sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Nesse mundo em que vivemos, muitas vezes tomamos decisões erradas. Enquanto isso, sempre tem alguém que, por sorte ou propositalmente, seguiu o caminho certo. Talvez seja por isso que nós temos que dar nosso melhor. Mas isso também conta quando não queremos fazer a coisa certa? E por que o destino tem que nos obrigar a fazer a coisa certa quando não queremos? Deve ser porque somos humanos, afinal.


Naquela época, éramos colegiais. Estávamos no primeiro ano. Fazíamos absolutamente tudo juntos. Éramos mais do que duas pessoas que se gostavam, mas dois amigos que juraram fidelidade.
Era tudo tão perfeito, até o dia em que precisei me mudar para o interior. Eu não queria contar para ele. Era maldade sumir sem avisos. Mas seu dissesse adeus, iria só deixar nossa separação mais evidente. Eu não poderia vê-lo nem tão cedo, e iria me machucar vê-lo chateado. Então, desapareci. Foi sem dúvida, o maior erro que eu poderia cometer.
Sem calor.
Sem motivos.
Tudo por que sou idiota.
Porque o ser-humano é tão cruel?
-Moça? - Escutei ao meu lado.
Desgrudei a cabeça do vidro frio. Com algum esforço, consegui focalizar a imagem do homem gordo e baixo.
-Já chegamos. A senhorita poderia desembarcar? - Ele disse, pegando minhas malas, me apressando.
Eu só assenti, tomando das mãos dele a minha bagagem mínima.
Eu tinha acabado de fazer meus tão esperados dezoito anos e, invés de uma festa ou algo irritante do tipo, pedi permissão aos meus pais de poder visitar minha cidade natal sozinha.
E a partir de já, resolvi morar aqui.
Meus pais já contavam com isso, por isso, me deram a chave da nossa antiga casa, que até então, estava alugada. Mas as pessoas que moravam nela já tinham a desocupado.
Desci do ônibus, olhando para a ferroviária quase vazia. Uma das luzes que iluminava o local estava a beira de queimar, e ficava piscando. Estava frio. Abaixei a cabeça, enterrando meu queixo no cachecol.
Só de respirar o mesmo ar de três anos atrás, me dava calafrio. Como eu ainda me mantinha pensando nisso, eu não sabia explicar, nem entender. Mas cheguei a conclusão que talvez fosse um sentimento de culpa.
Meus pés estavam pesados em quanto eu caminhava. Eu não comia a praticamente dois dias. Apenas tomava suco, ou água. Estava me sentindo realmente muito mal.
Peguei o primeiro táxi que vi. Achei ter cochilado durante o caminho, mas foi apenas por um momento. Quando deixei meus pensamentos flutuarem para o passado. Me deixava tensa.
Logo, estava de frente à pequena casa sem quintal, ou jardim. Era apenas um prédio de dois cômodos, com uma entrada apenas que já ia para a rua.
Procurei pela chave amarrada em uma corrente em volta do meu pescoço. Quando a girei, do outro lado da rua, escutei uma outra porta se abrindo. Arregalei os olhos. Terminei de abrir a porta, entrando com pressa.
Pela persiana, vi um vulto parado olhando para a minha direção.
Suspirei, deixando meu corpo cair sentado. No escuro da sala, não tive o trabalho de acender a luz. Quando meu estômago fez um barulho estranho, achei que seria bom sair e comprar alguma comida. Aquela hora, só a loja de conveniência do posto poderia estar aberta.
Abri a porta, olhando para o longo da rua. Ninguém, vazia.
Revirei os olhos, fechando a porta. Tinha prendido todo meu cabelo em um rabo alto. As vezes, ter o cabelo castanhento comprido me incomodava. Dava trabalho para ajeita-lo.
Depois da última volta da chave, senti uma mão tocando meu ombro. Com o susto, bati o nariz da madeira da porta, rapidamente me recuperando, olhando para o estranho.
-Ah, senhorita. - Aquela pessoa disse com uma voz gentil. - Desculpa ter te assustado, mas, estranhei alguém chegando a essa hora nessa casa.
Eu tremi. A voz era um tanto que parecida... Mas dei de ombros.
-Ah, s-sim, eu... Eu vou voltar a morar aqui. - Sorri um tanto que singela. - Estou vindo para cá hoje.
-É...?! Que sorte a minha, então! Prazer conhece-la! - Ele sorriu, apertando minha mão. - Sou Thiago Keirama. Seremos vizinhos, hm?! Que bom...! - Ele parecia entusiasmado com a idéia.
-S-sim... - Eu disse, pondo um fio de cabelo saliente atrás da orelha.
Depois de um tempo, meu cérebro lerdo recebeu o nome do rapaz. Meus olhos automaticamente se abaixaram, e franzi a testa
-Keirama, hm? - Sussurrei para mim mesma, e depois levantei a cabeça e sorri. - É um prazer. Meu nome é Katrina, Katrina Okasawa.
Ele sorriu, animadíssimo, que irritava.
-Katrina, é? Eu tinha uma amiga com esse nome. - Ele sorriu.
Tentei manter meu sorriso nos lábios, quando na verdade o que eu queria é sair correndo.
-Sério? Que bom, é...
-Você parece estar de saída. Vai a algum lugar? - Ele parou do sorrir para prestar atenção no que eu iria dizer.
Com meus olhos em fendas, tentei observar a cor dos olhos do rapaz, mas a rua estava escura, e eu quase não enxergava.
-Ah, s-sim. - "Uma brecha", pensei. - Eu estou com alguma fome e, como cheguei agora não tenho comida aqui. Estava indo a loja de conven...
-Por favor, coma lá em casa! - Ele balançou meu braço como uma criança mimada. - Por favor, por favor! Seria um prazer tê-la como convidada.
Eu sorri amarelo, mas quem sabe ele teria algo bom para me oferecer.
-Mas seus pais não estão dormindo a essa hora? - Arqueei uma sobrancelha. - Seria um incomodo para eles.
Thiago soltou meu braço, um pouco menos sorridente, mas ainda tinha um certo sorriso em seus lábios fechados.
-Não, eles não vão se importar muito. Afinal - Ele tombou a cabeça, sorrindo novamente. - Eles nem se quer estão aqui.
-Oh, é? - Fingi sorrir novamente. - Sendo assim...
-Ótimo. - Ele sorriu.

A sala de Thiago era bem confortável. Havia um sofá, e uma TV bem grande. Um tapete felpudo laranja, e uma pequena mesa de madeira no canto com três cadeiras. Agora que eu podia vê-lo na claridade, notei que ele se quer teria mais de dezesseis anos.
-Thiago, você é tão novo e mora sozinho? - Arqueei uma sobrancelha novamente. - Não tem nenhum adulto aqui?
-Sim. - Ele sorriu. - Tenho meu irmão mais velho. Mas ele não passa muito tempo em casa. Sabe, ele é do tipo mulherengo e costuma ficar na casa das mulheres dele fazendo...
-O-ok, já entendi. - Sorri amarelo. - Mas é muita irresponsabilidade da parte dele.
-Hm... Eu já disse isso pra ele. Mas ele não liga. E eu também não me incomodo mais. - Ele disse, indo para o outro cômodo.
-Mas você devia reclamar com ele. Por que não diz isso para os seus pais? Ligue para eles. - Eu o acompanhei.
Enquanto ele abria a porta da geladeira e passava os olhos por cima de tudo o que havia dentro dela, pude escutar um leve suspiro.
-Porque... eles não podem fazer nada. - E escutei ele pegar algo.
-E por que não? - Cruzei os braços, ficando um pouco atordoada. - Eles são seus pais. É obrigação deles.
Ele tinha um prato pronto ali. Fechou a geladeira com o pé, já pondo o prato no microondas.
-Porque... eles estão mortos, Trika.
Meu corpo gelou por um momento. Meu rosto, que já não era muito expressivo, ficou transparente. Nunca tinha me dado com uma situação daquela. O que eu deveria dizer?
-Oh, é... Eu sinto muito. - Eu abaixai os olhos, tentando evitar o olhar do rapaz.
-Não sinta. - Ele sorriu. - As vezes temos que encarar e aceitar as circunstâncias. E isso já foi a algum tempo.
Eu assenti, abaixando a cabeça de uma vez. Ficamos em silêncio por alguns minutos, até o microondas apitar, avisando que o prato já estava quente e pronto.
Ele me serviu na sala, até forrando a mesa e pondo guardanapos ao meu lado. Enquanto eu comia, ele ligou a TV, pondo em algum programa qualquer. Durante algum tempo, minha cabeça trabalhou distante da imagem da tela, indo e voltando no tempo, comparando situações, e repassando cenas. Até que escutei um ronco baixo no sofá. Olhei para Thiago, que dormiu apoiado no braço do mesmo.
Eu deixei um sorriso tomar conta de meus lábios. Thiago tinha o cabelo alto e crespo, de uma cor escura. Sua pele nem era tão clara, mas ele tinha olhos verdes, puxando para um amarelo. O que me chamou atenção.
"Tinha um garoto que eu via de vez em quando. Ele vivia trancado no quarto, por isso eu quase não o via. Ele adorava desenhar, e passava o dia fazendo isso. Não era muito de conversar, mas era simpático quando alguém vinha lhe puxar conversa. Mas não era com qualquer um que ele agia com sua doce candura. As poucas pessoas que conseguiam mantê-lo como amigo, ele as valorizava, sempre abrindo um certo sorriso. Ele tinha olhos bonitos. Ele era pequeno, que talvez se me visse agora, não iria me reconhecer. Mas agora, eu também, quase não lembro dele. Eu sei disso, porque essa garoto era irmão dele.
É só uma passagem na minha mente..."
Quando o programa recomeçou, Thiago abriu os olhos e eu me afastei de meus pensamentos, me levantando com o prato na mão.
-Obrigado, Thi. Eu vou para casa agora. - Abri um sorriso meio reto nos lábios.
Ele se encolheu no sofá em quanto eu ia para a cozinha e lavava a louça que acabara de usar. Mas quando eu voltei para a sala, fiquei surpresa em vê-lo com o rosto úmido.
-Ei... O que foi? - Me abaixei de frente a ele. - O que está acontecendo? Fiz algo errado? Eu posso, eu posso ir já indo e... - Quando fui voltar e me levantar, ele segurou meu braço.
-Trika.. - Escutei uma voz abafada. - Você pode cantar para que eu durma? E-eu sei que é bobagem, mas minha mãe fazia isso e, já que você está aqui, poderia fazer isso por mim?
Meu coração se apertou um pouco em vê-lo daquele jeito. É claro que eu faria.
Voltei a me abaixar, acariciando o cabelo do garoto.
-Mas é claro que faço.
Sendo assim, ele se deitou na cama do quarto acima. Haviam duas camas no quarto. Uma estava vazia e bem arrumada. Provavelmente, era do egoísta do irmão de Thiago. Fiquei com raiva daquela pessoa por fazer isso com aquele garoto.
Ele se deitou, e como um menino de dez anos, esperou com que eu me abaixasse ao seu lado, e desse início a melodia de ninar. Foi o que fiz. Ele fora tão gentil comigo, e eu, tão preocupada em me afastar dele, estava quase o despachando a algumas horas antes.
Comecei a cantarolar uma música conhecida enquanto eu acariciava os seus cabelos. Ele fechou os olhos, e como um anjo, dormiu.
"Nesta rua mora um anjo, que se chama solidão. Nesta rua mora um anjo, que roubou meu coração. Se roubei teu coração, é porque roubaste o meu também. Se roubei teu coração, é porque te quero bem. Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar, com pedras de brilhante, para o meu amor passar."
Com isso, ele adormeceu. Com um singelo, e também cansado sorriso, me despedi dele. Sai da casa e rumei a minha. Naquela noite, tive devaneios com mais frequência do que de costume. Meu passado naquele lugar passava e repassava em minha mente como um filme.
De algum jeito estranho, eu lembrava da voz e do rosto de Thiago. Eu só não lembrava da onde.
Meu estômago revirou com a comida. Agora eu estava enjoada. Tentei dormir. E no meu sonho, me encontrei com ele. Que eu já não via a quatro anos. Que saudade...

Minha mão quase arremessou o celular na parede quando ele tocou. Mas minha gota de instinto responsável evitou o acidente desnecessário. Sem vontade, atendi ao telefone enquanto tentava tirar o cabelo da frente do rosto.
-Quem me acordou...? - Minha voz saiu fanhosa.
-Katrina? Te acordei? Desculpa... Queria ligar para ver se chegou bem aí.
Meu coração bombeou o sangue um pouco mais forte dentro do peito. Tanto, que quando fui me levantar, meu corpo se esqueceu da falta de espaço do sofá e caí no chão, fazendo o trabalho que as minhas mãos tiveram de tirar o cabelo da frente da minha face, ter de recomeçar.
-Ruíz?! Ah, m-me desculpa, eu... Eu cheguei ontem a noite! Estou ótima, obrigada! Me desculpe não ter ligado...
-Sem problemas, amorzinho
Falando a verdade, eu não não gostava quando Ruíz me chamava de amorzinho, ou algum diminutivo do tipo. Apesar dele ser meu namorado à pouco menos de seis meses, eu ainda não tinha me acostumado com a ideia de um novo namorado.
-Tudo bem. E o que você está fazendo? - Me levantei de pé, buscando uma posição confiante.
-Estou com problemas aqui...
-Problemas? - Grudei o ouvido no telefone ainda mais, o achatando um pouco.
-Sim. Acho que não irei poder ir te ver na segunda feira. Me desculpe, amorzinho.
Eu apenas não entendi porque meu cérebro não me fez me sentir triste, ou meio largada. No mínimo, um pouco abandonada. Mas, na verdade, eu não senti nada. Como um alarme de incêndio que não toca quando percebe-se fumaça.
-Ah... Eu entendo. - Revirei os olhos. - Você... tem seu emprego, e seus estudos, eu entendo perfeitamente.
-Vai ficar triste? - Ironicamente, a voz dele me pareceu um pouco falsa. - Se quiser, eu faço um esforço para ir aí amanhã.
Meu coração voltou a pulsar normalmente quando escutei aquilo. Então, ele estava preocupado comigo. Que bom... Ruíz era mesmo um cavalheiro. Como eu poderia duvidar dele? Resolvi ser compreensiva. Talvez eu estivesse o interpretando mal.
-Não, Ruíz. Obrigado. Vou ficar bem. - Pareci um pouco mais feliz, de repente. - Mas não trabalhe de mais, se não quando eu for te ver você não vai nem me enxergar muito bem, hm?
-Pode deixar. Até. Te adoro!
Como assim??
O telefone ficou mudo. Ele tinha desligado. Dei de ombros. Ele devia estar atrasado para o emprego de sábado. Então resolvi não me aborrecer com isso.
Joguei o celular no outro canto da sala, fazendo ele deslizar pelo piso. Estava calor... Meu corpo estava suando. Resolvi tomar um banho e trocar de roupa.
A casa tinha poucos móveis, e alguns deles eram da época em que eu morava naquele lugar. Isso só piorava meus devaneios. Eu tinha uma história naquele lugar. Com raízes muito profundas, para se deixar de lado.

Girei a chave, suspirando. Hoje eu iria procurar saber aonde era o meu novo local de estudo. Mas eu estava um pouco deprimida para isso.
Suspirei de novo.
Enquanto eu enfiava a chave no bolso, vi a porta do outro lado da rua se abrir. Eu já ia acenando, contente em ver Thiago naquela hora. De alguma forma, ele fazia meus pensamentos pesados saírem da minha cabeça, me deixando leve.
Mas não foi Thiago quem eu vi.
Minha respiração começou a acelerar. Senti meu cérebro perdendo contanto com o resto do corpo, sem oxigênio. Meus olhos arregalados procuravam tentar enxergar aquela pessoa de forma errada, tentando aliviar a tensão que se formava em mim.
Ele olhou para mim, sério, antes de continuar a andar.
Eu desviei a cabeça um pouco violenta de mais. Tremi um pouco, mas tornei a me mover para frente, agindo de forma normal.
-Ei. - Escutei.
Eu não virei a cabeça. Se fosse ele, eu não poderia encara-lo de novo sem chorar.
Levantei a cabeça quando uma mão tocou meu ombro. E de resto, foi como se meu corpo estivesse no modo automático, porque eu tinha perdido o controle.
-Ei, garota. Tá tudo bem?
Quando consegui enxergar o rosto daquela pessoa, meu coração, minha mente, minha pele... Tudo estava reagindo ao contato. E de repente, tudo parou. Fiquei inexpressiva, e com a voz um pouco baixa.
Que idiota.
-Hãm, está tudo bem. - Respondi.
Meus olhos se incomodavam com o brilho do reflexo do sol que batia no pircing dele. Saía da orelha direita e  prendia no lábio inferior. Contando com o que ele tinha ao lado do olho esquerdo, e os que ocupavam as orelhas.
Em um segundo, eu tinha conseguido avalia-lo como um scanner: os olhos castanhos escuro, o cabelo negro e liso, com uma franja espetada para baixo que me lembrava um ouriço, e ele também era ridiculamente alto.
-Ah, sendo assim... Estou indo. - Ele sorriu rapidamente. - Bom te ver.
Será que eu não estava tendo algum tipo de crise? Retardada como sou, bem capaz. Mas ele não era tão alto, e não usava pircings. A pele era clara como a dele, mas o cabelo estava diferente.
O que que eu estava dizendo? Para eu agir daquela forma, só podia ser o próprio.
-Mas por que você não lembra de mim? - Deixei escapar sem querer aquele pensamento monótono, mas foi só um sussurro.
Tentei disfarçar, sorrindo, olhando para o lado, não conseguindo encara-lo.
-Bom, então, nos vemos. Até. - Minha voz saiu seca, e, apesar de ter dito aquilo, meus pés não se moveram mais que meio passo.
Mas depois eu entendi porque: meu braço estava preso, sendo segurado por uma mão.
-Você tinha dito alguma coisa? - Escutei a voz grossa, mas tão linda, continuar a me prender naquela situação.
-Não. - Respondi, sem virar a cabeça. - Estou com pressa. Por favor, me deixe ir logo.
-Você está pálida. - Ele continuou.
-Está tudo bem. Eu não como muito, então essa é minha cor normal. Não existe problema. Me deixe ir. - Minha voz saía mecânicamente, como se eu fosse um robô.
-Tanto faz. - Senti ele suspirar, e seus passos continuaram a caminhar para longe de mim.
E, sem querer, ou quem sabe propositalmente, deixei escapar um comentário:
-Me desculpa, Vic.
Estupidamente, uma lágrima riscou meu rosto. Queimou.
Mas aquilo fez os passos pararem de se afastar. Meu coração agradeceu, mas meus pés começar a funcionar, e eu saí andando cedo de mais.
Ou quem sabe, pode ser tarde de mais mesmo.

No resto do dia, eu resolvi me torturar não comendo nada do café ao jantar. Ficar com fome, me deixava contente. Como se eu estivesse pagando por um castigo. Feridas comuns, com o tempo, cicatrizam. Feridas que nós mesmos fizemos. Mas todas deixam marcas e cicatrizes. Acho que isso acontece, para que lembremos da idiotice feita por nós mesmos.
No fim, acabei achando o prédio do intensivo. Mas eu só passei pelo portão. Entrar ali não iria me fazer um bem tão maior. Resolvi ir até um gramado que descia para um córrego. Me deitei ali. Dizem que o barulho da água acalma as pessoas. Talvez tenha funcionado. Porque eu acabei dormindo. E o que me acordou, foi o barulho do celular, como sempre.
-Sim...? - Minha voz fanhosa dava a parecer que eu estava chorando.
-Amorzinho, eu não sei quando irei poder ir aí, realmente. Vou estar trabalhando muito.
-Ruíz? Ah, tá tudo bem. O que está acontecendo?
-Nada de mais. Mas eu só liguei para te falar isso. Preciso desligar.
-Tudo bem.
-Sua voz está um pouco estranha. Você está bem?
-Sim.
-Ótimo. Até...
Eu queria ver Ruíz. Ele iria me fazer esquecer de todos aqueles pensamentos horríveis que me consumiam.
Um clarão tomou conta de tudo por um segundo. E depois, o céu fez um barulho macabro.
Voltando para a calçada, não fiz esforço em escapar da chuva. Quando ela começou, fraca, me senti bem. Mas depois se transformou em um temporal.
Não havia ninguém na rua, e eu ainda estava a oito quadras de casa. Não passava nenhum táxi ali, e pedir naquele temporal era besteira. Eu teria que ficar esperando na chuva do mesmo modo.
Porque está me perguntando isso, boba? Meu cérebro recomeçou a passar algumas coisas na hora errada. Desnorteada, eu consegui chegar a um banco da praça. Meus pés se sujaram de lama enquanto eu caminhava pelo chão molhado até o pequeno banco.
Deixei meu corpo aliviar o peso, praticamente o jogando sobre o banco.
Eu estava tremendo, com frio, com fome, e fraca demais para comandar meus pensamentos.
Eu nunca vou te esquecer.
-Mentiroso. - Choraminguei, enquanto me encolhia atrás dos meus joelhos.
De dentro da roupa, alcancei os fones de ouvido. Música era uma boa opção para se desligar do mundo. Mas as vezes nossa mente fala mais alto que vozes artificiais que saem de dois fones. Mesmo assim, eu precisava me manter ocupada.
Enquanto a melodia melosa tocava meus ouvidos, eu deixei meus olhos relaxarem, chorando.
"Eu tinha conhecido Ruíz a pouco tempo, no final do terceiro colegial, a mais o menos um ano e meio. O ruivo tinha me conquistado com um beijo ousado. Me disso coisas que eu queria ouvir... Mas as vezes eu me pegava pensando que aquilo tudo era uma armadilha. Mas não importava como, eu queria me livrar da dor que eu causei para a pessoa que eu jurei ficar para a eternidade. Como todo casal apaixonado, ninguém pensou em conseqüências. Que seja pra sempre, enquanto durar. Aquela pessoa me dizia isso antes de deixa-la.
Todos os seres-humanos são egoístas e idiotas. Não importa quem seja."
Minha pele estava gelada.
É errado chorar por algo errado que você fez? Quando somos crianças, não temos medo de chorar. E as vezes, agente chora até sem motivo. Nesse momento, eu não ligo de parecer uma criança.
Por favor, alguém me salve de mim mesma?
Algo quente tocou em mim. Um lado do meu corpo estava sendo rasuávelmente protegido do frio. Não levantei a cabeça. Seja quem fosse, não importava. Dês que continuasse ali, transmitindo calor.
A chuva caía, ignorando o meu desespero. Não é problema do tempo agir de acordo com as emoções dos seres-humanos. Podemos estar magoados, ou contentes, que vai nascer um dia de sol radiante, ou uma monótona tempestade qualquer.
Levantei um pouco a cabeça, olhando para ele. A corrente do pircing aglomerava água, e fazia uma goteira constante. Ele não olhava para mim. Fique feliz por isso. Eu abaixei o olhar para frente, mesmo não tendo vontade de enxergar.
A música que tocava em meus ouvidos, seguiu um rítimo de music box. Foi meio irônico.
Deixei meus joelhos relaxarem, e sentei normalmente sobre o banco. Ainda mantive meu rosto escondido.
-Victório... - Sussurrei. - M... me desculpa.
Escutei um riso baixo, e abafado. Foi bom escutar aquilo.
Eu não consegui nem pensar. Foi muito rápido. Ele passou a mão por detrás da minha nuca, e com a outra segurou meu rosto. Seus olhos estavam molhados, mas não era da água da chuva. Senti seus lábios quentes tocando os meus. Meus olhos se fecharam, e meu coração pulsou o sangue para todo numa velocidade eletrizante. Aquela era a velha sensação que eu sentia. Era bom tê-la de volta.
Ele afastou um pouco a boca da minha, deixando a ponta do nariz grudada no meu. Talvez ele estivesse com os olhos abertos, mas eu não quis olhar.
-Eu não prometi que nunca iria esquecê-la?
As palavras saíram como uma bomba atômica, que atingiu meu ponto nervoso, e fez meu corpo tremer um pouco.
Com um pouco de medo, e insegura, eu fiz meus lábios tocarem os dele novamente. Agora ele me prendeu entre os palmos, e senti nossos lábios se massageando um no outro em sintonia. Era tão perfeito, tão real, que parecia um sonho. Eu temia que aquilo nunca mais acontecesse. Mas era real.
Meu rosto ficou cheio de lágrimas quentes.
Sentir o pircing dele não era nada de mais. Não parecia machucar. E se estivesse, gostaria que rasgasse minha boca, mas eu não iria deixar nossas bocas se afastarem.
Não iria...
Será que eu morri e fui para o paraíso? Acho que eu não iria para o paraíso, mas, quem sabe...

Acordei com a respiração ofegante. Meus olhos percorreram o quarto em busca de uma explicação. A cama era pequena de mais para eu me arrastar sobre ela, e meu corpo tombou para o chão, fazendo barulho.
Doeu um pouco, mas eu ignorei a dor.
-Trika? - Escutei uma voz.
Me virei, assustada de mais. Foi um pouco idiota aquela reação.
-Thiago?
Eu franzi a testa. Não estava entendo. Eu perdi algo?
-O... o que que eu estou fazendo aqui? - Me encolhi, perguntando a mim mesma.
Thiago sorriu, se sentando sobre a cama ao lado, onde tinha uma bandeja com um prato de comida, e um copo de suco, que eu não tinha notado até então.
-Victório te trouxe para cá. - Ele também franziu a testa. - Trika... Você era aquela garota que era namorada do meu irmão? - Ele perguntou, um pouco sério.
Minha cabeça estava rodando com tudo. Demorou um pouco para eu conseguir responder. Olhei para o rosto confuso que Thiago estava fazendo, e voltei a repensar sobre tudo.
-Acho que sim. - Sussurrei, confusa. - Espere?! - Voltei a olhar rapidamente para Thiago. - Você era o garoto que ficava trancado no quarto nessa casa?!
Depois de um tempo, ele abriu um sorriso.
-Acho que sim. - Ele riu. - Eu morava aqui com a mamãe. Mas... - Ele tombou a cabeça. - Depois que papai e mamãe brigaram feio dentro de um carro, aconteceu o acidente. E Victório veio morar comigo, já que sou menor de idade, então...
Eu tremi. Estava quase na cara, era óbvio! Mas para uma pessoa como eu, aquilo chegava a ser normal, não conseguir ligar as coisas. Eu era lenta de mais... Que pessoa ridícula.
Eu ri de mim mesma por um segundo.
-Onde ele está agora? - Perguntei, um pouco séria de novo. - E o que aconteceu comigo? - Me levantei, me sentando sobre a cama, em frente a Thiago.
-Ele foi trabalhar. Hoje é segunda-feira, por isso.
-Segunda-feira?! - Eu ri, em choque. Acho que o assustei um pouco. - Eu dormi por quanto tempo?!
-Você desmaiou, Trika. - Ele franziu a testa. - Vic disse que devia ter acontecido por falta de energia. Então eu fiz esse prato para você. Se quiser um café da manhã, eu posso refazer, não tem problema. Assim agente come mais tarde. - Ele sorriu.
Thiago era tão gentil... Ele se parecia mesmo com o Victório na época em que éramos colegiais.
Colegiais... "mulheres"? Como assim?
-Ei, Thiago! Lembra que me disse que seu irmão dormia na casa das mulheres dele? Como assim? - Fiz um bico, curiosa.
-Ah. Sobre isso? - Ele deu de ombros. - Na verdade, Vic trabalha como empregado de vez em quando. E as vezes, as patroas vão viajar e deixam ele cuidando da casa. - Ele se sacudiu, fingindo ser uma criança mimada. - Mas está errado! Ele tem acesso a tudo na casa delas! Ele é muito egoísta! Eu tenho que ficar assistindo TV comum enquanto ele pode virar a noite vendo os filmes que quer...!
Eu ri, revirando os olhos.
-Você não me explicou essa história muito bem antes. Achei que era outra coisa. - Dei de ombros.
-O quê?
-Nada não... Que horas ele vai voltar?
-No fim da tarde. - Ele ficou um pouco sério, enquanto me passava o prato. - Trika, você vai voltar com meu irmão?
Aquilo me atingiu como uma flecha. Eu não sabia. Eu tinha o Ruíz. Que apesar de estar longe, era por causa das responsabilidades de estudo e trabalho. Eu não poderia simplesmente dar um fora nele por telefone.
-Eu não sei... Não sei se Vic ainda sente algo como antigamente... - Eu sorri um pouco distraída, pensando no rosto dele.
Tão lindo... Que saudade.
-Drika! Vic passou os últimos quatro anos amargurado! Ele precisa de você de volta! Logo depois que você foi embora, papai e mamãe morreram e ele virou a pessoa mais deprimida do mundo! E agora, quando ele voltou com você para cá ontem a noite, ele estava tão feliz! Por favor, não o deixe de novo, Drika! - Ele caiu de joelhos a minha frente, me fazendo pular um pouco com a ação repentina. - É isso! Vem morar com agente! Vende a casa da frente, e vem para cá!
Thiago era tão inocente e bobinho que dava vontade de fazer o que ele mandava, fácil assim. Mas eu ainda tinha Ruíz. E apesar de amar mais do que tudo ao Vic, e ter ele de volta, eu também amava Ruíz.
O que eu faço?
-Eu preciso pensar sobre tudo, Thi. Sabe... Eu fui embora por causa dos meus pais. Não queria contar ao Vic, porque ele iria pirar se soubesse. Então, deixei em branco, para que ele apenas me esquecesse, mesmo fazendo ele prometer que lembraria de mim. Eu também achei que pudesse esquece-lo, então eu arranjei um namorado na outra cidade, apesar de que isso foi a menos de um ano. Mesmo assim - Meus olhos tremeram, e minha expressão me fugiu. - Eu não esqueci o Victório. Só desejei ainda mais voltar para ele.
-Você tem um namorado?
Assenti com a cabeça.
-Eu não posso me desfazer dele assim de repente. Eu amo o Ruíz. Mas também amo o Vic, mais do que tudo.
-E o que você vai fazer? - Ele me perguntou em um sussurro.
Suspirei, esmagando a cenoura no prato com o garfo. Abri um leve sorriso. Eu tinha acabo de voltar para a pequena cidade, e já estava em uma situação assim.
Mas não havia nada que eu pudesse fazer.
Não sei se aquele beijo foi apenas por impulso, ou se ele realmente queria que ele acontecesse. E seria muita grosseria recomeçar da onde paramos depois de tanto tempo, e de forma tão rápida.
-Katrina?
-Hm?
-Ele está doente.
Aquilo foi uma facada fria no pescoço. Doeu escutar. Será que eu entendi bem?
-Doente? - Tentei parecer bem.
-Ele anda fumando muito, e excessivamente. As vezes, vejo que ele fica com dificuldade de respirar, e começa tossir. Uma vez mandaram ele vir para casa do trabalho por causa disso. A temperatura estava alta, e ele estava ficando sem ar, asfixiado. - Ele olhou para um canto do quarto, mas depois voltou a me encarar. - Pesquisei sobre isso, e pode ser que Vic tenha problemas cardíacos, ou mesmo pulmonares. Mas ele fuma para aliviar a tensão, Drika. Já está assim a dois anos. E se ele não parar... eu não sei o que vai acontecer.
Minha mão tinha gelado. Victório doente?

Depois disso, eu acabei por comer todo o prato, e fiquei para ajudar Thiago na limpeza, e na preparação do jantar. Quando anoiteceu, não achei bom Vic voltar e me ver ali. Então deixei a mesa pronta enquanto Thiago tinha dormido no sofá, e já estava saindo.
Antes de sair, dei uma última olhada em Thiago, apaguei a TV, e me dirigi para a porta.
Antes que eu alcançasse a maçaneta, a porta já estava aberta.
-Ah, já chegou?! Eu já estou de saída. - Eu passei ao lado dele, para fora. - Seu jantar está na mesa, e se estiver frio, é só esquentar. Obrigado por tudo.
-Katrina. - Escutei ele me chamar, virado para o lado de dentro.
Virei a cabeça por cima do ombro.
-Hm?
-Fica.
-Estou indo para casa.
Meus pés queriam andar para frente, mas dois braços me impediram. Meu corpo foi puxado para o meio de dois braços, batendo em um corpo alto. Ele foi rápido o suficiente para por todo meu cabelo de lado, e encostar os lábios quentes em minha nuca.
-Por favor. Não ligo quanto tempo esteve fora, e não ligo de tê-la de volta agora. Eu te quero, Katrina. - Ele dizia cada palavra entre beijos, e em um tom de súplica. - Por favor..., por favor...
-Não posso. - Tentei fugir, forçando meu corpo para frente. - Não agora.
Senti os braços de Vic me envolverem por completo, e seu rosto cair sobre meu ombro.
-Não vou te deixar ir embora. - Ele sussurrou no meu ouvido.
Por ele, facilmente eu seria levada. Mas eu tinha que resistir.
Vic estava fazendo como antigamente, ficando carinhoso como um menino pidão... Assim seria muito fácil para que eu fizesse do jeito dele.
Mas por mais que eu quisesse, eu não podia.
Senti meus pés sendo arrastados para trás, voltando para dentro da casa.
-Victório... Eu não posso.
-Pode. - Ele sussurrou.
-Me solta...
-Não quero. - E me apertou com mais força, massageando minha barriga por debaixo da blusa.
Se continuasse... Eu não podia deixar continuar. Por mais que eu quisesse.
Eu fiz meu corpo escorregar pelos seus braços, e me soltei, me virando para ele.
-Vic, é sério! Eu não posso fazer isso dessa forma! Está errado!
Ele segurou minha mão, me puxando para ele de novo.
-Dane-se o errado. Eu fiquei tanto tempo longe de você... Agora que posso toca-la novamente, eu não posso te deixar fugir de mim de novo!
-Fugir?! - Cruzei os braços, irritada.
Depois disso, me virei de costas, correndo em direção a porta de casa, o deixando sentado no chão. Eu queria ficar com ele. Mas aquela não era a noite certa.
-Desculpa... - Sussurrei.

O que eu poderia fazer? Eu não podia sumir de novo, voltando para debaixo das asas dos meus pais. Primeiro porque eu tinha quase que implorado para vir morar sozinha. Segundo, que eu não iria deixar Vic entender que eu estava "fugindo" dele.
Mas sentir os lábios dele nos meus era tão bom... O toque dele na minha pele era tão bom...
Então, enquanto eu passava os meus dias tendo que ir para o intensivo, saindo logo cedo, eu sempre saía exatamente na hora em que ele saía. Mas eu tentava evitar o olhar dele. Ele iria ver que eu estava chateada em ter de ficar longe, e provavelmente iria vir tentar me abraçar novamente. E eu não iria estar pronta para conseguir escapar uma próxima vez.
Naquele dia, era sábado. O dia mais calmo da semana. Eu podia ir comprar alguma coisa na loja de conveniência, meu lugar favorito em toda a cidade. Adorava tomar café ali.
-Bom dia! Gostaria de um copo quente, como sempre! - Gritei animada para o já conhecido operário dali.
-Trika? - Escutei ao meu lado.
Olhei, sorrindo radiante, com a imagem do copo de café em mente.

-Sim? 
-Coincidência te encontrar aqui! - Thiago me abraçou com força.
Só depois disso que notei que era ele.
-Thi?! Oi! Quanto tempo, é. - Sorri.
-Isso é porque - Ele arqueou uma sobrancelha. - Você e o Vic não estão se falando.
Revirei os olhos.
-Não é isso. Toda vez que vou falar com ele, ele dá um jeito de me deixar boba e começa com aqueles carinhos. Eu não consigo encara-lo desse jeito. - Suspirei, vendo o rapaz preparar o café.
-Mas é porque ele te quer de volta, Drika.
-Eu sei! - Mostrei a língua, puxando o olho, brincando.
-Boba. - Ele sorriu. - Vic parece estar diferente com esse visual, e aquele monte de ferro na cara. - Ele revirou os olhos. - Mas ele depende muito de você, agora que ele teve a chance de te rever. Porque não vai conversar com ele de novo?
-Porque eu já tenho namorado, Thi! Victório vai ficar de brincadeira comigo, e eu não quero. - Fingi ser uma criança mimada.
-Para de se contrariar. E onde está esse cara que você diz ser seu namorado?
Quando ouvi o barulho do copo de café batendo a minha frente, não fiquei com pressa de olha-lo. Meu cérebro começou a trabalhar sozinho de novo. Ruíz estava longe, mas era porque ele tinha que estudar. Não porque ele não queria. Né?
-Ele está ocupado. - Levei o copo de café a boca.
Enquanto o vapor do café deixava meu queixo úmido, nós ficamos em silêncio. Dei de ombros, bebendo mais um gole, e voltei a olhar para Thiago, sorrindo.
-Mas como Victório está? - Forcei um sorriso.
Era estranho, porque eu realmente queria sorrir.
Thiago levantou a cabeça com um singelo sorriso de lábios fechados, e apoiou a cabeça sobre as mãos, com os cotovelos sobre o balcão.
-Eu não consigo fazê-lo parar de fumar, droga... - Ele suspirou. - Acho que ele está tentando se vingar da mamãe e do papai, ou algo do tipo.
Eu o observei por algum tempo e tombei a cabeça para frente, tentando encontrar seu rosto.
-Não acho que o Victório seria capaz de fazer isso. Na época em que estávamos juntos, ele sempre fazia de tudo para tornar as coisas mais comuns do dia a dia especiais. Ele não é esse tipo de pessoa que guarda rancores ou mágoas, e tira a própria vida por isso. - Me aquetei por um momento, pensando no que tinha acabado de dizer. - O Victório que eu conhecia era assim. - Também apoiei a cabeça sobre uma mão, suspirando. - Já esse cheio de pircings e correntes que conheci semana passada, não tenho tanta certeza se é a mesma pessoa.
-Mas, sabe - Notei a voz de Thiago um pouco mais serena. - Um tempo depois do acidente ele disse que todas as pessoas que ele mais preza, estão fugindo dele, de alguma forma. Disse que se isso fosse uma condenação, ele não faria esforços para sair dela. - Ele riu sem vontade por um segundo. - Pode ser que ele esteja apenas entediado. Mas se ele fizer isso... Eu não tenho mais ninguém com quem ficar até conseguir ser maior de idade. Provavelmente eu seria encaminhado para um lugar longe daqui.
-Pare com isso! - Eu bati o copo na mesa. - Victório não vai morrer! Se ele fizer uma idiotisse dessas, juro que eu mesma me mato para manda-lo direto para o inferno, saco! - Revirei os olhos, suspirando. - Desculpa, Thi. Hunf... Vou falar com ele, está bem?
-Sério?! - Ele sorriu, com os olhos brilhando.
-Não fique tão animado com isso. Apenas vou convencê-lo ainda mais de que ele é um idiota. - Arqueei uma sobrancelha, cruzando os braços. - Não tenho a mínima intenção de ficar para o jantar, ouviu?
-Só te ter lá em casa já vai estar ótimo, Trika! - Ele parecia uma criança ansiosa, me fazendo rir. - Porque, sabe, a casa fica sombria quando estou sozinho. É deprimente!
Eu ri da careta emburrada de Thi.
-É... Pode ser. - Revirei os olhos. - Mas agora eu preciso ir. Tenho que estudar, então... Qualquer coisa, estou na biblioteca. - Suspirei, rindo. - Se bem que qualquer lugar daqui já está bom para estudar. É tudo dão silêncioso e parado...
-E você quer o que para o jantar?? 
-Já disse que não irei ficar par o jantar, bobão!
E rimos juntos.

Do livro a minha frente, constantemente eu tirava os olhos para verificar a hora. Na verdade, eu estava ansiosa para rever aquela pessoa. Eu podia mentir para todo mundo, mas de mim mesma, eu não conseguia esconder que ainda era apaixonada por ele. Só de pensar em seu rosto, meu coração vibrava, e me fazia cócegas.
Eu devia me sentir incomodada com aquele estilo meio punk, ou algo algo do gênero. Mas aquela corrente que ligava seu ouvido direito ao seus lábios quentes, só me deixava mais excitada em encara-lo.
Mordi meus lábios, sacudindo a cabeça.
-No que estou pensando?! Que idiota! - Sussurrei para mim mesma.
"Além disso, ele está ainda mais alto... Que droga, Victório! Por que ficou tão bonito e sensual?! Saco... Quer me enfeitiçar? Me levar para o mal caminho?! Apesar de que dá certo... É. Vou calar a boca." E revirei meus olhos em meio aos meus pensamentos.
O barulho irritante do carimbo da bibliotecária fez com que eu me desfizesse de meus pensamentos. Agradeci.
Mas meus olhos trêmulos não enxergavam as linhas do livro de forma coerente. Parecia um monte de palavras sem sentido. E em cada oração, eu enxergava minha consciência falando comigo.
Dane-se. Eu olhei de novo para os ponteiros do relógio, já suando, e recolhi meu material, me levantando.
Andando quase que correndo pela calçada, algumas vezes eu via postes e faróis girarem. Andar em linha reta, por algum tempo, estava me asfixiando. Meu coração estava a mil, e eu não conseguia pensar claramente. As coisas dançavam a minha volta, e algumas brincavam com minha visão, ficando embaçadas, e mudando de forma.
Meus pés pararam de se mover. Minha respiração estava um pouco acelerada, e tive que ajeitar a gola da blusa para deixar meu pescoço relaxar. Minhas mãos tremiam um pouco, e eu sorri, satisfeita, pela minha falta de alimentação estar fazendo o efeito desejado.
Fazia algum tempo que eu tinha descoberto um tipo de "fuga" da realidade. Sei que quando fico sem comer por algum tempo, o meu corpo começa a se rejeitar, implorando por alimento, e começo a "falhar". Não é que eu seja masoquista, mas assim como um vício, quando fico nervosa, costuma fazê-lo. O grande problema, é que dessa vez esse "pane" me pegou de surpresa, porque eu só tinha tomado aquele café de manhã, e agora já estava anoitecendo. Eu não planejava ficar sem comer por tanto tempo, mas pela tensão, e minha cabeça rodando o dia todo pensando em várias coisas diferentes, talvez eu nem tenha notado.
Voltei a andar bem mais lenta que antes. Coloquei os fones nos ouvidos, tentando relaxar, e tentei seguir normalmente.
Mas talvez estivesse insuportável de mais para que eu continuasse. Meu corpo estava tremendo. Droga! Por que isso tinha que acontecer?
Comecei a derramar algumas lágrimas desesperadas. Se pelo menos eu estivesse perto de casa... Eu precisava tomar algo quente para não prolongar os maus efeitos da minha escapada.
-Ruíz... - Sussurrei.
Pensei em desligar a música, que parecia bem longe, dos fones para ligar para ele. Mas eu só iria interrompe-lo. Enfiei a mão no bolso, na esperança de encontrar minha carteira. O melhor seria pegar um táxi, por mais que demorasse. Pelo menos eu não teria que parecer uma deficiente até chegar em casa.
-Droga... - Sussurrei de novo, irritada.
Deixei a carteira na biblioteca. Droga, droga! Eu teria que voltar para pegar. Me virei para trás, ficando mais irritada a cada segundo. Quando vi pelos meus olhos embaçados, um enorme vulto parado um pouco além de mim. Apertei os olhos tentando enxerga-lo.
Rapidamente abaixei a cabeça, me virando de volta para a posição inicial.
-A quanto tempo está aí? - Tentei fazer com que minha voz saísse normalmente.
-Dês que vi que você parecia uma boneca quebrada andando poraí. Você está bem?
-Ótima. - Comecei a andar, o deixando para trás.
Mas não por muito tempo. Minhas mãos recomeçaram a tremer, e tive que escondê-las de baixo dos braços.
-Eu vou esperar um táxi. - E encostei no muro ao lado, ainda de cabeça baixa.
-Mas você não está sem a carteira?
-Como sabe disso...?! - Levantei um pouco a cabeça para olha-lo.
-Porque eu estou com ela. Fui a biblioteca perguntar se você tinha passado por lá, e me disseram que tinha saído e esquecido isso. - Ele levantou a carteira de pano amarela e engomada.
-Ah, obrigado.
Fui arriscar a tirar as mãos de debaixo dos braços, mas estavam trêmulas de mais para que ele não notasse, então fiz elas recuarem, me abaixando, encolhida.
-Katrina? - Escutei sua voz chegando perto. - Ei, você não está bem!
-É claro que estou bem! Devolva minha carteira, e vá embora por favor! - Gritei, com a cabeça encolhida.
Uma mão quente invadiu o meio dos braços, e puxou uma de minhas mãos para fora.
Não arrisquei a levantar a cabeça. Fiquei fechada até que surgisse uma ação diferente. Uma outra mão entrou por meio de meus cabelos, e tocou minha testa, que suava frio.
Eu fiquei imóvel. Não queria ver o rosto dele, e também meu corpo doía a cada movimento mínimo. Fiquei quieta, apenas esperando. Mas esperar só iria causar o inevitável.
De repente a frente do meu corpo começou a ficar quente, e senti braços passando por debaixo dos meus braços. Eu quis resmungar, protestando, só que a minha voz saiu tão baixa, que talvez não desse para ouvir.
-Quer se matar? - Escutei baixinho.
Meu coração vibrou um pouco ao escutar as palavras sussurrantes dele, mas logo quis me livrar do sentimento, tentando rebater.
-Eu estou apenas com um pouco de tontura! Eu sempre fui assim, você sabe! Saco, porque tenho que escutar isso de você? - As palavras saíram irritadas, mas eu não consegui fazer com que elas fizessem o efeito que eu desejava.
-Depois de tanto, ainda tenho que perder mais você? E de novo...? - A voz saía fanhosa, enquanto eu sentia seu queixo se movendo sobre minha cabeça enquanto falava.
Meu coração tremeu. Me sentia um pouco cativa, e esperava que ele estivesse apenas me provocando.
Mas isso mudou quando senti meu coro cabeludo umidecer.
Fechei a boca. A última coisa que eu precisava, era de Victório chorando. No fundo, ele era mesmo o Victório, não era? Quem sabe um pouco mais alto e... com um rosto mais robusto e, escondido atrás daqueles ferros. Victório ainda era a pessoa que eu mais amava. Na verdade, eu merecia morrer por ter a coragem de olhar a cara dele de novo. Eu o abandonei.
Tudo porque sou uma idiota covarde.
Por que as pessoas fazem de coisas tão simples, serem tão complicadas ao ponto de magoar umas as outras?
-Porque se você morrer, eu também morro. - Sussurrei.
Por algum tempo, ficamos em silêncio. Quando tive coragem de levantar a cabeça, olhando para o pescoço, ainda fino, dele. Era mesmo ele, afinal.
Por que raios eu fui duvidar?
Ah, é. Porque isso acontecia muitas vezes em sonhos.
-Que quer dizer? - Sua voz saiu abafada dessa vez.
Demorei um pouco para responder. Porque uma pequena célula de raiva foi se alastrando por mim de novo.
-Como assim?! Seu irmão diz que você fuma excessivamente! As vezes tosse sangue, e fica com falta de ar! Que diabos está tentando fazer?! Esse problema de alimentação já carrego a muito tempo, bem antes do... do que fiz. - Tremi ao me lembrar de novo da minha idiotisse. - Mas você quer deixar o Thiago na mão?! Eu sempre achei que você fosse o tipo de cara que não tivesse outro igual, pela sua confiança e segurança, e agora está querendo se matar por ficar amargurado com tudo o que aconteceu?! Eu sei que sou uma idiota retardada, mas você também é! - Cuspi as palavras, tremendo ainda por conta da minha fraqueza.
Ele demorou para responder. Perdi a paciência e olhei para seu rosto, agora mais rígido me encarando. Eu senti uma breve dor no pescoço, e gemi, abaixando a cabeça de novo.
-Você não me disse nada.
-Eu sei, droga! - Sussurrei, irritada com aquilo.
-Por que não me disse nada? - Sua voz foi se enrijecendo. - Eu iria entender! Mas me deixou aqui como um idiota, sem saber de nada! E depois meus pais também resolveram ir pra cova. Inferno... Todos resolveram ir embora de uma vez só! Como esperava que eu ficasse?! Primeiro que eu tinha acabado de fazer meus dezoito e tinha que ficar com Thiago porque ele estava pensando em se mandar também! Quantas vezes não tive que levar aquele retardado à um psicólogo?! Saco...
-Não chame ele assim! - Ergui a cabeça de novo. - Ele é um excelente menino! E está preocupado com você! Deve alguma coisa a ele, não é?!
-Por quê está tão nervosa comigo, se o único que devia estar irritado sou eu?!
-E por qual motivo? O que está difícil de entender?! Eu não devia nem olhar na sua cara pelo que fiz! E estou tentando me manter longe por isso, Victório! Que saco...!
-Tentando entender por quê raios eu não posso tê-la de volta!! - Ele gritou. - Dane-se o que você fez! Dane-se o mundo! - E ele parou, sem fôlego, voltando a encostar a testa no topo da minha cabeça.
E eu, fria, apenas não pude encara-lo de novo.
Nós dois estávamos tremendo, embora eu tivesse certeza de que ele tremia de nervoso, ou algo assim.
-Que as coisas fossem como eram antes. - Escutei ele sussurrar, sério. - Sinto muito por isso. Eu acho que não preciso de motivos, para explicar o porque da minha irritação de não poder ser feliz novamente.
Por baixo dos meus cabelos que escondiam o resto do rosto que não estava atrás dos joelhos, eu não fui forte para segurar o choro. Me sentia tão culpada... E não sabia o que dizer.
O que eu devo fazer? Me diga, afinal. O que é preciso para eu poder te proporcionar sua felicidade, que também seria a minha, sendo que agora dependo de outras pessoas?
-Victório... - Me afundei ainda mais no abismo entre meu corpo e meus joelhos. - Me desculpe.
Depois de um tempo, escutei ele suspirar. Até aquele momento, eu não tinha notado que ele carregava uma pequena sacola de mercado. Pra falar a verdade, só percebi porque ela estalou fazendo barulho, quando ele enfiou a mão dentro dela, me dando algo que cheirava bem.
-Abra. - Ordenou.
Senti a massa tocar meus lábios, e ele a forçava um pouco para dentro da minha boca.
-O que é? - Perguntei entre dentes.
-Só... abra a boca e faça o favor de engulir. Porque você está ridícula nesse estado, e além disso vai ficar doente.
Fiz algum esforço para enxergar o que era por entre os fios de cabelo, mas meus olhos estavam cheios de lágrimas, afogados.
Não teve jeito, acabei engulindo. E logo percebi que era um pedaço crocante de pão, que derreteu por demasiado sobre minha língua, não deixando eu sentir o gosto muito bem, apelando por mais.
-Vem. - Ele sussurrou em meu ouvido de propósito.
Eu não me debati, só queria que ele me guiasse...
Seus braços cercaram meu corpo dolorido, e com cuidado me apoiou em seu tronco alto. Mas eu estava tão desnorteada, que só pude sentir isso por um momento.

-Vic! O que pensa que está fazendo? O que aconteceu?! - Ouvi a voz de Thi já bem perto.
Isso me confortou.
Senti meu corpo se deixar cair com cuidado sobre o sofá. Victório tinha me posto sentada, e partido para a cozinha.
-Ei, a comida está feita? - Perguntou de lá.
Ouvi Thiago assentir, enquanto se sentava ao meu lado, segurando minha mão ridículamente pálida.
-Está quente também. Traga aqui. Ei, o que houve com a Trika? Ela está parecendo morta!
-Não se preocupe. Vou coloca-la de castigo por isso mais tarde. - Escutei Vic se aproximar, sendo sarcástico.
Uma mistura de vários cheiros invadiu minha mente. Meu corpo reagia, pedindo pela minha alimentação.
-Trika, você fez de novo! Você se tortura com isso! É masoquista?! Está parecendo uma cadáver! E já pensou se desmaiasse no meio da rua?? O que iria fazer se Vic não teria te visto de novo?! - Eu sorri enquanto escutei a bronca de Thi.
-É mesmo uma tortura, afinal, hm? - Murmurei, estranhamente um pouco mais feliz.
-Segure o prato pra mim, Thiago. - Victório pousou a mão esquerda sobre meu joelho, e com a outra carregava um garfo de comida. - Trika, vai comer agora.
Me irritei por um segundo, e fiz força para tomar o garfo dele.
-Eu sei levar a comida até minha boca. Pode deixar isso comigo. - Arqueei uma sobrancelha.
-E então?
Eu dei uma olhada feia para Victório, mas acabei suspirando, e achei melhor não ter a morte idiota por falta de alimentação. Seria mais bonito me jogar na frente de um trem, é.
-Satisfeito? - Falei de boca cheia, o provocando.
Mesmo assim, ainda estava um pouco irritada.
Ele me encarava sério, mas depois riu e sorriu, alisando a superfície da minha perna.
-Coma tudo. Vou te vigiar enquanto isso. - Era bom vê-lo sorrir.
-Ei, Victório, você não vai comer também? Cara, ficou fora o dia todo!
-Sim, e ainda vou sair para trabalhar. Então vou ficar por aqui até dar a hora de coloca-la na cama.
Eu parei o garfo no meio de caminho, escutando a condição ridícula. Revirei os olhos, e continuei a ação. E depois de engulir de novo, eu o esfaqueei com os olhos.
-Do que está falando? Eu já estou de saída. Já torrei muito o saco de vocês passando mal e tendo que jantar aqui por inconveniência.
-Da onde tirou isso? - Thiago riu. - Vai passar a noite aqui.
-Minha sombra vai passar a noite aqui. - Suspirei. - É sério. E ainda tenho que estudar...
-Passou o dia todo estudando. Fiquei umas quatro horas seguidas esperando você se mover. - Eu vi Vic revirar os olhos em quanto eu encarava Thi.
-Você estava me seguindo? - Franzi a testa.
-Na verdade, foi por acaso. Eu precisava ir a biblioteca devolver alguns livros da minha patroa e acabei te acompanhando. - Ele deu de ombros.
-Não se finja de inocente, seu bobão. Você podia muito bem devolver os livros e ir embora. - Enquanto eu fingia estar irritada de novo, Thi ria.
Era bom a sensação de que tudo estava bem de novo.
Mas quem dera aquele momento se estender eternamente.
Suspirei, e depois sorri.
-Obrigado. - Já estava de pé depois de ter levado o prato para cozinha. - Estou indo.
-Mas, Trika...! - Ouvi Thi choramingar.
-Eu não vou dormir aqui. - Franzi a testa, sorrindo de novo. - Amanhã nós nos vemos.
Dito isso, me virei de costas, acenando para os dois em direção a porta aberta. No meio do caminho, Vic me interrompeu:
-Ei, Katrina.
-Hm? - O fitei sobre o ombro.
-Estou a dois quarteirões a direita central da biblioteca. Quem sabe eu não passe mal e dou a sorte de te encontrar por perto? - Ele arqueou as sobrancelhas.
-Sabe que esse convite foi indiscriminadamente rude, não é? - Eu sorri sem vontade, mas depois relaxei, sorrindo realmente. - Eu vou pensar no seu caso.
-Pense com carinho. - Ele sorriu.
-Calado. - Revirei os olhos. - Boa noite pra vocês.
Enquanto eu entrava na sala da minha casa, mesmo com a porta fechada, eu podia escutar o tossido dele. Por um momento me asfixiou. 
E eu chorei de novo.
O que iria acontecer?

Tratei de acordar cedo, e sair para tomar um bom café da manhã. Depois que aliviei as coisas para meu estômago, e meu corpo, eu precisava me livrar dos peso inconveniente que tomava o pequeno espaço da minha mente. Durante o período de aulas, eu conseguia parar de pensar no problemas, talvez pequenos, que me rodiavam.
Na volta, me peguei pensando, em comia uma pequena barra de cerial que derretia na minha língua, no porquê da minha volta para aquele lugar. Eu não esperava encontrar aquela pessoa, mas não tinha deixado de pensar nela ao vir para cá. Foi burrice? Eu queria começar minha vida, da onde eu tinha saído. A capital era um lugar muito grande para alguém como eu. Aquela cidadezinha com a população de 800 pessoas era ótima. Perfeita. Escondida. Só minha.
Em quanto eu passava pela calçada, escutei ao meu lado um casal carinhoso passando ao sussurros. Achei agradável a cena. Mas ela me arrastou para o rosto de Victório. Eu queria tanto que as coisas voltassem a ser como eram antes...
Um barulho irritante fez todas as imagens se afogarem no mar de pensamentos novamente.
Atendi ao celular com um pouco de raiva.
-Sim?
-Amorzinho?
-Ruíz! - Mudei o tom de voz. - É você! Me desculpa... Achava que era outra pessoa.
-Outra pessoa? Estava aguardando alguém telefonar?
-Na verdade, não. Deixa. E aí? - Eu me encostei em uma mureta, em quanto passava ao lado de uma farmácia.
-Ah, tranquilo. Quero te ver, está bem? Assim que puder.
-S-sério?! - Eu corei um pouco. - Ah, mas deixe que eu vou até aí. Você deve estar ocupado...
-Não! Não. É sério. Eu vou até você, amorzinho. Sexta-feira está bem? Chego poraí de noite.
Ele me pareceu um pouco desesperado ao recusar a idéia de ir vê-lo. Mas dei de ombros, ignorando, e enroscando um fio de cabelo na ponta dos dedos.
-Está ótimo. Devo preparar algo?
-Você que sabe. - Ele riu malicioso.
-Tonto. - Eu ri também. - Então, nos vemos sexta.
-Sexta. Beijos, Katrinika.
-Beijos. Te amo.
-Também.
E depois disso, o barulho do celular mudo me deixou no vacuo.
Por algum tempo, meu coração pareceu uma pedra pesada no peito, batendo devagar, e pesado. Por que eu estava incomodada? Fiquei algum tempo olhando para a ponta dos pés, que pisavam uma na outra de vez em quando.
Talvez porque eu estivesse fazendo de algo simples de se resolver, um pesado terrível. Victório entendeu que não posso ficar com ele. E Ruíz mal sabe da existência de meu ex-relacionamento. Então por que raios eu estava incomodada? E isso ficava badalando na minha mente...
Dei de ombros, suspirando.
Demorei mais um pouco para desencostar da mureta, e continuei a andar.
-Hm... amanhã irá ter um festival? - Eu tentava focalizar Thi, que pulava de um lado e para outro na minha frente, em quanto eu procurava as chaves da porta.
-Sim! Ah, Trika, você irá, não é? Vai ter fogos de artifício e cantores...
Ele realmente parecia uma criança de dez anos. Revirei os olhos, rindo.
-Só vou se tiver máquina de fumaça. - Mostrei a língua, brincando. - Ah, achei.
Agora eu tentava chave por chave do molho na fechadura da porta.
-Mas irá ter, Trika! Música, luzes... Não é isso? Por favor...! Vai?
-Por que tenho que ir? - Arqueei uma sobrancelha, já com a mão na maçaneta.
-Porque, sim! Por favor...
Eu suspirei, revirando os olhos. Me encostei na porta, e coloquei as mãos na cintura, o encarando.
-Seu irmão não quer te levar, e só pode entrar acompanhado de um maior, não é? - Eu sorri maliciosa.
Ele ficou sério por algum tempo, e depois virou a cabeça para o lado, talvez disfarçando a cara medrosa que fez.
-Não é isso, pô.
-Por que ele não te leva? - Me virei para a porta de novo, suspirando, e a abrindo. - Amanhã ele não deve trabalhar, já que é um feriado.
-Ele disse que quer ficar sozinho amanhã! - Choramingou na minha blusa. - Victório é muito chato! Ele é muito malvado!
-Pare de agir como criança, Thi - Arqueei uma sobrancelha. - E por que raios ele quer ficar sozinho em um dia de festival? Ele adora esse tipo de coisa, hunf.
Tentei entrar na sala, mas Thi se agarrou na minha cintura, e não consegui me mover.
-Porque amanhã é aniversário dele e é o dia que papai e mamãe morreram. - Ele falou baixo, em um falso choro. - Vic é muito preso nessas lembranças chatas do passado, e é um saco ter que sofrer com ele.
Eu tinha travado quando escutei as palavras "aniversário" e "morreram". Mas me recuperei logo, escapando da tensão com um suspiro longo.
-Okay, eu vou contigo. - Tentei tirar os braços de Thi da minha volta. - Mas você que irá ter que vir até aqui me avisar quando estiver indo, viu? Se não vier, não vou atrás, hum.
Depois disso ele saltou para trás, animado, batendo palmas.
-Certo!
-Boa noite, Thi. - Eu sorri, com a testa franzida e um pouco sombria de sono.
Logo fechei a porta e me tranquei no quarto. E de novo, minha mente caiu como uma pedra sobre mim, invadindo meus sonhos com os rostos de Ruíz e Victório. E mais uma vez, eu não dormi.
Já eram 5:22 da manhã quando me levantei. Não tinha aula, e nem trabalho. Mas como eu não conseguia me manter na cama, resolvi revisar toda a matéria, e decorar coisas que não iriam me constar. Depois fui ler algum livro, liguei a TV, mas nada me deixava menos inquieta. Eu queria estar diante de Victório, daquele de quatro anos atrás. Aquele que era mais sensível, menos frio... Não que eu não gostasse da personalidade que ele adquiriu por conta das eventualidades. Mas eu queria reajustar as coisas, e refazer aquilo que me parecia errado.
Em um dos cadernos, vi uma frase que me chamou atenção. A professora, com a intenção de fazer com que entendamos alguma coisa sobre filosofia, sempre colocava uma frase na lousa, e nos levava a refletir sobre ela. Naquele momento, era irônico para mim sentir algo em relação a uma daquelas frases. E a repassei lentamente dentro do meu cérebro desorganizado: "A maior punição dos seres-humanos, é o arrependimento." Franzi a testa, me achando idiota.
Enquanto a TV muda passava algum violento filme de ação, eu fazia inutilmente as unhas dos pés, as lixando, sentada no sofá.
Escutei um "toc, toc" surdo na porta. Isso me fez pular por um segundo, mas logo me pus de pé, e rumei a porta. O rosto ainda mais pálido com a luz da rua me encarava sem expressão. Na mão, ele segurava um cigarro, que me deixou sem ar por um momento. Eu achei estar enxergando mal a pessoa, mas apertei os olhos, e dei meio passo para trás, tensa.
-Victório? O que você...? Ei! - Minha voz sumiu.
Eu não consegui deixar meu corpo duro quando ele me envolveu, e me forçou a sentar no chão, encostando a testa em meu ombro. Escutei um fungar enquanto ele escondia a face. O cigarro tinha caído na calçada, e o vento o arrastava para longe. Estava tudo quieto. Eu não conseguia tira-lo de cima de mim querendo ou não. Não pela falta de força, mas por realmente não querer.
-O que aconteceu? - Sussurrei, ainda um pouco assustada.
Ele ficou em silêncio por algum tempo, quando lentamente começou a levantar a cabeça. Seus olhos molhados me encaravam com certa lástima. Eu não estava percebendo, mas tanto eu quanto ele, respirávamos fundo, e lentamente.
-Eu não aguento mais - Ele começou.
Eu cheguei o rosto mais perto, tentando escuta-lo claramente.
-Não... aguenta?
Mais uma pausa. Ele fechou as mãos em meus ombros, me segurando.
-Eu não aguento mais... te ter tão perto. - Ele sorriu infeliz, em meio ao sussurro arrastado.
Ele tossiu, e voltou a abaixar a cabeça.
Senti meu coração se rejeitar, e bater rapidamente, desesperado.
-Tão perto? - Também mantive minha voz baixa. - Você não me quer perto?
-Eu quero! - Ele tentou dizer enquanto tossia. - Eu quero você bem mais perto de mim. Mas esse "perto" a qual falo... - Ele tossiu de novo, parecendo asfixiar por um segundo.
As palavras que ele dizia me faziam querer apenas assisti-lo se afogar em seu ar. Mas eu não era fria o suficiente para ignorar. Eu tentei ergue-lo, tentando nos por de pé, mas ele me manteve firme ali no chão.
-Ei, você vai asfixiar! - Eu o alertei.
Mas ele ignorou, tossindo, e passando os dedos frios em minha bochecha, acariciando meu rosto, que lentamente também esfriava.
-Esse "perto" é longe de mais para que eu aguente. Então para o meu bem - Ele parou.
Seu rosto não me encarava, e eu não conseguia enxergar sua expressão. Mas aquele suspense me deixava tensa e nervosa, então tentei escapar.
-Para o seu bem também, vai embora, Katrina. Por favor.
A corrente que ligava sua boca à orelha brilhou, quando balançou durante a frase fria e a luz pálida a iluminou por menos de meio segundo.
-O quê? - Sussurrei desesperada.
Lentamente, ele foi se recolhendo sobre os joelhos. Meus olhos não podiam mais dizer se ele estava me encarando ou não, porque estavam encharcados de água. Eu prendia as lágrimas atrás de uma parede de raiva. Mas me afoguei na minha culpa consciente, e elas saíram desesperadas uma atrás da outra.
-Por que...? - Eu ainda sussurrei, mais para mim, do que para ele.
Mesmo assim, não houve resposta. E ele também nem se moveu. A tensão crescia e me fazia tremer. Assustada, fiz meu corpo se recolher e subir as escadas em busca da minha carteira. Trêmula, consegui alcança-la sob o travesseiro. Depois disso voltei a descer correndo, irritada. Eu não sei porque eu iria fazer o que estava prestes a fazer, mas por alguma razão, a culpa do que tinha feito alguns anos atrás foi jogada na minha cara, e estava entalada na minha garganta. Talvez isso tenha sido meu impulso. Ou só uma desculpa para fugir.
Quando voltei à sala, ele não estava mais ajoelhado na porta. Mas ela ainda estava aberta, fazendo um vento frio entrar. Sem pensar, atravessei a sala em direção a ela, querendo partir para o mais longe possível daquele lugar.
Não notei que ele estava encostado do lado de fora na parede, talvez com um reflexo brilhante nos olhos pouco úmidos, e na corrente que cintilava.
Eu corri até a estação de ônibus, onde peguei o primeiro de volta para a cidade grande. Enquanto eu corria para lá, senti meu coração pulando e sangrando, doendo e me torturando.  Não foi difícil andar quinze quarteirões até ela, uma vez que eu estava profundamente irritada com ambos, e meu cérebro mandava me esconder de algo que eu não conseguia saber se era ou não muito sensato. O vento congelante parecia cortar meu rosto conforme eu corria chorando, parecendo que minúsculas agulhas atravessavam meu rosto sem parar.
Queria muito ter sido atropelada. Juro que por um momento, eu não queria mais aquela vida.
Talvez eu estivesse exagerando.

Quando o sol iluminou meu rosto ainda choroso, eu vi os prédios da capital através do vidro embaçado. Senti uma bronca dos meus pais me aguardando. Eles tiveram tanto trabalho para me dar o que eu tanto queria, e eu estava jogando isso fora por causa de um cara.
Não. Não era só um cara.
Pensei em Ruíz. Sim, eu precisava vê-lo. A essa hora, provavelmente ele estaria dormindo. Mas ele não iria ligar se eu entrasse em seu apartamento. Afinal, um dia eu pensava em morar com ele. E ele também concordava. Pensar em Ruíz me fez sorrir.
Quando desci na estação, o cheiro da lanchonete que abria ali mesmo na parada do ônibus me deixou com fome. Mas eu queria me torturar novamente, então não liguei em passar reto ao lado dela.
Eu podia ter algum dinheiro na carteira, então chamei um táxi. Não perturbei meus pais, primeiro porque não estava afim de ouvir uma bronca de horas e horas. Segundo, que eles iriam ficar desapontados. Eu mesma estava. Como pude fazer uma estupidez dessa por causa de Victório?
A resposta para mim era simples e evidente. Hunf.
-Por favor, sou namorada de Ruíz Nicou. Tenho a chaves do apartamento 67, e tenho permissão para subir. Por favor? - Minha voz saiu arrastada quando falei ao porteiro alto e bigodudo na portaria do prédio.
Ele assentiu arrogante, abrindo a porta. E depois voltou a devorar algo que se parecia com um sanduíche melequento de pasta de amendoim. Ignorei.
No elevador, minhas mãos tremiam de nervoso. E logo eu começaria a passar mal pela falta de alimentação. E então eu estaria mais aliviada.
Diante da porta de verniz avermelhado, eu girei a chave lentamente. Por alguma razão, eu não sentia vontade integral de estar ali. Mas eu estava exausta, esgotada, e precisava do apoio de Ruíz naquele momento. Talvez ele me fizesse esquecer daquela dor idiota.
Arrastei meus pés pelo carpete e joguei a carteira engomada no sofá de couro brilhante. Procurei por Ruíz. Escutei alguns barulhos no quarto e resolvi deixa-lo em paz. Ele devia estar dormindo e eu não queria incomoda-lo. Ele iria trabalhar, em quanto eu não faria nada pelo resto do dia a não ser me lamentar e torturar.
Sendo assim, rumei para o banheiro da outra suite. Enquanto eu tirava as roupas diante do enorme espelho que cobria uma parede inteira, vi que minha pele estava pálida, e que em alguns lugares, marcada. Uma das muitas vezes que eu ficava mal, eu provavelmente tinha cambaleado e caído. Então não me preocupei de mais com aquilo.
A água do chuveiro fez todos os meus problemas sumirem. Mas só em quanto meu corpo se acostumava com a temperatura. Depois eu me sentei sobre as pernas, e minhas últimas horas repassaram em minha cabeça como um filme.E de novo, eu chorei.
Eu acabei pondo a mesma roupa de antes. Ali não tinha roupas minhas, então me conformei com o que tinha.  Em quanto secava o cabelo na cama, escutei o barulho do despertador do quarto dele tocar. Eu sorri.
Me levantei descalça, correndo para frente da outra porta do corredor pequeno e estreito. Eu empurrei com o dedo a madeira da porta, fazendo abrir uma pequena brecha. A luz iluminou os pés de Ruíz. Me sentir confortável quando o vi. Mas então...
Do outro lado da cama, o cobertor se mexeu. Outra pessoa se sentou na beirada da cama e desligou o irritante "bip".
-Amorzinho, acorda. - Ela disse em seu ouvido, no meu lugar.
Ou eu mesma que estava no lugar errado.
Eu vi ele se mexer um pouco, virando o rosto para cima. E então o que fechou e abriu meu completo pânico: ele a beijou na minha frente, um beijo longo e molhado, que desfez o pouco que restava de mim mesma.
-Ruíz... - Soltei baixinho.
O suficiente para que as duas pessoas me ouvissem, e notassem minha presença.
Rapidamente, ele se sentou sobre a cama, me olhando aterrorizado.
-Katrina?!! - Ele soltou um riso por um momento, constrangido. - Eu posso explicar!
Eu balancei a cabeça para os lados.
-Não quero mais... - Só fui o que eu consegui dizer.
Mas eu disse apenas para mim.
Meus pés não sentiam o pisar fundo no chão em quanto eu fugia de novo. Só que agora, eu estava perdida. Porque o ser-humano é tão cruel? Me lembro que corri por horas. Por horas e horas, sem rumo nenhum pela cidade. Me sentei em algum canto, cambaleei por uma praça... Me sentia drogada. Só percebi que tinham se passado horas quando o céu começou a escurecer.
Só que era tarde de mais para mim mesma. Eu estava sob efeito da minha tortura. Só que dessa vez, foi a gota d'água para meu corpo aguentar. E quando um relâmpago cortou o céu escuro, meus olhos de fecharam, e eu não consegui abri-los. Estavam pesados de mais. As lágrimas eram como pedras. Ardiam quando saíam dos meus olhos, e riscavam meu rosto como fogo, queimando.
Mas aí... alguém apareceu.

Meus olhos se abriram desnorteados. Dessa vez, admiti que fui longe de mais, quando me encontrei em um quarto de hospital. Olhei para fora, pela janela, e vi um dia cinzento e melancólico. Suspirei. Olhei para minhas mãos. Haviam agulhas enfiadas em meus pulsos, ligadas a algum tipo de soro. Eu sorri tristonha.
-Onde eu fui parar... - Sussurrei.
Quando a mão de algúem cortou o ar e acariciou meu rosto, senti meu sangue voltar a circular com mais intensidade.
Devagar, virei a cabeça, primeiro observando se aquela pessoa tinha uma corrente no lábio inferior. E para o meu desânimo intenso, não tinha. Era apenas um enfermeiro.
Franzi a testa.
-Ei, o que aconteceu? - Minha voz fazia parecer que eu estava realmente mal.
O homem um tanto baixo, de cabelos grisalhos, sorriu, e ajeitou meu braço.
-A senhorita desmaiou por falta de oxigênio, e vitaminas. Parece que alguém aqui não comeu o que a mamãe pois na mesa. - Ele brincou.
Revirei os olhos, fingindo rir também. Logo voltei com a expressão séria e doente de antes.
-Quem me trouxe aqui?
Ele sorriu e pegou a ficha sobre a mesa de cabeceira ali ao lado. Olhou para mim através dos óculos fundo de garrafa depois de alguns segundos examinando os vários papéis.
-A pessoa não deixou o nome. - Ele fez uma voz desanimada.
Eu fechei os olhos, achando completamente normal. Afinal, eu devia ter desmaiado no meio da rua. Alguém por bondade devia ter me trazido para cá e se mandado.
-Mas ele ainda está aqui, sentado na sala de espera. - Ele sorriu, talvez me consolando.
-Ele? - Revirei os olhos, mesmo com as pálpebras fechadas.
-Quer que eu o chame? É um rapaz alto e pálido. Ele parecia meio desesperado quando chegou com a senhorita.
Eu abri um olho, e logo fechei.
-Diga a Ruíz que nunca mais quero ver a cara nojenta dele. - Voltei a me irritar, cuspindo as palavras, lembrando do motivo de tudo aquilo. - E diga exatamente assim.
-Então direi que não quer vê-lo. Mas é uma pena. Ele chegou aqui machucado também. Aconteceu algo? - Ele ajeitava a máquina ali ao lado em quanto fingia estar interessado.
Meu sangue voltou a congelar. Deixei meus olhos se abrirem inexpressivos.
-Ei. Por acaso ele tinha uma corrente no rosto? - Perguntei baixinho.
Mas ele pode me ouvir, por assentiu com uma cara assustada.
-A senhorita o reconhece?
Eu fiquei presa em devaneios por alguns segundos, e depois sorri.
-Quando vou poder sair daqui?
-Daqui duas horas, senhorita. Ainda precisa se recuperar. Se quiser, posso manda-lo entrar e aguardar no sofá daqui da sala se for de sua preferência.
Eu sorri de novo.
-Por favor.
Só que eu não pude vê-lo. Porque o soro me deixou sonolenta, e acabei dormindo. Mas jurei sentir os lábios dele tocando os meus lentamente. Ou talvez tenha sido só um sonho.

Depois de tudo isso, quando finalmente pude sair da cama, eu não vi Victório ali. Talvez tenha sido um engano. E voltei a ficar deprimida e irritada. Ridícula. O hospital me forneceu algumas roupas e pude voltar para a rua tranquilamente. Os alertei que eu estaria bem se fosse para casa de meus pais. E já que o táxi foi por conta deles, eu não precisei me incomodar em voltar a casa do maldito traidor para buscar minha carteira.
Mas senti um vazio quando saí e ele não estava ali. Mas eu não devia nem estar mais pensando nisso, não é? Ele me mandou ir embora. E aquilo, afinal, foi por culpa minha.
Suspirei em quanto entrava no táxi. Dei uma última olhada no céu que se conservava cinzento quando bati a porta do carro. Não me dei ao trabalho de olhar na cara do taxista, por mais rude que isso fosse.
-Por favor, Rua...
-Para a Estação, por favor. - A voz grossa fez meus olhos se arregalarem.
Eu estava com um pouco de medo de olha-lo nos olhos. Medo de ser dispensada mais uma vez. Medo de levar mais uma indireta profunda.
Medo.
Mesmo assim, eu o olhei.
Seu olhar estava sereno, como a de um bom garoto inocente de quinze anos. Daquela época... Ele estendeu uma mão para mim, sorrindo de lábios fechados. Mas era um sorriso puro e honesto. Era o sorriso dele. O meu sorriso.
Me senti boba quando minha mão tocou a dele tremendo. Meu rosto quente e provavelmente corado, me deixava sem ar. E então, quando menos pude esperar, ou respirar muito bem, ele prendeu minha cabeça entre seu palmo quente e seus lábios mornos e macios.
Talvez ele tenha me pedido desculpas em algum momento, mas eu não precisava escutar aquilo. Mesmo porque, quem pisou errado consecutivas vezes, fui eu.
Mesmo assim, teriam que me perdoar. Mas eu não queria, nem podia, parar aquilo.
E enquanto demos uma pausa de meio segundo, eu sussurrei rapidamente:
"Obrigada".

FIM ~~

-Trika! - Thiago me incomodou em quanto eu entrava na sala grudada ao corpo de Victório, ainda esgotada. - Trika, você não me levou ao festival, droga! - Thiago fingiu choramingar enquanto arrumava a mesa.
Ele consegui desviar meu corpo para longe do de Vic, ajudando Thi.
-Ah, desculpa, Thiago. Mas estou agradecida a você mesmo assim. - Eu sorri, contente.
Victório se agarrou a minha cintura novamente como um menino mimado.
-Se não fosse por você, provavelmente essa tonta estaria bem mais longe. - Victório brincou em meu ouvido.
Eu ri. Sua voz fez cócegas quando entrou abafada pelo meu ouvido.
-O quê? - Thi parou, olhando para nós dois nos encarando.
-Eu contei a ela no caminho. Ainda está com o celular, não é?
-Ah. - Thi corou. - Sobre isso, eu apenas atendi quando aquele cara ligou e você o tinha deixado aqui da outra vez.
-Sem problemas. - Eu sorri. - Falando nisso, sinto certa dó de Ruíz. Você não o matou, não é? - Sussurrei no ouvido dele, brincando.
-Claro que não. - Ele beijou a ponta do meu nariz.
-Saco! Vão ficar fazendo essas coisas aqui e agora, enquanto eu sirvo os dois como um escravo?! - Thi resmungou, e eu ri da careta que fez em relação a mim e Vic.
-Oh, que isso. Se importa de que eu continue a ajuda-lo? - Eu tentei fugir de Vic.
-Ei, Thiago, talvez você não precise mais cozinhar, não é?
Enquanto o menino arrumava os garfos na mesa concentrado, ele jogou um olhar torto para o irmão, e eu ri de novo.
-Estarei aqui a todo momento, segundo seu irmão. - Eu disse, um pouco envergonhada. - Afinal, acho que posso vender a casa ao lado. Já que não iremos mais precisar dela. M-mas isso foi idéia dele!
Thiago deixou cair algum garfo no chão e logo vi seus olhos brilhando.
-Sério?!
Ambos assentimos.
-Posso? - Corei quando olhei para e Thi.
E nos abraçamos. Foi tão bom que pareceu surreal. Ou impossível. Talvez um sonho.
Mas as coisas mais impossíveis acabam acontecendo. E quando acontecem, agente realmente não acredita.
Se aceitássemos facilmente a realidade que parecia impossível, não teria graça, teria?

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