terça-feira, 7 de dezembro de 2010

  Quinto Capítulo Um sussurro solitário

Eu estava novamente naquele vazio. Meus pés deslizavam sobre a polpa de um chão de água. O céu escuro era o limite daquele lugar.
Alguém seguia ao meu lado. Olhei para aquela pessoa que sorria para mim.
-Você é um reflexo ou algum tipo de ilusão? - Perguntei a ela.
Nós paramos de caminhar sobre o chão d'água, ficando cara a cara. Se não fosse pelo cabelo amarrado atrás da cabeça, eu diria que ela era realmente meu reflexo. A garota era idêntica a mim em quase todos os aspectos físicos. A cor dos olhos também nos diferenciava. Seus olhos eram azuis, inocentes.
-Você – Ela apontou para mim. - É minha...
Uma forte dor na parte inferior do meu tronco me fez cair sobre a garota, que me segurou em seus braços.
“...inimiga.” Escutei o término da frase.
Passei a mão livre sobre onde estava doendo e a trouxe novamente diante de minha visão. Meus olhos se arregalaram e tremeram.
O líquido leitoso e vermelho escorregava da ponta dos meus dedos para meu braço. Mas a dor me forçava me apoiar sobre o corpo da garota.
Ela deu uma risada baixa e aguda. Parecia a risada de uma criança. Mas apenas me assustava cada vez mais.
-Vai trazer de volta o meu irmão, não é? - Senti seus dedos se lançando em algum fio de cabelo meu. - Ame.
Eu tentei dizer algo, mas tudo que saiu de meus lábios foi um gemido de dor.
-Se você quiser, eu posso fazer essa dor insuportável parar. - Seus lábios tocaram minha orelha esquerda. - Você quer?
Eu ainda não conseguia responder. Meus lábios se recusavam a se mover.
-Tudo bem, criança. - Aquela garota disse, com sua voz infantil. - Vou fazer parar, então.
Senti minhas pernas tocarem o chão aguado e frio – ela me pois sentada sobre os joelhos. Eu pressionei minhas duas mãos sobre meu ventre, já que a dor tinha aumentado.
-D-dói... - Gemi novamente.
Meus olhos tentaram procurar pela imagem da garota por através os fios de cabelo que cobriam meu rosto. Ela sorria assustadoramente. Em sua mão direita uma espada com a lâmina suja do sangue que escorria de dentro de mim.
-Vou fazer a dor parar.
Ela impulsionou a espada para trás e a lançou na minha direção. E eu nem consegui gritar.
A dor parou.
Finalmente.

Abri os olhos desesperada. Eu sentia a chuva cobrindo meu corpo. Agora, não era tão bom quando a da primeira vez que eu a senti depois de tanto tempo. Estava gelada. Até meu sangue parecia estar esfriando.
Me sentei, observando o ambiente, com medo daquela pessoa aparecer novamente. Mas tudo o que eu via eram folhas, troncos e raízes. Me encolhi na direção de duas grossas raízes paralelas. Pareciam um bom lugar para me esconder do que quer que estava tentando me encontrar.
“Está com medo?”
Ouvi o sussurrar dela em minha mente. Me encolhi ainda mais, pondo as mãos na cabeça.
-Me deixa em paz!! - Berrei.
Comecei a chorar. Era bom deixar aquilo fluir para fora. Era melhor do que guardar para dentro de mim.
-Por que isso está acontecendo comigo? - Eu sussurrava comigo mesma. - Por que eu estou aqui? Eu machuquei – Lembrei de Nídia com o rosto sangrando, incapaz de correr atrás de mim. - aquela pessoa boa... O que eu sou?! - Comecei a gritar novamente. - O que era aquilo?! O que era aquele monstro que destruiu aquele lugar?! O que eram aquelas asas negras...? - Meti meu rosto entre os joelhos. - Por que eu existo?
Suspirei, abraçando meus joelhos.
“-Ei, Ame. Este jardim está cheio de borboletas, está vendo?
Ele segurava minha mão, protetor como sempre. Eu via o meu pai como um tipo de deus, herói ou rei. Ele sempre me pareceu tão seguro de tudo o que dizia... Ele era realmente uma pessoa muito boa de se ter como amigo, como pai.
Uma borboleta azul pousou sobre minha cabeça e eu me assustei, correndo para trás do homem alto de longos cabelos loiros.
Ele riu.
-Não tenha medo delas. Algumas pessoas tem pavor dessas pequenas criaturinhas graciosas. - Ele suspirou, pegando uma borboleta amarela na ponta do dedo e se abaixando para me mostrar. - Esses bichinhos já foram assustadores algum dia, como lagartas, Ame. E então uma mágica acontece.
Ao ver as asas coloridas batendo, meu medo desapareceu.
-O que acontece com elas? Algum feiticeiro as transforma?
Ele riu novamente.
-Nada disso. Elas tem sua própria mágica. Elas se escondem em pequenas casinhas apertadas e ficam lá dentro todo esse tempo “costurando” suas asas.
-Então elas que decidem de que cor vai ser?
Ele deixou a pequena borboleta voar. Acariciou meu rosto, sorrindo gloriosamente.
-Claro!
O vento soprou sobre os dentes de leão e eles voaram, dançando no ar junto com as borboletas. Ficamos ali, observando. Até a noite cair e o jardim ser tomado por centenas de pirilampos coloridos.
-Pai – Eu o abracei. - Eu quero ser como uma borboleta.
-Isso mesmo, Ame. - Ele disse, fazendo cafuné em minha cabeça. - Só você pode fazer suas próprias asas.”
Eu ainda deixava algumas lágrimas escorregarem. Era tão bom chorar...
-Pouco a pouco – Sussurrei. - talvez eu esteja conseguindo me lembrar.
“Me lembrar de você, pai.” E sorri, entre as lágrimas.

A chuva tendia cada vez mais a piorar. Ele passava as mãos nos longos cabelos prateados em quanto sorria para a mulher à frente.
-O que você acaba de me dizer? - Ela encarava aquilo como uma brincadeira.
-O que você ouviu.
Shiro se levantou da poltrona verde, piscando um olho para a moça de cabelos curtos e lisos. Por trás dos óculos redondos, ela carregava um olhar severo.
-Você acabou de dizer que uma garota que viveu à duzentos anos atrás apareceu de repente na mansão abandonada dos Agnell? - Ela arqueou uma sobrancelha, sorrindo sem vontade.
-Isso mesmo, senhorita. - Ele voltou a se sentar, pondo a perna sobre o joelho. - Se ela for quem eu eu presumo que seja, aquela chave vai mostrar o que ela está procurando.
A mulher se virou para a janela, olhando para o céu tenebroso que chorava.
-Ame Agnell Rozzato, hum? - Ela olhou para Shiro, que acenou para que ela prosseguisse. - Acha que ela pode ser a causa para o que está acontecendo? Muitas pessoas estão morrendo e nem mesmo nosso pessoal está dando conta.
Shiro apoiou a cabeça sobre a mão, fitando o teto de verniz vermelho.
-Não acho que seja Ame.
Os olhos de Lady Lali se arregalaram incrédulos. Shiro pode escutar o coração da moça acelerando.
-O que está insinuando é...?
Ele sorriu, assentindo.
-São apenas suposições, senhorita. - Ele fez um gesto com a mão para que ela se aquetasse. - Mas, afinal – Sorriu sem abrir os lábios, um pouco mais sério. - uma reação leva a outra. Certo? - Ele mudou de posição.
“E devo admitir que o cheiro daquele sangue é tão puro quanto o do meu caro amigo.”
Sedric.

Meu corpo tremia. Estava com muito frio e não sabia mais por quanto tempo iria aguentar. Enfiei a mão no bolso do vestido já bem gasto e sujo e apanhei a pequena chave que Shiro tinha me dado antes.
-Onde será – Eu a girei na ponta dos dedos. - que você se encaixa?
Através do minúsculo buraco no meio da chave, achei ter visto alguma coisa.
Tornei a guarda-la.
A luz da lua iluminava a floresta escura. A forte tempestade havia se transformado em uma leve garoa gentil. Agora dava para se enxergar o lugar com mais calma.
Não havia mais ninguém ali.
Eu ainda me atormentava por ter ferido aquela pessoa que se fez minha amiga. “Me desculpa, Nídia.”
Levantei os olhos lentamente para fitar as estrelas que acompanhavam o brilho da lua. Parecia até uma pintura, um cobertor cheio de pontinhos brancos e uma lamparina que iluminava todo o resto.
Eu sorri para aquela imagem. Era tão linda e tão real que me fazia querer chorar por não fazer parte integral daquele céu infinito.
Algo entrou na frente do meu quadro. Parecia ser um rosto. Ele tinha dois olhos laranjas que brilhavam no escuro. Não conseguia enxergar seu rosto com muita nitidez já que ele estava contra a luz da lua.
-Oi, amigo. - Eu sorri, estendendo a mão para ele, sem conseguir alcança-lo. - Você também acha que sou uma má pessoa? - Abaixei a cabeça. - Acho que, afinal, não tenho capacidade para fazer minhas próprias asas. - Voltei a olha-lo, sorrindo ainda mais. - Então, por favor, me aceite como uma lagarta!
Parecia que eu estava meio inconsciente. Aquela pessoa se abaixou. Os olhos laranjas bem arregalados. Eu consegui enxergar um largo e não normal sorriso em seu rosto.
-Ei. Você quer me matar, não é mesmo? - Eu sorri novamente. - Por favor, faça isso. Uma pessoa como eu, que não sabe fazer suas próprias asas, não precisa existir. Mas, me prometa, que se tirar a minha vida, vai viver melhor do que eu. - Mantive o sorriso, segurando na roupa daquela pessoa. - Afinal, eu... eu não tenho... motivo algum para continuar existindo.
Eu vi o sorriso daquela pessoa se alargando ainda mais. Vi feixes de luz saindo de trás dele. Pareciam braços de luz. Eles eram muitos e brilhavam tanto quanto a lua.
Inconsciente, eu o abracei.
-Por favor, por favor, se apresse e... seja alguém melhor do que eu. - Eu o fitei nos olhos laranjas novamente. - Eu vou confiar em você.
Se fez um enorme silêncio durante algum tempo. Eu tinha fechado os olhos para não ver meu corpo sendo retalhado em sangue. A dor, antes de morrer, era inevitável. Mas se eu conseguisse morrer sem ver sangue, seria a melhor coisas naquele momento.
-Me mate! - Eu gritei, cobrindo meus olhos mesmo fechados com as mãos.
Nada.
-P-por que não me mata, idiota?! - Eu tentei agarrar sua roupa novamente para sacudi-lo.
Quando abri meus olhos, vi que estava sozinha. Minhas mãos tremiam no ar. A luz da lua me deixava pálida.
Eu não entendi. Por que até mesmo aquela pessoa assustadora não quis tirar minha vida? Aqueles braços de luz pareciam vitais. Pareciam que se eu tocasse em um deles nunca mais iria precisar ver aquela lua, nem aquele céu. Nem aturar minha existência. Nem viver, acordando todos os dias, percebendo que eu estava sozinha.
Me encolhi, chorando.
-Por que? - Minha voz saiu abafada. - Por que isso está acontecendo?
“Achou que ele me achou louca.” E de repente, eu ri no meio do choro.

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