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Depois de receber o diploma, eu fitei um pouco a platéia que me aplaudia. Eu dei um sorriso rápido, apertei a mão do diretor, e desci do palco.
O diploma não me importou muito, joguei logo ele na mão de meu velho que veio só pra ver a hora da entrega. E ele já ia embora, se enterrar no abismo dos negócios. Ele não costumava ter muito interesse em mim dês que a mãe se fôra. Mas eu também não ligava. Éramos diferentes.
Fui ao pátio escuro e vazio do colégio. Era engraçado. A dezesseis anos atrás ela me trouxe aqui. Eu me lembro que eu chorava no primeiro dia, mas como todo o carinho ela meu deu forças e me beijou na testa. E por um segundo vi nossas imagens diante de mim. Mas não prestei atenção em me concentrar nelas. No braço já tinha a beca que me incomodava. Desci a mão pelo bolso procurando por meu isqueiro velho.
-Bonito, hm?
Me virei para olhar. Demos um choque de punhos, tirei o cigarro da boca e ofereci.
-Não, cara. - Ele disse sério por um instante. - Eu tenho os meus.
Rimos juntos.
Ficamos encarando a escuridão do pátio juntos. Me joguei no chão, me sentando com as pernas esticadas. Atirei o chapéu de formando que deslizou pelo chão meio úmido.
Jack o pegou, juntando o dele também em suas mãos com o meu.
Em silêncio, aguardei ele acender o trago perfumado. Jack fumava algo bem mais forte do que eu, e curiosamente aquilo me cheirava bem. Talvez porque os dele fossem mais caros.
-Fumo de rico. - Comentei por um instante.
Ele riu antes de enfiar na boca.
-Red Dead. Nada de mais.
Eu o olhei com o rabos dos olhos e logo voltei à escuridão do pátio.
-Vamos morrer de câncer antes dos vinte e cinco.
-Você liga pra isso?
-Não tenho nada a perder. - Dei de ombros.
Soltei a fumaça pelo nariz. Ela serpenteou um pouco, e logo desapareceu.
-Não quero jogar minha vida fora, ainda tenho muito a fazer por aqui. Mas quando minha família me obriga a logo sair e ir pra faculdade... Queria fazer um curso antes, ou algo assim. Ou mesmo trabalhar algum tempo sem compromissos.
-Porque estamos falando de faculdade?
Jack riu. Ele sabia que eu pouco ligava para o que estava acontecendo. A quinze anos que minha vida era um lixo. Se eu fosse um porquera e caísse nas drogas, meu pai me chutaria da casa dele na primeira chance. Eu não era um cara muito ligado por causa das brigas constantes com ele, e minha falta de interesse no colégio. Penso que se a mãe tivesse viva, se seria diferente.
-Ei, cara, não quer construir sua vida? - Ele se sentou encolhido ao meu lado com um sorriso largo, mas com os olhos despreocupados.
-Prefiro meu câncer.
-É sério, Doug. Você tem a Lorena. Ela é super aplicada, e te ama de verdade. Mas se folgar assim no ombro dela, vai acabar te chutado.
-Então sou o cara errado pra ela. E também, que posso fazer?
Jack atirou o cigarro nem muito tragado no chão, se deitando. Ele gargalhou baixo.
-Fala como se fosse um velho. Sua vida começa agora, irmão. Não temos nada a perder, mas muito o que ganhar. Hoje provavelmente vai ser nosso último encontro. Vou fazer meus estudos na Inglaterra como meus pais querem.
Eu ri sarcástico.
-Boa sorte.
-Porque quero construir um bom lar pra quando voltar e me casar com a Lu. - Ele gargalhou de novo. - Parece bem idiota, né?
-Uhum. - Assenti com gosto.
-Eu quero fazê-la feliz. Quero ter filhos com ela, quero que construamos uma casa, construir uma família, quero meus netos, quero comprar uma chácara, porque quero ficar velhinho ao lado dela, e quero morrer longe dessa cidade suja com ela.
Por um momento eu senti uma pontada de inveja de Jack. Ele tinha planejado tudo aquilo nesse meio tempo? O cara tinha dito semana passada que não sabia que fazer da vida.
-Belo discurso. - Eu disse um pouco mais sério.
-Foi bom ter crescido com você, Doug. Vadiamos juntos muitas vezes. Momentos assim não dá pra esquecer. Mas agora vai ser diferente. Estamos falando do que vamos fazer nos próximos oitenta anos.
-Por que acha que vamos chegar aos oitenta? - Provoquei.
-Vamos apostar. - Ele deu um sorriso largo.
-Valendo. - Dei de ombros.
-Obrigado, cara. - Escutei a voz de Jack um sussurro.
Tinha começado a garoar. O cigarro que Jack jogara fez fumaça quando as primeiras gotas de água apagaram o fogo.
-Vai mesmo fazer tudo isso? - Soltei por curiosidade.
Jack não respondeu. E quando demorou demais, eu olhei para onde estava. Mas ele já tinha ido. Só nossos chapéis estavam ali.
Deixei a chuva me molhar. Me senti mais livre daquela maneira. Meu corpo todo molhado se fez jogar no chão, e me estiquei por completo. Depois de um tempo, arrastei os chapéis para perto. Quando senti um volume dentro deles.
-Red Dead. - Li a caixa.
Logo entendi. Eu sorri ignorante, mas entendi a intenção. E a guardei no bolso da calça jeans larga de mais.
-Ei, querida, eu vou à um lugar enquanto fica com as crianças. Sabe onde. Estou com o celular.
Ela assentiu, me fitando com o olhar preocupado por um segundo.
-Quer fazer isso sozinho? Eu ainda posso ir com você. As crianças podem esperar aqui. Lia já tem dezesseis e pode cuidar dos meninos aqui no carro.
-Sem problemas, preciso fazê-lo sozinho.
Lorena ainda me fitou preocupada com seu olhar sereno e amável de sempre. Sabia que isso era difícil. E então encerrando nossa discussão me deu um selinho nos lábios. Eu beijei sua testa, e saí do carro.
Meu corpo passou pesado pelo portão. Caminhei entre as lápides até chegar onde queria. Minha respiração estava tranquila. Mas de repente comecei a arfar.
Na mão direita carregava um velho chapéu que já fôra azul. Agora estava cinza e velho, e um pouco desfiado também.
Me ajoelhei em frente a pedra com o nome do meu melhor amigo cravado nela. "Jack Philt - 1992-2013"
O vento soprou fraco. Me ajoelhei. Meus olhos estavam molhados apesar de força-los a se manterem sóbrios.
E no fim eu tinha construído toda uma vida. Me casei com Lorena seis anos depois de terminar meus estudos. Éramos muito felizes e tínhamos exatamente a vida que Jack recitou naquele dia.
Me pergunto se estou vivendo a vida da alma errada. Quem sabe roubei algo de Jack aquele dia.
Com a voz rouca, passei a mão pelo rosto pálido e gelado. E aquele lugar me deixava ainda mais tenso.
-Você que tinha que ganhar a aposta.
Logo não deu pra aguentar. Eu abaixei o rosto nervoso deixando com que ele se contorcesse.
-Você sabia que ia acontecer naquele dia? - Eu bati com os punhos sobre a cova fechada.- Você sabia e me fez essa aposta ridícula?!
Enquanto eu tentava me conter, o vento soprou fortemente. Talvez aquela fosse sua resposta. "Eu queria te convencer a ter a vida que eu não iria ter."
E então eu entendi.
Depois de um tempo, eu olhei ao redor de todo o cemitério. Me despedi da pedra fria da lápide de Jack. Sobre ela, tinha um velho chapéu de formando, e a caixa ainda úmida e velha de Red Dead.
-Obrigado, cara. - Eu olhei uma última vez, e me virei frio para voltar para a entrada do lugar mórbido.
"...por me ter incentivado a continuar. Valeu, mesmo."
I.S. Greco


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