quarta-feira, 2 de março de 2011


Eu estava prestes a passar pela porta. Minha voz estava tão rouca, que minha garganta chegava a arder. Eu precisava respirar. O clima tenso que nós dois havíamos criado a partir de um assunto tão normal, tão comum, chegava a ser irónico. Mas eu não queria rir. Estava irritada. E por conta disso, guardava um pouco do desejo de querer chorar.
Eu não entendia muito bem o ponto da briga. Eu apenas não queria que ele voltasse, e que de novo, ficássemos tão distantes.
-Onde vai? - Escutei sua voz ainda pesada por trás de mim, enquanto minhas mãos procuravam puxar o trinco da porta.
Eu não respondi. Eu não era, não sou, e nunca serei boa de briga, muito menos em uma discussão com ele. Por isso o deixei no vácuo e continuei minha fuga.
-Fugir? - Senti sua aproximação.
Consegui destrancar a porta, que para meu azar, abria para dentro, e isso me atrasou. Nisso ele já tinha atravessado a sala, mas fui rápida o suficiente para começar a descer as escadas do prédio.
Fraca - me esqueci de comer o dia todo curiosamente antes da briga acontecer - mas ainda persistente, eu tentava descer os degraus o mais depressa possível. Por trás, eu escutava seus passos me seguindo por cada andar.
Facilmente ele me alcançaria. Ele sabia que iria excitar na hora de passar pela porta. Ou ele esperava. Porque o tempo estava congelante e eu ainda vestia o camisão dele, e um micro short, que deixava minhas coxas e minhas pernas totalmente nuas e expostas. Fora isso, eu ainda estava de pantufas.
-Para com isso... - A voz dele ecoava pela escadaria do prédio. - Por favor, eu já disse que irei voltar!
-Daqui um ano e meio?! - Eu consegui soltar.
E acompanhado do grito rouco, eu não consegui  segurar o choro, e eu rosto em instantes ficou molhado. Mas isso só meu deu forças para descer ainda mais depressa, a toda velocidade. Nisso já estava quase no segundo andar. Senti seus passos descerem mais profundos - ele estaria pulando degraus. E em breve iria me alcançar, porque eu tinha tropeçado e parado um pouco para aliviar a dor do joelho ralado. Mas continuei.
Atravessei o salão do hall e abri a porta de vidro com força, saindo em disparada pelo estacionamento até o portão lá na frente, na entrada do condomínio Mar Mediterrâneo.
-... volta! - Eu só não escutei direito meu nome.
Mas seria uma facada profunda, que me faria parar. Então fiquei aliviada do vento frio ter abafado sua voz.
Olhei para trás no meio da correria e via o vulto alto me perseguindo lá de longe.
Pensei rápido, e me joguei no meio do labirinto de carros a direita, tentando a saída de banhistas do prédio. Provavelmente, iria atrasa-lo.
Quando cheguei a pequena porta lá na frente, a abri com o pé, mas ele já estava mais perto do que eu imaginava, talvez a um metro e meio de mim.
Sem pensar duas vezes, atravessei a avenida deserta aquela hora da manhã, indo no sentido da praia.
Quem sabe eu estaria indo longe de mais só por pirraça e raiva, mas eu queria fazê-lo correr um pouco, só para sentir um pequeno gostinho. Que gosto era esse, nem eu sabia. Talvez eu só estivesse sendo mimada.
Depois da pequena faixa de ciclistas, também abandonada naquele horário, atravessei o jardim da praia, e corri pela areia, em direcção ao mar.
Que idiota. Eu queria me suicidar?
Talvez sim. Porque pelo menos ele viria tentar me salvar, e morreria junto comigo no mar congelante. Ou assim eu fantasiava.
Mas antes que eu pudesse inclinar o corpo e cair, porque até meus ossos estavam doendo de frio, e meu corpo tremia inultimente fraco, seus braços compridos e quentes chegaram a tempo, como sempre.
-Você tá doida?! Ia fazer o quê?! Nadar até a África pelo mar?! E olha pra isso, tá tremendo de frio! Não é pra tanto que...!
-Calado... - Eu sussurrei, chorando.
-Quê? - Ele aproximou o ouvido, encaixando o queixo por cima do meu ombro, se sentando na areia, e me acolhendo entre suas pernas.
-Eu já disse que não quero que você vá! De novo, não! Poxa, depois de todo esse tempo, você vai voltar?! Agora que tudo estava começando a dar certo? - Eu tentei explicar. - Por favor, fica aqui. Fica comigo...
Só as ondas do mar manifestaram aquele momento. Meu corpo tremia, mas nem tanto, porque o corpo dele me passava calor.
O mar fez as ondas se acalmarem, para que eu pudesse escuta-lo correctamente agora.
Porque até para o mar, ele saberia o que iria acontecer, e isso era importante.
-Mas você não me deixou terminar. - Sua voz ficou serena, e senti seus lábios beijarem meu pescoço, mas apenas porque meu corpo se arrepiou.
-Então termine. - Eu disse baixinho, irritada, como uma criança.
-Você...
Meus olhos se arregalaram. O mar voltou a deixar com que as ondas se quebrassem na praia, e fez a água chegar até nossos pés aos poucos, enquanto meu coração acelerava de excitação e ansiedade.
Me peguei ficando corada, e então me encolhi.
Ele estava sério, paciente.
Depois de algum tempo, eu me aconcheguei ainda mais naquela pequena conchinha, e assenti tímida e devagar com a cabeça, deixando algumas pequenas lágrimas escaparem.
Senti teu abraço, e um sorriso por trás de minha nunca, quando sua boca voltou a me beijar. E logo depois disso, os raios do sol começaram a aparecer no horizonte, e com ele veio o calor, anunciando a manhã, e a brisa cheirosa que soprava do mar em nossa direcção, evidenciando a pulsação de nossos corações tão próximos.
E eu sorri, feliz.

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