, permita que esse monstro cure essa dor.
Eu fiquei incomodada com a ousadia dele, mas aí uma sensação que me fez cócegas na barriga me fez sorrir também.
-Faça como quiser. - Suspirei, fingindo não ligar.
-Se quiser, posso deixar você sangrando até morrer nesse lugar. - Disse me provocando, ainda sorrindo.
-Faça o que quiser. - Eu também o disse, também querendo provoca-lo.
Mas do mesmo jeito, ele permaneceu ali, segurando minhas mãos machucadas que ardiam.
Acho que ambos estávamos confusos. Foi muito rápido.
Sorrimos novamente, satisfeitos por qualquer coisa.
-Obrigado, afinal.
“... Que aquilo tudo, afinal, poderia significar um novo começo.”

Nenhum comentário: