quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Dardark - Capítulo 2 - Ponto Morto

Corri desesperadamente por entre uma ruela escura e mal iluminada. Eu tremia com o calor infernal que me cercava.
Houve um desabamento ali ao lado e uma casa desabou. Por pouco não fui esmagada por um poste que a casa derrubou.
Eu parei, olhei ao meu redor. Aquela cena... Aquela cena ira igualzinha a de quinze anos atrás.
Um berro desesperado veio de alguma direcção e eu o segui instintivamente.
-Aiko! - Escutei ao meu lado.
Não deu nem tempo de me virar, Keiko corria comigo em seus braços. Nós passamos por debaixo de algo que pegava fogo e senti que ele tinha se ferido.
-O que o fez...?
-Calada. Estava pensando em quê, idiota. Eu já disse para ficar por perto sempre!
-Então me solte! Eu quero salvar aquelas pessoas! - Me debati.
-Quieta! - Ele me pois no chão, me encarando com um leve sorriso. - Eu irei ajudar.
No começo, fiquei surpresa, mas aí então ambos trocamos olhares espertos e voltamos a seguir o grito.
A medida que nos aproximávamos do centro da cidade, o inferno aumentava.
-Por aqui! - Ele me puxou pela mão com tudo antes que um pedaço de madeira em brasa me atingisse e pegamos um atalho por dentro de um estabelecimento.
Havia alguém naquele local. Enquanto ele insepcionava a entrada e a cozinha, subi as escadas para ver abrir as portas dos quartos.
-Vamos! Vamos, saiam!
Um casal saiu de um dos quartos apavorados e fugiram pela porta. Depois encontrei uma mulher e uma criança. Keiko a ajudou a chegar até um ponto que não estava tão afectado pelas chamas e que dava para fora da cidade.
E então, continuamos indo para o centro, cada vez mais.
-Aiko, olhe! Aquilo é...!
Olhei para onde Keiko apontava. Meus olhos procuraram desesperadamente por algo. E e não, eu vi. Flutuando sobre nós, a figura sagrada carregava um rosto sem expressão. Suas longas asas faziam um vento forte arrastar o fogo em alguns pontos. Aquele anjo tinha os cabelos longos e loiros. Seus olhos eram de uma cor prata, pelo o que pude perceber.
-Um Guardião Celestial?! - Eu pulei para trás de Keiko, que se preparava para usar seus poderes de mago se fosse necessário.
-Sim. Esse cara certamente, foi um dos culpados por toda essa desgraça em Marrona. Deve estar seguindo ordens da Herdeira, muito provavelmente. Algo extremamente perigoso deve estar solto por aqui para um Guardião Celestial ter de descer do céu.
-Algo... extremamente perigoso? - Eu baixei os olhos.
"Você não pode usar seu dom, Aiko. Isso causará destruição e desgraça a todos a sua volta.Você, certamente, não quer isso, quer?"
Uma vez, alguém tinha me dito isso. Dês desse dia, eu nunca mais ousei a me dar valor. Minha existência... é desnecessária. Minha origem é desconhecida. Minhas memórias, até onde consigo me recordar, foi de um dia com uma desgraça como essa. Me deixaram sozinha, enquanto uma carruagem partia em meio a fumaça.
Por que....? Por que fizeram isso comigo?
-Aiko, vamos sair daqui! Já tiramos todas as pessoas que estavam ao nosso alcance. Vamos embora ou você irá acabar de queimando!
-Não olhamos o centro ainda. Onde aquela luz negra brilhou. Quero ver o que há lá.
E me desgruidei do mando de Keiko, passando por outra ruela. Ele me seguiu com um suspiro.
Mais uma cena nos paralisou. Ali haviam pessoas. Pessoas reduzidas a pedras. Foram petrificadas. Petrificadas... pelo o quê?
-Keiko, o que é isso?
Ele analisava o local enquanto seus olhos em fendas, procuravam pela sombra de alguma coisa.
-Se não for daquele cara... Só pode ser...
-Keiko-sama! - Eu corri para ajuda-lo.
Ele foi lançado dentro de meio segundo contra o muro de pedra que cortava o local. Eu não teria visto o que aconteceu. Keiko estava desacordado.
-Pelo menos ainda respira... Seu descuidado.
Vi um dos Anjos, não o loiro, mas uma mulher agora, que flutuava sobre a torre mais alta da igreja que marcava o centro. Me levantei para ter uma vista melhor dela. Parecia que ela estava se concentrando em algo que estava ainda mais acima. Não dei muito mais atenção a ela do que aquilo.
Voltei a passar meus olhos por cima de todo o local. Mas não havia mais nenhum grito, gemido ou ruído. O lugar estava desértico.
-Keiko-sama... - Me abaixei novamente.
Passei a mão sobre sua testa. Um corte deixava seu rosto ensangüentado. Passei a manga da blusa, pressionando a ferida. Mas eu não estava preocupada com Keiko.
-O que aconteceu aqui, Keiko-sama? Quantas vezes esse tipo de desgraça vai se repetir. - Deixei uma lágrima rolar pelo meu rosto. - De qualquer jeito, tenho que te tirar daqui. Você já fez demais. Obrigado, Keiko.
Eu tentei levanta-lo, mas seu corpo era muito pesado para mim. Tentei mais duas vezes, e então desisti.
-Keiko! - Tentei cutucar sua barriga, mas ele nem se mexeu. - Ah, vamos...!
Me joguei ao lado dele, olhando para o céu nebuloso.
-Afinal, o que te atingiu? Aff... Seja o que for, se aparecer, eu acabo com essa pessoa. - E fechei os olhos, tranquila.
Mas então, escutei dois pés caírem sobre o chão ali ao lado. Não me incomodei em abrir os olhos. Achei que estava pronta para atacar até mesmo se fosse um Guardião Celestial.
Escutei uma risada abafada ali ao lado. Mas eu ainda sentia Keiko ao meu lado, não poderia ser ele. Senti um cheiro estranho...
Abri os olhos com minha mão demoníaca transformada: uma garra negra assustadora. Mas não havia ninguém ali. Olhei ao meu redor e... nada.
-Hunf. - Suspirei, entediada. - No mínimo, poderia usar os feitiços defensivos. - E voltei a olhar para o céu.
Começou a chover. O que piorou ainda mais minha situação. E fiquei irritada! Por que, por que, por que??!
-Keiko-sama! Acorde agora! - Eu o chutei no estômago.
Mas ele ainda devia estar inconsciente. Eu não estava nem um pouco preocupada.
Arrastei o corpo pesado dele para debaixo de uma barraca onde provavelmente era uma pequena parada para cavalarias. O chão estava um pouco sujo e cheio de feno.
Me joguei ao seu lado de novo, me sentando.
"Parece que não tem outro jeito, harf."
Depois de um longo tempo, a chuva ainda tendia a piorar. Tentei me distrair contando quantas pedras formava o muro da grande catedral.
Tava tão chato...
-Hm? Mas o que...? - Vi um borrão preto saindo de dentro da porta dupla da frente da mesma grande catedral.
Apertei os olhos para tentar enxergar melhor. Em um relâmpago, pude ver o rosto daquela pessoa, mas ela desapareceu do nada. Tombei a cabeça para o lado, ainda despreocupada. Normalmente, eu não ligava muito para as coisas que aconteciam ao meu redor. Eu tentava o máximo possível me desligar total do mundo. Porque se eu me mantesse alguns instantes sintonizada, eu sabia que iria lembrar daquele dia. Daquele primeiro dia que me recordo.
"Aff... eu só tinha... eu só tinha quatro anos. E eles me deixaram. Me deixaram..."
-Sozinha. - Completei meu pensamento em voz alta.
-Ah... minha cabeça!
Olhei para trás. Keiko tinha acordado. O sangue em sua testa testava seco.
-Nojento isso. - Apontei para a mesma.
-Que?
-Sua testa. Você se cortou. O sangue está seco. - Puis a língua para fora, fazendo uma cara de nojo.
-Ah, claro. - Ele passou a mão nela, mas continuou suja. - O que aconteceu?
-Não sei. Alguma coisa te socou contra o muro. Mas não vi o que foi. - Suspirei e deitei o corpo em cima da palha macia.
-A-algo me atingiu tão seriamente e você nem se deu ao trabalho de ver o que era?
-Não é importante. Temos que continuar nossa trajecto. Já tiramos todas as pessoas daqui. Estão todas salvas. - Voltei a me erguer. - Mas... queria saber o que aconteceu com essas que foram petrificadas. Foi aquela luz? O que realmente aconteceu?
Ele se levantou, olhando para o céu escuro que lançava friamente as gotas de chuva que chicoteavam o chão.
-Como eu disse, um portal das Trevas foi aberto aqui aquela hora. Esses portais são proibidos. Eles só podem ser abertos por um Guadião. Mas... Mas se os Guardiões estavam aqui para fecha-lo, foi outra coisa que o abriu.
-Um... demônio?
-Eu não sei. - Ele olhou para mim com certa preocupação no olhar. - Seja o que for, é muito forte.
-Então foi ele que te socou. - Eu dei um sorriso débil. - Seu idiota, atingido por um demônio...?
-Fique quieta! Sua boba.
Eu encarei com certa ironia.
Então nós dois começamos a rir.
-Cavalos. - Eu disse, de repente, quando escutei um galopar ao longe. - São a Guarda de Gaiak!
-Temos que sair daqui! Vamos.
-Posso usar minhas asas...
-Vamos!
Agarrei Keiko e, em um salto, abri minhas asas negras, que, em uma passe de mágica, apareceram em minhas costas.
-Aiko-chan, vamos para Gaiak! - Ele gritou animado.
-Sim! - E sorri.

O homem ali os observava. Ele passou a língua sobre todos os dentes e sorriu.
-Princesa... Te encontrei. - Sua boca se alargou ainda mais. - Que chato... Foi até muito fácil.

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