Vai ter de escolher...
... é eu ou ele?
Acordei suando, procurando pelo meu cobertor. "Kio-san... Kio-san!" Minha mente perturbada não me deixava dormir em paz. Eu sentia algo escorrendo por meu rosto - lágrimas.
"Pode escolher alguém para ir no seu lugar, Ame. Sabe disso. Alguém que você goste muito. - Sua risadinha infantil me torturava. - Um só."
-Kio-san! - Acordei, olhando para a porta semi-aberta do quarto. A luz da cidade entrava pela janela, deixando o quarto claro o suficiente para que eu pudesse notar a presença de alguém ali.
Eu ofegava, meu peito doía. Minha cabeça também colaborava para meu desespero.
Duas mãos quentes me puxaram para perto de um corpo, sentado de pernas cruzadas. Fui parar em seu colo.
As paredes de minha garganta pareciam estar se raspando uma na outra. Limpei meu rosto.
-Eu estou aqui. - Ele passou os braços a minha volta, seu rosto sobre meu ombro.
-K-K-Kio...? - Gemi, tremendo.
Eu estava apavorada. Parecia que tinha perdido algo importantíssimo.
-Shh-shh... - Ele me balançava de um lado para o outro, me ninando.
Não me fazia ficar menos tranquila. Meus olhos ainda deixavam lágrimas escorrerem e meu coração estava a mil.
-Não parava de gritar por mim. O que foi? - Sussurrou.
Eu tossi e finalmente, estava mais tranquila.
-E-eu não sei. - E fiz força para frente, me libertando do abraço.
Eu ainda tremia e não conseguia sustentar meu corpo. Precisava de água.
Coloquei meus pés no chão e me ergui de pé. Até aí, normal. Mas foi no primeiro passo que quase torci meu tornozelo se não fosse per dois braços sagazes que me seguraram a tempo.
-Kio-san... Deixe. Eu me viro. - E tentei me libertar de novo. Dessa vez, eu não consegui.
-Tá maluca? Não consegue nem dar meio passo. - Meu corpo deixou o chão e quase bati a cabeça no teto. - O que você quer?
-Kio! Seu cabelo tá fedendo! - Um cheiro de suor forte, argh. - Tava fazendo o que?
-Deitado ao seu lado tentando fazer você calar a boca. Que quer pegar?
-Água. - Gemi. - Mas posso muito bem andar até a cozinha.
-Abaixe a cabeça.
De alguma forma, Kio conseguia fazer sentir-me melhor. Minha cabeça raciocinava normalmente ao lado dele.
Me colocou sobre o balcão e encheu um copo de água gelada. Enquanto eu bebia, ele atacou a caixa de sulco de pêssego.
Me sentia bem melhor naquele momento.
Pulei dali para o chão. Minhas pernas pareciam estar funcionando. Mostrei a língua para ele, brincando, e deixei o copo na pia.
-Ame.
-Hm? - Me virei para olha-lo.
-Estava sonhando com o que? - Falava entre goles. - Você gritava por mim... E pelo o outro sangue-frio lá. - Ao terminar, passou a mão na boca, limpando.
-Q-quem?
-Yen. - Jogou a caixa com tudo dentro da pia. Fez um barulho metálico que assustou.
-É sério? - Olhei para meus pés. - Eu não me lembro. Só parecia que... que algo iria, ah, sei lá. Foi um pesadelo. - Quando ergui o rosto de novo, dei de cara com os olhos de Kio, a centímetros dos meus. - Ah, pare! Que medo de você. Hunf. - O empurrei.
-Doida. - E se virou, atravessando a sala e sumindo no corredor escuro.
Suspirei e fiz o mesmo, indo para meu quarto.
-AAAAH! Saia do meu quarto! Saia, saiaa! - Eu batia nele com o travesseiro.
Kio estava jogado ao chão. Acordou por causa das bofetadas que eu dava em suas costas.
-Que barulhenta... E é a senhorita que está no meu quarto. - Ele tomou a minha almofada.
O sol entrava pela janela, deixando tudo cor de laranja. Era verdade.
-C-como...? V-você q...
-Você apareceu aqui chorando, baka. Tive que ficar dizendo que estava ao seu lado sei lá quantas vezes. Estou todo dolorido. - Ele se esticou e seus ossos estalaram.
-Eu? Não me lembro de nada disso. - Cruzei os braços e me arrastei para fora da cama. - Ué, Shiro já está aqui? Hm... que cheiro bom! - Ainda sonolenta, me apoiava nas paredes do corredor.
-Que nada. Você me acordou a meia hora atrás desesperada. Aí fui fazer nosso café. - Ele procurava o outro pé da pantufa.
Eu queria chegar a cozinha, mas enxergava tudo embaçado. Até que meu relógio de pulso tocou, me avisando que eram oito e meia. Demorei um pouco para me incomodar com o barulho. Quando olhei...
-Ah! Kio-san! Estamos atrasados! N-não há tempo para café da manhã! - Corri para o quarto, desesperada, procurando pelo meu uniforme.
-Que? - Kio caminhava para a cozinha. - Mas estamos de férias.
-Hãm? - Tropecei quando estava com a escova de dentes na boca. - Férias?
Demorei mais um tempo para me lembrar do que acontecera no dia anterior.
"Nos vemos daqui a algum tempo, classe. Estão dispensados. Férias. - Yen sorriu."
-Ah.
Já na cozinha, me sentei na banqueta mais alta. O café parecia uma delícia. Kio fizera pão torrado com queijo e tomate. O cheiro era ótimo.
-Kio... Eu não posso comer isso. - Contorci a boca. - Isso engor...
Senti o queijo quente se derreter em minha boca. Kio enfiara o pão dentro dela e eu colaborei, mordendo e arrancando um pedaço.
-Não quero saber disso. Estamos de férias, baka. E é férias de absolutamente tudo.
Mastiguei, engolindo lentamente para poder sentir o sabor.
-Então posso ir a Minagawa sozinha?
-Dá onde veio isso? - Ele resmungou.
-Estou de férias de você também, então.
Ele soltou um riso sarcástico, e disse de boca cheia:
-Não conte com isso. - Falava me olhando com um olho aberta apenas, fazendo um tipo de careta. - Eu sou seu irmão mais velho. Não tiro férias.
-Ah, claro. - E joguei o pão de volta ao prato.
Suspirei, apoiei a cabeça sobre as mãos e fiquei observando Kio comer. Até ele arrancar um pedaço do lanche dele e me forçar a abrir a boca.
-Não quero, seu tonto! - Eu virava o rosto, sorrindo.
E Kio retribuía com seu sorriso malandro.
-Abra a boca!
E nos divertíamos juntos.
"Irá ter de escolher. Mais cedo...
...ou mais tarde. Ame-chan."
Esses momentos, se tornarão apenas lembranças? Não quero que ele vá. Não ele. Não quero.
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