segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Aço Parte I

Tinha sido trancado, lacrado e acorrentado dentro de um velho container. Apesar de que por dentro de seu tecido sintético tão real, quase humano, apenas conter por dentro fibras de metal, dispositivos e engrenagens, aquele foi o primeiro e último de sua linha de fabricação. Ele foi projetado para ser mais do que uma forma bioquímica. Ele não foi fabricado para substituir o ser humano. Ele foi fabricado... para, diretamente, o ser humano.
Seu criador pensou em cada detalhe, em cada feição, em cada linha e traço de seu rosto. Fez com que ele sentisse frio, calor, fome, sede. Carinho, compaixão, amor, alegria. Mas também ódio, raiva, rancor, depressão. Pensou em cada movimento, cada mínimo movimento e reação reproduzido pelas engrenagens, tão microscópicas, que com um corte em sua pele fibrosa um gel avermelhado as impulsiona para fora, no simples ato de sangrar.
Feito em 2290.
Com a revolução da tecnologia na metade do século vinte e um, as máquinas tomaram forma, começaram a reagir. Afinal, elas só existem para fazer o trabalho sujo que as pessoas não querem fazer. Elas estão lá como apoio, uma ferramenta. Mas com a evolução das linhas robóticas cada vez mais estruturadas, ficaram fora de controle. E o mundo pagou um preço caro por isso.
"No ano de 2012, houve uma explosão em uma fábrica fantasma nos Estados Unidos. Dizem que foram terroristas, mas o que aconteceu está bem longe do alcance do que um homem poderia fazer. Pessoas foram eliminadas, cidades em estado emergencial, quase em ruínas... Isso foram terroristas? O que aconteceu foi uma revolta. Uma linha de robôs inteligentes destruiu seu forte, com ódio do ser humano por sua descompaixão tão cruel, e, uma coisa é certa, em seus cérebros inteligentes foi engrenado uma ideia fixa: o homem é o defeito da Terra, que causa tantos problemas, que destrói tantas coisas, ele tem de ser eliminado. E rapidamente. Isso é tudo."
"Depois disto, as pessoas foram obrigadas a morar em cidades subterrâneas, se protegendo das criaturas de metal e aço, quase invencíveis. Foram permanentemente proibidos a criação de novos robôs, ou mecanismos inteligentes. Agora é cada um por si.
Mas isso já faz tanto tempo... Já que estamos no ano de 2309.
Recentemente, ouve uma ruptura no sistema de defesa da cidade subterrânea de San Peter II, ou a versão da cidade de São Paulo, embaixo da terra. Nossa linha de defesa combateu algum dos monstrinhos, mas tivemos que fechar a cidade dentro de uma enorme bolha de aço com seis metros de espessura para que não conseguisse atravessa-la.
Isso foi genial, se tivessem pensado que fazendo isso a massa de oxigênio ia ficar bem limitada. Pessoas com a saúde menos estável não aguentam a pressão, e acabam tendo um derrame, ou algo mais pior.
Fomos descobertos aqui embaixo, e se não formos muito espertos, vamos ser eliminados.
Os robôs sabem onde estamos precisamente, e no mundo todo as outras pessoas estão na mesma situação. Se todo o "metal" atacar de uma vez só, estaremos correndo o risco de extinção.
E agora?"

Ele era um rapaz ruivo, extremamente magro, os olhos mel, as vezes esverdeados. Stephen tinha uma barba rala, o cabelo rebelde sempre engomado e sujo de terra. Sempre vestido com o mesmo sobretudo velho, de cor marrom, já quase preto e rasgado. Tinha encontrado um par de botas de galocha recentemente, e não muito usados. Estavam em bom estado, apesar de um pouco apertadas para o seu pé.
Precisava voltar para casa, o dia devia estar no fim. Não sabia que horas eram, porque não tinha relógio, e não dava pra saber sem um relógio se ainda era dia ou noite. Vivendo de baixo da terra, ninguém consegue.
Ele se cortou quando subiu a montanha de ferro-velho que dava para seu abrigo no topo dela, em uma plataforma de pedra: ali em cima tinha duas placas de metal uma encostada na outra, e eram tão grandes que formavam uma espécia de caverna, uma fenda.
-Hey, Boris. - Ele sorriu vendo o cachorro velho correndo em sua direção saindo da fenda.
Sorriu para o amigo, acariciando-o na cabeça.
-Como vai, menino? Por hoje trouxe pouca coisa, mas você vai gostar muito. - Ele sorriu cansado de novo, e entrou.
Dentro da fenda, tinha um refúgio tão bem organizado, que até parecia um pequeno apartamento bem bolado. Acontece que Stephen sempre teve o dom para montar, e desmontar coisas. Era inteligente, e conseguia criar pequenos dispositivos para tornas a vida de morador de rua mais fácil.Ali tinha um sofá feito de ferro e trapos de pano do tecido de uma mala que encontrara poraí, um fogão que estava quebrado quando o achara, mas ja havia sido concertado e funcionava perfeitamente, um ventilador, uma cama que andara até pintando de vermelho que fizera com barrar de metal enferrujado, um rádio que pegava apenas uma estação, um chuveiro que funcionava à carvão sabe lá como o fez, e um ferro de passar roupa. Stephen tinha feito um varal também no fundo da fenda, onde pendurava seu outro vestuário para quando o que vestia ficasse sujo demais.
Ele ligou o rádio, e se sentou no sofá. Carregava nas mãos protegidas por luvas de couro um pouco já podre,  um saco de papel reciclado com material comestível dentro.
-Comida, amigo. - E chamou o companheiro para sentar-se ao lado. - Aqui tem dois amburguers. - Riu. - Aproveite, esse não está tão sujo quanto o que achei no lixo ontem. Estava no chão, mas está gostoso.
E enfiou um pedaço na boca do animal, que gemeu sentido o alimento descer pela garganta.
O dono fez o mesmo, passando a língua várias e várias vezes no pão, o enchendo de saliva e sentindo seu gosto, mastigando lentamente.
-Gostoso?
Depois disso, Stephen caiu na cama, morto e mole. Era dura a vida de um cara que vive na rua naqueles tempos difíceis, mas era uma vida.
Em suas fantasias durante o sono, se mantinha preso ao corpo de uma garota, e tentava afastar sua realidade fria para bem longe através dela. Acordava enjoado, com a calça meio úmida, e se apressava logo a tomar um banho. E pra isso tinha que dar um jeito de acender o carvão. Costumava a faze-lo com uma pequena quantidade de querosene que sempre achava no enorme ferro-velho. Lavava somente a parte debaixo, ficando apenas com a camiseta velhas e furada. Já que não usava roupas íntimas, custava só tirar as calças e se lavar. Aproveitava para se aliviar, e deixava o líquido gomoso cair na terra, que o absorvia rapidamente. Isso ficava mal cheiroso algum tempo, mas Stephen preferia sentir aquele cheiro de corpo, do que o cheiro de terra, e aço, e poeira, e aquilo tudo.
Feito isso, sentava no sofá, e deixava que seus ossos se acomodassem durante alguns segundos, antes de sair em busca de comida.
-Ei, Boris. - Sorriu para o amigo, que se sentou frente a ele, enquanto se espreguiçava folgado. - Um dia, te prometo, eu vou dar uma vida melhor pra nós dois, cara. Agente vai ter um casão pra morar, com banheira... E jantar. - Sorria, fantasiando. - Vamos comer quilos e quilos de comida todos os dias, amigo. Eu vou casar com a garota mais bonita da cidade, e vou ter três filhos com ela. Hu, vou ser o melhor cientista engenheiro que já existiu. - Stephen desfez o sorriso, quando viu um rosto em sua mente. - Eu vou ter uma enorme fábrica, Boris. Vou ser o dono de muitas empresas, vou ser que nem meu avô, carinha.
O cachorro abaixou a cabeça. Sabia que quando seu dono pensava no avô, que morreu a tantos anos, sentia uma enorme depressão em sua vidinha julgada inútil. Stephen se sentia tão ignorado, tão desprezado, que já não lhe fazia tanta diferença sonhar e não fazer nada para melhorar sua realidade. Ele preferia ter ereções todos os dias de manhã, e se aliviar na água do chuveiro, do que lutar para sair daquele buraco.
O avô de Stephen foi o melhor engenheiro-cientista de sua época. Ele fez muitas melhorias na cidade, foi ele quem criou pequenos dispositivos para que as pessoas pudessem viver sem temer demais o mal que lhes aguardava na superfície, como campos magnéticos formados por partículas de ácido, que derretiam as nefastas criaturas robóticas. Mas se fossem no máximo cinco, ou seis. Mas já ajudava. Várias de suas invenções foram parar na elite. O exército usava para manter tudo em ordem.
Stephen suspirou, e logo levantou-se. Voltou para o chuveiro, e bebem um pouco da água. Feito isso, e mais disposto, acenou para o cão, e desceu a montanha de sucata, tomando mais cuidado dessa vez, lembrando do corte que fizera no dia passado.
Stephen tinha uma pequena oficina ali. Ele fundia, concertava e remontava várias coisas, incluindo até mesmo os carros aéreos - já não existiam carros que corressem pela terra.
A oficina era um barracão enorme, com as janelas quebradas, com várias estantes, caixas, e mais sucata. Quando não estava concertando alguma coisa, estava com os olhos mel vibrantes voltados para algum livro, aperfeiçoando seu conhecimento sobre os parafusos. Incrível como ele nunca se cansava.
Chegando aos pés do barracão, usava um cano de ferro para levantar a porta de seis metros de altura, começando mais um dia difícil.
Seus ombros tensos não conseguiam parar de tremer, pensando no serviço do dia. Passou a mão na testa suada, e entrou, se dirigindo à escrivaninha. Interessante é que naquela área, estava coberta de folhas, com desenhos de projetos, dispositivos... Ele conseguiu inventar, uma vez quando estava olhando para o céu artificial alaranjado que uma gigante tela reproduzia sobre a cidade, - quando ia para a cidade - um fuzil de lazer de calor que não derrete tecido humano, como aqueles que os militares usam. Acha que um soldadinho do exército sabe como fazer aquilo? Ele era apenas um garoto de dezoito anos, e sabia fazer tanta coisa!
Marginalizado. Ele o sabia.
Sem reclamar, sentou-se na cadeira sem encosto. Não que ela nunca o tivesse. Ele usara o encosto no alarme que fizera contra algum tipo de invasão, não de ladrões ou algo do gênero, mas contra as criaturas mecânicas. Stephen nunca as temeu. Afinal, foi sua própria espécie que as fizera. Por que ele teria medo de uma coisa feita pelas mãos dele mesmo? Sabia detê-las, mantê-las longe. Aquele barracão, com certeza, era o lugar mais seguro do mundo. Stephen tirou o sobre-tudo, jogando-o no chão sem maiores expressões, e pois o jaleco que um dia fôra branco, que estava pendurado numa barra de metal da estrutura da mesa, embaixo dela. Stephen usava sempre uma cartola velha e púrpura, que sempre aguardava sobre seus projetos. Outro material de trabalho, era os óculos protetores que carregava sempre acima dos olhos, na testa, que se parece um pouco com os óculos dos antigos aviadores.
Depois de seis horas de leitura, levantou os olhos para a parede, suspirando. Se virou sobre o cano da cadeira giratória, olhando para a mesa de trabalho lotada de milhares de ferramentas, e bilhares de porcas e parafusos. Levantou-se, marchando em direção a ela. Com os olhos cansados, começou a movimentar as mãos, batendo, parafusando, encaixando, girando e medindo uma pequena caixa de botões. Logo, ela era um rádio. Se irritou quando o ligou e não funcionou de primeira. Mas o problema era a falta de uma antena. Transformou vários lápis sem ponta, e uma linha de metal em uma enorme antena, resolvendo seu problema. O ligou, puxando a cadeira sem encosto, com os ouvidos apurados para escutar a voz de qualquer um. Stephen quase nunca recebia visitas, e isso o deixava um pouco atordoado. Era quando era obrigado a sair de seu isolado ferro-velho, para visitar a sociedade, indo a cidade. Normalmente, ele usava ainda uma bicicleta para chegar lá. Coisa que era peça de museu. Uma bicicleta era uma relíquia, e Stephen estava certo que era a única pessoa na cidade que sabia usar uma delas.
O rádio começou a sintonizar.
Ouviu a voz de uma mulher de algum programa de culinária, e logo mudou de estação, girando o botão, ouviu mais algum barulho de várias músicas, de várias outras estações, até chegar em apenas uma que o interessava.
"... os "metais" nos atacam de novo. Conseguiram burlar o código de segurança de nossos laboratórios. O exército acha que a capsula que guarda da cidade não vai segurar o ataque das criaturas mecânicas. Eles dizem para que ninguém entre em pânico, pois vai ser usado fogo contra o inimigo. Todos estão seguros. Caso a situação entre em estado de emergência, a porta do "porão" vai ser aberta. Pedimos que para a prevenção dessa situação, as famílias separem suprimentos para longo prazo, e por favor, que tomem cuidado..."
-Isso é uma bobagem! Esses idiota pensam que vão fugir das próprias invenções?! Deus não foge de nós!
O rádio se desfez quando se chocou na parede e caiu no chão, fazendo o barulho de uma pequena explosão.
Agora ele tremia de verdade. Não que Stephen tivesse raiva das pessoas, mas ele só não as admirava. Porque os humanos, tão frágeis e hipócritas, constroem coisas e situações, e depois fogem delas. Isso é tão fulo.
Stephen se sentou na cadeira sem encosto, apoiando sua cabeça sobre as mãos, tremendo. Seus olhos saltavam, deixando algumas lágrimas protestarem.
-Meu vô, por que não consigo...? Eu sei que posso mudar tanta, tanta coisa... Mas...  - Ele se balançava para frente e para trás, inquieto.
Stephen devia ser o moleque mais inteligente de sua época, se não fosse mais inteligente que muito "traseiro diplomado".
Depois de alguns segundos de tensão, se levantou, respirando fundo. Se voltou para o fundo do barracão. Seus dedos tremiam, querendo construir, projetar, revolucionar. Rapidamente, começou a construir um andaime, uma plataforma para subir e ter acesso em toda a parede de doze metros de altura. Não demorou menos de duas horas, com ajuda de uma máquina sustentadora.
Logo, estava trepando em cima do aço, e subindo até chegar na metade do paredão.
Ele franziu a testa, tirando do cinto de trabalho uma lata de óleo misturado a tinta, de uma confusão de outro dia.
Rapidamente, começou a trabalhar na parede. Escrevendo em letras grandes, para que qualquer um que chegasse o visse: mais difícil, melhor, mais rápido, mais forte.
-Eu vou revolucionar todo esse monte de lataria inútil. - Disse em tom maníaco, e sorriu satisfeito para o que acabara de fazer.
Seu encorajamento se transformou em adrenalina. Logo já tinha decido do andaime, e estava trabalhando em frente a mesa, escrevendo rapidamente cálculos, medidas, materiais e outras coisas de que iria precisar para um novo projeto.
Mas infelizmente, Stephen estava sem tempo para trabalhar em algo novo, já que tinha trabalho demais.
Sufocado, passou a mão no pescoço suado. Olhou para o relógio pendurado na parede, coberto por uma camada de poeira, mas ainda se dava para ver as horas ali.
Já era tarde.
E pensou que seria melhor ir atrás das peças que lhe faltavam no armazém.

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