domingo, 3 de julho de 2011



Quando a princesa se cansa - Parte I

Chovia no dia em que fui trazida para esse lugar nojento. Ah, eu lembro cada momento de agonia, de cada célula do meu corpo assustada com tudo o que acontecia. Fazia algumas semanas dês que eu virara órfã naquele dia macabro. Minha tia teria morrido por algum motivo desconhecido. Ah, mas eu sei pelo o que, e quem foi que a fez chegar ao final.
E seu motivo.
Aparentemente, a culpada de sua morte fora eu. E estava sendo levada para um manicômio, para me tratar de minha "doença". Meu tio padrasto, porém, queria que meu fim fosse ali. Então providenciou para que eu não fosse solta por motivo algum, já que eu era altamente perigosa e louca.
Mas hoje, ah, hoje isso tem fim. E irei me vingar.
Esse desgraçado matou minha família, e me deserdou de toda felicidade que eu viria ter.
Agora, o manicômio queima em chamas árduas de meu ódio, e meu passado manchado. Todas as portas foram abertas, para que outras garotas pudessem fugir, garotas que tiveram uma história suja como a minha. Todas devem ter chance de se vingar.
Eu tinha cortado o pescoço de alguns homens que tentaram me abordar novamente, mas já era tarde para alguém tentar me parar. Louca? Agora, sim, estava louca, e com as mãos cheias de um sangue sujo e fedorento.
Girava a chave da moto na ponta do dedo, enquanto lambia vigorosamente um pirulito sabor cereja, que diminuía cada vez que minha língua se esfregava nele. Enquanto isso, assistia a explosão daquela porcaria toda, se destruindo, e em chamas.
Curiosamente, me senti viva, e dei um sorriso inocente para aquilo.
Arremessei meu corpo no ar, e ele caiu sobre o assento da motocicleta. Dei uma última olhada para o inferno, prendendo meu cabelo é um rabo de cavalo alto, pondo minha faca amiga, que me ajudara o tempo todo, e ainda um pouco suja da tintura vermelha, enfiada no barbante, presa junto ao cabelo. Mordi o pirulito, o destroçando em minha boca, e cuspi o palito no asfalto do estacionamento deserto.
A moto gritou minha liberdade, rugindo. Abaixei os óculos escuros e parti, como uma princesa que desce sozinha de uma torre, e vai em busca do dragão que a aprisionou o tempo todo.
Vai mata-lo.

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