domingo, 5 de dezembro de 2010

 Segundo Capítulo Fria lembrança

-Mestre Shiro, voltei! - Nídia tinha aberto a porta e já estava sentada ao meu lado novamente.
Eu e Shiro nos encarávamos com os olhos arregalados. Eu, confusa e perdida. Ele, em choque, talvez.
-Mestre Shiro? - Nídia olhava do meu rosto para o dele.
Ele desviou os olhos para a garota e de novo para mim. Olhei para minhas mãos, tentando disfarçar a vergonha.
Agora, as feições de Shiro foram tomadas por um olhar inexpressivo. Ele se sentou sobre os joelhos a minha frente, e com uma mão fuçava o bolso interno do casaco, que eu tinha devolvido a ele.
-Pegue. - Ele estendeu o palmo.
Vi uma minúscula chave dourada brilhar. Eu estendi a mão, e com a ponta dos dedos, peguei a pequena chave.
Shiro me devolveu o medalhão. Ainda aberto, tocava a melodia que tomara um rumo mais alegre. Ele deu um breve sorriso e saiu da cabine. Ia perguntar o que significava aquilo, mas ele já tinha ido.
Eu encarei a pequena chave e a rodei várias vezes tentando obter todos os seus ângulos e ver se sua forma se encaixava no medalhão. Mas parecia que não era dali. Então guardei a chave dentro do amuleto.
Me deu uma certa tontura de repente quando eu ia me levantar para me sentar de frente para a garota. Nídia estava totalmente fora de sintonia.
Papai, o que é isso? Escuto pessoas gritando. Elas estão bem?
Alguma coisa se esforçava para ocupar o espaço confuso de minha mente.
-Menina, você está bem? - Nídia me segurou quando quase cai no chão.
-Alguma coisa... Alguma coisa está... - Minha voz saía como um sussurro.
Mas eu não tinha notado. Estava sentindo um tipo de martelo batendo na minha cabeça cada vez com mais força. E aquele pensamento, aquela lembrança, estava me consumindo.
“Era um final de tarde radiante. Eu e ele estávamos sentados em sua sala jogando xadrez. Apesar de que eu não sabia jogar. Só me divertia movendo as peças pelo tabuleiro.
Alguém bateu na porta, e sem pedir licença, entrou na sala. As pessoas não nos interrompiam assim, por mais que estivéssemos apenas passando o tempo. Devia ser importante. E realmente era.
Ele se levantou, sorriu e foi conversar com o homem ao lado de fora.
-Kevin, pode ficar um instante sozinho com ela? Eu não demoro. - E saiu, sorridente e radiante.
Eu virei a cara fechada para Kevin.
-E então, vai jogar? - Arqueei uma sobrancelha.
Ele estava sentado do outro lado da sala nos assistindo jogar. Não entendo porque tanta cerimonia.
-Não posso jogar com minha mestra. - Ele olhou para além da janela, fitando o pôr do sol. - E além disso, você não sabe jogar.
-E daí? - Me levantei. - Se sou sua mestra, então exijo que você jogue comigo agora!- E mostrei a língua, tentando provoca-lo.
Ele suspirou. Demorou um pouco, mas se levantou, olhando emburrado para mim.
-Está certo. - E cambaleando atravessou a sala e se sentou onde ele estava sentado.
Eu realmente odiava esse tipo de comportamento. Era ridículo. E humilhante.
-Você é patético. - Me virei de costas, fingindo estar olhando para minhas unhas, e as soprei.
-C-como disse? - Ele tentou falar em tom sarcástico. Estava irritado, e era divertido deixa-lo assim.
-Sabe que não te trato e nem te considero como um servo ou algo do tipo. Porque sempre se rebaixa e se dedica a fazer todas as minhas vontades como se eu fosse uma deusa ou algo do tipo? - Olhei com o rabo dos olhos para ele. - Francamente. Você é mais velho. E além disso, pessoas que vivem pelas outras são tão... hm... - Não encontrava um termo.
Me virei para olhar sua expressão.
Kevin era do tipo que guardava seus rancores e mágoas somente para si. Ele nunca havia me contando sua história. Mas ele era facilmente comovido e as vezes, mesmo contra sua vontade, deixava o choro escapar.
Diria que ele tivesse uns dez, onze anos. Nessa época, eu tinha seis.
O que sei sobre ele, é que foi encontrado desacordado em um dia gelado. Estava soterrado de neve e, suas vestes sujas de sangue. Papai evita falar sobre isso na minha frente sempre que pergunto e muda de assunto. Isso me deixa irritada!
Ele era magro, pálido e sua voz, quase o tempo todo, parecia um sussurro. Seria um príncipe se sorrisse. Kevin era realmente muito bonito. Seus olhos de um castanho bem claro, estavam sempre molhados. Ele vivia chorando, mas se recusava a aceitar seus sentimentos e espremia a dor apenas para si. Kevin tinha também cabelos negros levemente encaracolados e compridos. Dava um jeito de mante-los sempre presos.
-Ah, vai começar a chorar, garotinha? - Eu sorri maliciosamente.
É claro, que eu gostava de importuna-lo. Que má eu era... Mas reconhecia, no mínimo, quando exagerava.
Ele se encolheu atrás dos joelhos, escondendo o rosto de minha vista.
Suspirei. Puxei o máximo que pude a manga de seu casaco, fazendo com que ele caísse da cadeira.
-S-sua tonta... O que está fazendo? P-par...! - Eu coloquei a mão sobre sua boca.
Me sentei sobre suas pernas e arqueei de novo uma sobrancelha.
-Você é mais forte que isso. Sabe que eu estava brincando, néKevin Kurota.
Kevin estava um tanto paralisado. Depois abaixou a cabeça, corando, e se deixou chorar.
-Sua bobona – Sua voz estava toda melosa. - N-não é “duca”, e sim, duquesa.
Eu levantei seu rosto choroso com o dedo sob seu queixo.
-Eu prometo. - E eu o abracei.
Suas lágrimas deixaram meu ombro molhado.
Quando me toquei, estávamos de pé, e ele também me abraçava e deixava o choro desesperado sair.
A porta se abriu de novo e, rapidamente nós nos desgrudamos e ficamos lado a lado com os braços atrás das costas. Os dois corados carregando um leve sorriso.
O que era para ser um momento um tanto irônico, se tornou um desespero em um milésimo de segundo.
-Kevin, por favor, eu quero que faça aquilo que lhe falei naquele dia. Por favor, e tem que ser agora, tudo bem?
Ele carregava um pouco de desespero na voz. Mas eu sentia que ele tentava reprimir aquilo e se mantinha calmo. Talvez para não me assustar.
Kevin limpou rapidamente as lágrimas com as mangas, se curvou, assentindo, e me segurou pelo braço. Ele voltou o rosto para a parede enquanto me segurava, olhando para o outro lado, evitando meu olhar e o daquela pessoa.
Eu olhei dele para o meu pai. Ele se ajoelhou a minha frente e passou as costas da mão no meu rosto.
-Não importa o que aconteça, eu prometo que estarei com você. - Ele alargou os lábios naquele sorriso confiante e seguro de sempre.
Tirou o amuleto que carregava consigo no pescoço. Aquele medalhão era da minha mãe. Depois do dia em que ela se foi, papai sempre o mantinha guardado. Fora ele que tinha feito a melodia, e principalmente, fora ele que tinha fabricado o lindo amuleto. Era delicadamente detalhado e tão brilhante.
Eu me arrepiei quando a corrente gelada tocou meu pescoço. Eu olhei uma vez para o que acabara de ganhar, mas me voltei com os olhos assustados para meu pai.
-Kevin vai te levar para um lugar agora. Eu quero que vá com ele sem reclamar ou tentar escapar. Mais tarde nos encontraremos, eu prometo. - Ele sorriu e seus lábios frios tocaram minha testa.
Mais tarde quando?
-Pai, não...
-Quieta. Eu te prometo. Seja forte. Eu sei o quão você é. Você tem o poder, Ame, e é capaz de fazer qualquer coisa que queira. Não deixe que ninguém tire isso de você. Do momento em que você deixa de acreditar em si mesma, não adianta tentar mais nada. Se veja perdida. Por isso, seja forte. - Ele sorriu, me abraçou e a última coisa que escutei foi um sussurro tristonho: Agora, vão.
Na mesma hora, estávamos passando pelos corredores. Kevin corria muito rápido e eu tinha dificuldade em alcançar seu ritmo por mais que ele me puxasse.
Havia pessoas gritando e coisas se quebrando. Vinham de todas as direcções, mas até passarmos pela sala das escadas eu não tinha visto nada. Agora dava para ver fumaça por todos os lados. As escadarias que levavam para baixo estavam pegando fogo.
Kevin nos parou por um segundo, procurando alguma saída.
Alguém que sofria no meio do fogo gritava ao nosso lado, mas ele tapou meus olhos e não me permitiu ver.
-Irmão! - Eu escutei atrás de nós.
Talvez Kevin tivesse se virado para olhar o dono da voz. Mas eu não pude ver.
Aquela pessoa ria freneticamente.
-Viu o que eu fiz? Não é legal?! Tanto sangue, tanto vermelho! Eu adoro o vermelho! - E gargalhava infantilmente.
Kevin estava chorando, dava para perceber. Mas ele estava dando seu máximo para me proteger.
Porque...?
Ele me segurou nos braços e saímos correndo por algum corredor. A fumaça estava me asfixiando e eu quase não conseguia respirar. Então acabei desmaiando. Minha última lembrança daquele lugar, foi aquelas pessoas gritando.
Porque tanta dor?”

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