sábado, 18 de dezembro de 2010

Dardark - Capítulo 4 - Estalo

"Aquela é a única a pessoa a quem realmente sinto o prazer de servir.
Vingança? Claro que não.
A verdade é que sou o que sou, e isso é indiscutível.
Não mato por benefício próprio, nem pontos de acréscimo ao meu ego.
Mato realmente, por puro e exclusivo prazer.
Apenas minha ama pode salvar aqueles que são vítimas de meu prazer.
"

O relógio badalou, anunciando o ponto cego da cidade devastada. Alguns pombos levantaram vôo do telhado da catedral.
O cenário não havia mudado. As pessoas que haviam sido petrificadas ainda estavam sólidas e firmes, ali.
Dei de ombros, passando por entre elas, examinando o local novamente.
-Ei, Aiko, eu não vejo nada de diferente por aqui. - Keiko voltou a me aborrecer. - Por que temos que nós virmos atrás daquele cara?
Fechei as mãos em punhos, tentando controlar meus nervos. Aquela pergunta já tinha sido feita pelo menos três vezes. Aquela era a quarta. Eu o ignorei, então.
-Realmente, eu também não vejo nada. Mas, antes - Voltei os olhos para a porta da igreja, lembrando da cena da pessoa de preto. - Eu jurava ter visto alguém aqui.
-Hm?
-Ontem eu vi alguém ali. - Apontei.
O vento soprou. Eu esperava algum comentário idiota da parte de Keiko, mas ele ficou em silêncio.
Virei o rosto para olha-lo.
-O que foi? - Arqueei uma sobrancelha.
O Keiko emotivo olhava assustado para algum lugar a nossa esquerda. Eu o imitei.
-Mas o quê...? - Quase foi um sussurro.
No céu, parecia que estava havendo algum tipo de luta. Duas figuras se chocavam. As espadas brilhavam cintilantes de vez em quando. Ou parecia que apenas um deles usava espada. Não se dava para enxergar muito bem.
-O que é aquilo? - Keiko me incomodou, palpitando meu ombro com o dedo.
Eu apertei os olhos para tentar enxergar melhor. E então, um brilho extremo de luz nos cegou, vindo daquela mesma direcção.
Meus olhos arderam. A luz forte invadiu o lugar ali por um bom tempo, e depois cessou. Um barulho extremamente forte anunciou o golpe fatal e depois se fez silêncio absoluto.
Eu abri um olho, pondo uma mão na frente do rosto, ainda meio alucinada.
Algo vinha cortando o céu em nossa direcção. A coisa era envolvida por um brilho sombrio negro.
-Cuidado, Keiko! - Eu me virei para empurra-lo, mas ele já tinha se escondido faz tempo.
Procurei me afastar do possível locar de impacto daquela bola negra assustadora, mas só deu tempo de me atirar no chão o mais longe possível que eu pudesse.
Bati a testa no chão áspero, sentindo arder. Mas me apressei ao me colocar em posição para a batalha prevista.
Com a dor, eu não aguentei. Automaticamente, meu corpo apelou ao descanso e eu caí sobre os joelhos. As mãos na testa.
-Droga. - Vi sangue manchar meu palmo. - D-dói...
Levantei a cabeça, esperando a fumaça que havia se formado abaixar.
Um corpo estava jogado ali. O sujeito vestia um casacão marrom. Os cabelos negros eram quase compridos, batendo em seus ombros, ainda ocultando a face daquela pessoa.
-Keiko! - Chamei por ele, sem olhar para ver se ele havia correspondido ao chamado.
Não tirava os olhos do indivíduo no chão.
-Ei! - Me direcionei ao corpo apagado.
Nada. Definitivamente, devia estar morto.
Me arrastei insegura pelo chão até o corpo daquela pessoa. Minha mão transformada em garra.
-Não irá se mexer? - Insisti, apontando a garra para seu pescoço. Suspirei. - Está morto.
Olhei ao redor, então, voltando a relaxar o corpo.
-Keiko, pode aparecer, seu medroso. - Suspirei, soprando um cabelo da frente dos olhos.
Observei uma cena curiosa, as estátuas das pessoas petrificas estavam se desfazendo. Os grãos de mármore, tão diluídos, ficavam leves o suficiente para que o vento pudesse carrega-los. Eu observei até o fim.
Keiko devia ter se escondido bem longe dali, pelo visto. Isso até sua personalidade mudar novamente, e então, ele voltaria.
-Não devia - Escutei o sussurro. - Se distrair tão facilmente.
Meu corpo estava paralisado, esticado contra o chão. A pessoa que estava desacordada, agora, estava sobre mim, me prendendo. Mesmo seu rosto tão perto, apenas consegui enxergar seus olhos, vermelhos.
Assustada, tentei um movimento inútil, tentando me libertar.
-Saia de cima de mim, tarado! Saia!
Mas eu era ridiculamente fraca comparada a ele.
Ele me apertou com mais força contra o chão. Eu gemi de dor, e então parei de me contorcer.
Para fita-lo deixei apenas um olho aberto, encarando os faróis vermelhos, inexpressivos.
-Então, eu irei morrer dessa forma tão humilhante. - Eu sorri, esvoaçando meu medo. - Sinta-se a vontade.
Ele havia paralisado, apesar de que eu não entendia o porque.
Eu resolvi apenas encara-lo.
Depois de algum tempo, ele fechou os olhos.
-Algum problema? - Eu o disse, com um tom de brincadeira.
Eu não acompanhei o movimento de suas mãos, que deslizaram para meus braços, os segurando com menos força.
Lentamente, nós nos invertemos. Meu corpo ficou sobre o dele. Como eu não entendi, de repente fiquei assustada.
Ele havia aberto os olhos novamente, e sua boca esboçava um leve sorriso.
-P...por que?
Eu conseguia ver os traços perfeitos de seu rosto jovial. Ele era tão fofo! M-mas o que estou dizendo?!
-Estava procurando por mim? Princesa.
-Que? - Franzi a testa, tentando conectar os fatos.
Eu jurava ter perdido alguma parte.
-Eu a escutei dizendo que estava procurando por mim mais cedo. - Ele sorriu, parecendo contente agora.
Mesmo assim, eu não entendia. O cara estava totalmente acabado. Seu pescoço estava ferido, seu peitoril também. Suas mãos, eu sentia cortes.
-Desculpe? - Mais para mim do que para ele.
-Sim?
Enquanto eu me recuperava, ainda não tinha notado nossa posição embaraçosa.
-Quem é você? - Arqueei novamente minha sobrancelha esquerda.
Ele sorriu. Me senti mergulhar em um oceano profundo de repente.
Mas notei que minha cabeça estava repousando sobre seu peito. Sua mão massageava meu cabelo.
-Meu nome...
Foi como um estalo! Como se tudo a partir daquilo fizesse toda a memória voltar!
Aquela pessoa... Que bom tê-la de volta, e saber que ela ainda se lembrava de mim.

É um prazer, senhorita. Eu sempre estava a sua espera.

"E agora, me lembrei. Foi a primeira lembrança que me veio a tona.
Sobre uma grande árvore do nosso jardim de rosas azuis, nós dançamos uma última melodia.
Ele havia jurado me proteger.
Eu havia jurado segui-lo.
Rosas azuis, hum?"

Nenhum comentário: