"Quem você pensa que é para nos julgar? Não é a mesma criança que escolheu se isolar do mundo?"
Vai se aventurar a morrer?
... Sim.
Meus pés tentavam se enrolar cada vez mais dentro do cobertor macio. O ventilador ligado me causava a impressão de barulho de chuva.
"Tão bom..." Murmurei, mesmo ainda dormindo. Tinha deixado a janela aberta em um fresta para escutar o barulho da rua. Só assim eu conseguia dormir.
Já faz cinco anos que consegui me livrar das garras de meu meu velho e nojento orfanato. Ainda lembro do vento gelado daquela noite. Estava frio. Apenas com algumas roupas no corpo, eu tinha que enfrentar a noite gelada.
"Karine, eu quero que fuja, entendeu?" Ele me dizia. Chorando, eu tentava puxar seu pé, preso no arame farpado. O vento frio soprava zombando da nossa situação. "Me deixa, Karine! Vá embora! Irão te pegar!"
-N...não... - Grunhi, me virando na cama.
Alguém de capa e capuz apareceu. A cor vermelha de suas vestes lembrava aos órfãos perdidos a sua dor, sua solidão, sua cruz seu destino. Eu pude ver. Eu pude ver em sua mão, quase sem carne de forma que fazia lembrar a de um cadáver, o brilho da lua na lamina de uma faca de açougue. Aquela faca velha já não era usada para cortar o pescoço de um cordeiro já faz tempo. Ah, não. Aquela faca cortava orelhas, dedos e até membros dos corpos magros e trêmulos dos órfãos.
"Karine!" Ele berrou, empurrando meu corpo com força para trás. Eu escorreguei e rolei por entre as árvores. O vento soprava por cima do bosque sombrio e se juntava ao barulho dos cães de caça. "Corre!!" Sua voz carregava desespero. Ele sabia o que iria acontecer se nos pegassem. O que iria acontecer a ele.
Eu estava fraca. Meu corpo não se sustentava mais. Precisava me esconder, ou rastejar até sair daquele lugar perturbador. Meu corpo se contorcia de frio e eu sentia que havia quebrado alguma coisa. Minha testa e minhas vestes estavam sujas de sangue. O pior: não era meu, aquele sangue. Estávamos em cinco. E agora, eu estava sozinha.
Algo pareceu me envolver. Eu sentia pequenos fios, ou o que quer que fossem, me enrolarem. Eles entravam dentro de minhas vestes, por entre meus dedos, ao redor de minha cintura. Até cobrirem todo meu corpo, tapando até mesmo minha visão e respiração. Eles começaram a me espremer. Me sentia sendo engolida. Terra, sangue, vento, berros...
-S...s...sozinha...
Acorda!
Dei de cara com o ventilador na frente da minha cama. Me levantei tremendo da cama. Procurei desesperada pelo abajur. O acendi. Estava no meu quarto.
-Arf... - Eu suava frio. Minha testa estava gélida. - J...já é a sétima vez.
Suspirei, tentando procurar alguma espaço vazio para andar até a porta. Estava uma zona aquilo tudo. Livros, absorventes, sutiãs... Tudo uma zona só. Eu não tinha tempo de arrumar, fato.
-Atrasada de novo?! - Olhava o horário em meu celular.
Abri o guarda-roupa. Estava tudo uma mistura só. Havia roupas sujas, toalhas, meias rasgadas e, um cheiro de suor... Estremeci. Peguei algo que ainda não cheirava mal - antes chequei, aproximando meu nariz do tecido.
Pronta, tropecei no meu rádio, antes de sair do quarto apertado e bagunçado.
-Maravilha! Saco... - Me levantei de novo e quase fui cuspida para fora do quarto. Fechei a porta para que o cheiro de mofo não se espalhasse pelo resto da casa. Casa, não, né. Eu não tinha sala, apenas uma cozinha pequena e um banheiro engomado.
Abri a geladeira. Uma prateleira dentro dela caiu, mas eu estava apressada. Precisava trabalhar.
Peguei algo que se parecia com um pão velho e congelado. Mordi monstruosamente o pedaço de massa, que mais parecia uma pedra. Arranquei um pedaço e atirei o resto na geladeira. Bebi um pouco de água em uma caneca de lata velha e sai correndo porta afora.
Eu morava em um beco escuro na periferia da cidade. Mas para um lugar como aquele, até que era bem agitado.
Eu precisava correr para pegar o ônibus todos os dias, quando ainda estava escuro. Eram aproximadamente quatro da manhã. O dia iria amanhecer fechado. Eu sentia pingos de chuva caindo sobre meu casaco velho e fino.
Minha barriga roncava. Estava morrendo de fome. Mas eu sempre estava morta de fome. Acabei me acostumando. Talvez esse tenha sido o motivo da minha altura infeliz.
Vinte e dois anos, cabelos vermelhos vinho, 1,57 de altura. Meu nome é Karine Haruno.
Vi o onibus a alguns metros. Precisava ser rápida, mas ele ainda estava parando. A rua estava vazia. Não havia muitos motivos para me preocupar com carros por ali. Pelo menos, não naquele horário. Atravessei a rua procurando em meu bolso meus trocados para pagar a passagem.
-Hm, onde estão? - Parei de andar no meio da estrada de asfalto esburacado.
Meu bolso estava vazio. Tinha uma pequena abertura que fez meu dedo sair para fora.
Saia da rua, cuidado!
Me virei para olhar de quem era a voz que veio de minhas costas. Quando arregaleis os olhos para o caminhão que se aproximava em alta velocidade.
Meus joelhos rasparam no asfalto gelado. Doeu, mas até aí, eu precisava chegar no ônibus. Machucada, pulei para dentro do veículo. Escutei o motorista do caminhão me xingar. Achei algumas moedas dentro do bolso da calça desbotada.
Paguei ao motorista que olhou feio para mim. Devia parecer uma drogada com aquele cabelo despenteado. Por isso eu sempre levava comigo um pente dentro do sapato.
Ao passar pelo corredor procurando um acento livre, vi as pessoas me olhavam com repugnância. "Estou tão mal assim?" E me sentei no último banco, no fundo.
-Hunf...
Dali eu podia dormir. Demorava algum tempo para chegar na última parada, meu destino.
Mais descansada, e com os cabelos penteados, eu entrei na pequena barraca. Minha patroa já me esperava, carrancuda.
-Garota, eu já não disse para chegar mais cedo? Eu preciso de voce aqui para me ajudar a organizar as coisas.
-Me desculpe.
-É inútil mesmo. Estou pensando em manda-la embora.
-T...tudo bem! Vou ver se consigo.
-Não quero que "veja se consegue". Quero que chegue aqui as quatro em ponto. Me entendeu?
-Sim, senhorita. - Abaixei a cabeça, fingindo medo.
Eu trabalhava em uma barraca de peixe. Que na verdade, vendia de tudo um pouco. Não era o melhor emprego do mundo, mas foi o que consegui. O dia iria ser bem longo...
As seis eu já estava um lixo. Tinha que varrer, lavar, esfregar, limpar e desmontar a barraca. Eu não sabia cozinhar muito bem, então fazia só a faxina do lugar.
-Aqui. - Me deu na mão algumas notas amarradas em um elástico. - Segure. É o que vai ganhar.
-Obrigada!
-Até amanhã.
-Hunf, até.
Depois disso, eu tinha que estudar durante a noite. Então chegava em casa só a uma da manhã. Ninguém podia falar mal da minha bagunça. Eu realmente não tinha tempo.
Mas agora, por alguma força sobrenatural, a primeira coisa que fiz foi me direcionar para a primeira lanchonete que apareceu. Pedi apenas um sanduíche de queijo e um copo de café - o mais forte possível.
Era tão prazerosa a sensação do queijo escorrendo pela garganta. Mas eu só tinha esse privilégio uma vez por mes. O resto, eu usava para pagar meu transporte e rações frias enlatadas.
Sentei no banco mais alto do lugar, claro.
-Hey, Karin! Como vai? - Perguntou animado o velho careca, dono do bar.
-Faminta. O de sempre por favor?
-Que aparência horrível... Sabe que se eu pudesse eu lhe daria mais que isso. Mas não tenho dinheiro para comprar nem o que tenho. - Ele riu. - Tempos de enforco, voce sabe.
-Eu sei. Estamos todos assim.
Ele sorriu e entrou pela porta velha que dava para a cozinha. Um cheiro, por mais que fosse de uma comida feita nas coxas, invadiu meu nariz e penetrou em minha mente. Era muito bom...!
-Está com fome, querida? - Um homem puxou o banco para perto de mim.
-Hm?
-Quer que o tio pague algo para a menina comer?
Olhei para o rosto do indivíduo.
-O melhor, que comer na casa do tio?
Fechei o rosto. "Cada um..."
-Obrigado, mas, não.
-Ah, venha, minha linda. O tio te dá algo bem gostoso. - Me pegou pelo braço e me derrubou do banco, me puxando. Eu tentava me soltar, mas ele era forte. E com meu tamanho "gigante", é claro que eu jamais iria conseguiria fugir.
-N...não! - Eu puxava meu braço, mas nada adiantava.
Nisso, agente já estava fora do lugar. As pessoas olhavam mas nada faziam. Então eu tentei chutar a perna grossa do homem. Nada adiantava. Ele continuava a me arrastar, chegando cada vez mais perto de uma perua velha, onde outro cara aguardava com um sorriso de orelha à orelha, olhando para mim.
Ei, cara, aqui!
A mesma voz de antes. Veio de trás de nós. Ele olhou confuso, e algo o acertou na cabeça. Parecia uma pedra. Mas eu não tive tempo de olhar. Sai em disparada assim que o aperto no meu braço amoleceu.
-Volta aqui, pirralha! - Vinha outro o outro atrás de mim.
Eu não chegaria muito longe, apesar de ser rápida. Eu me cansava muito fácil por conta da minha fraqueza. Eu tentava mergulhar no meio das pessoas e conseguir me safar, mas ele acabava me vendo.
A direita! A voz gritou em meu ouvido.
Parei, olhei para trás. Nada do dono daquela voz melodiosa. Então vi a figura alta do meu perseguidor chegando cada vez mais perto.
Entrei a direita em um beco estreito. Haviam várias máquinas velhas e lixo metálico ali. Eu tive que pular pedaços de lata e me espremer contra paredes para passar sem me machucar. Até que cheguei no fim do corredor, dando de cara com uma parede suja.
-Não bom. - Olhei até aonde a parede se estendia.
Atrás, o homem estava conseguindo me alcançar, com dificuldades para passar em determinadas partes do labirinto de ferrugens.
Olhe para baixo, pegue aquele pedaço de latão pesado e bata com força sobre o vidro da janela! Mais uma vez, a voz instruiu.
Parecia tão perto. De alguém que estava ali, mas de alguma forma, invisível. Seria possível?
Peguei algo que parecia com uma marreta de metal. Era pesada, mas tive que ultrapassar meu limite, e me apressar ao fazer o que foi mandado pela misteriosa voz.
Parecia bem leve quando a peguei. Mas senti a maior parte do peso indo mais para perto do aço da ponta, pesado. Aquela área parecia estar sendo segurada por outro alguém. Mas nem notei nisso direito naquele momento. Quebrei o chão de vidro, antes parecesse não ter nada ali. E então eu comecei a afundar, a cair, em um buraco de poeira e cacos.
O vapor do lugar me fez suar. Deveria estar debaixo de uma fábrica de carvão, ou algo assim. Mas ali era muito quente.
-Garotinha...! - Escutei os pés do homem baterem no chão atrás de mim e comecei a correr no corredor quente. - Eu vou te pegaaar!
Vire na segunda esquerda e depois direita novamente! Rápido, Karin!
Ao fazer, quase bati o rosto no cano quente. Mas acabei por encostar meus palmos nele, e queimou a carne da minha mão. Engatinhei por debaixo dele até chegar ao fim. A direita, tinha escadarias que iriam sabe Deus onde. Estava escuro. Mas naquela situação, enfrentar o escuro não era minha maior preocupação.
E desci correndo, quase tropeçando nos meus próprios pés.
Nenhum comentário:
Postar um comentário