
Me apoiava sobre a barra de ferro que separava o abismo do topo da colina. Aquele lugar era secreto, era só meu. Apenas duas pessoas sabiam sua localização. E as vezes, eu desejava que só eu soubesse.
Naquele dia, eu subi ali sozinha. O velho banco estava ali, como sempre. Mas, não havia ninguém me esperando. Não havia ninguém com que compartilhar o momento mágico - quando o sol se põe.
Aquela pessoa desapareceu. Porque? Porque ele foi embora?! Porque!!?
Eu estava cada vez mais convencida de que amar as pessoas, te-las ao seu lado, só causa mais dor. Só machuca mais. Porque elas viram fraquezas. E que te deixam fraco cada vez que uma delas se fere. As pessoas que voce ama, de certo modo, são um pedacinho de voce. Eu não queria mais ter compromisso com ninguém.
Na verdade, eu nem precisava estar aqui.
Na verdade, talvez se eu fosse embora, para bem longe, sozinha, talvez assim, todos os problemas acabariam. Todos aqueles que ainda me restam iriam ficar bem. Iriam estar seguros.
Ninguém poderia machuca-los por alguém que não os quer. Ou assim eu gostaria que pensassem.
Na verdade, eu sou mais dependente das pessoas ao meu redor do que elas são de mim.
-Pai... Me desculpa. O senhor se enganou. - Eu sorri quando o vento bateu no meu rosto. - Na verdade, eu não deveria nem se quer existir.
-Não diga isso. - A voz doce e gentil dele me assustou, mas me tranqüilizei rapidamente.
Me virei para olha-lo, mas quando encontrei seu olhar sério, voltei a olhar para o céu laranja.
-Seja o que estiver pensando, Ame, é mentira. E eu sei muito bem. - Ele estava ao meu lado.
Kevin tinha o dom de fazer eu enxergar as coisas do modo certo-errado. Com certeza, se eu o escutasse agora, eu iria me sensibilizar e me deixar levar sobre suas palavras. Apesar de que ele estava sempre certo.
Sou uma idiota, hunf.
-Eu não sei usar esse poder, Kevin. Eu não sou nem fui capaz de proteger minha própria família. Sou egoísta, mimada e sempre faço o mundo girar ao meu redor dizendo que não ligo. E, definitivamente, gostaria que fosse verdade. Mas quanto mais minto para mim, mais mal me sinto. - Virei o rosto para o outro lado, tentando manter meu olhar o mais distante possível do olhar do meu melhor amigo.
Sua mão tocou meu ombro e, num reflexo eu a afastei de mim.
-Eu já sei o que vai dizer. Mas estou decidida.
-O que?
-Vou deixar de ser um fardo para todos voces. - Eu abri um leve sorriso. - Assim me sentirei melhor. E estarão seguros se eu estiver longe.
-O que?!! Que quer dizer?
Virei o rosto para ele. Seus olhos vermelhos atentos se concentravam em cada mínima expressão que eu fazia.
-Eu não ligo de ser traída. E nem de ser deixada. Na verdade - Agora, realmente sorri. - Eu não ligo para mais nada. Eu vou deixar todos voces. E assim... - Quando a brisa bateu no meu rosto, fazendo o cabelo vir para cima de meu rosto, olhei de novo para o céu, agora, mais rosado. - Todos estarão seguros.
-Ame...
-Não diga nada! Ei ja me decidi! Não quero passar nem mais um dia por perto! Vou sumir! Prometo! E não volto mais! Irei fazer que nem aquele idiota do... do...
Saco, o nome não saía. Meu rosto se contorceu.
-Porque as coisas tem de ser tão difíceis? Porque? - Eu deixei meu peso cair e me sentei sobre meus joelhos, ainda segurando na grade.
Kevin se abaixou ao meu lado. (Era estranho ve-lo sem o seu casacão vermelho.) Seus longos braços me envolveram e fui puxada para cima de seu colo. Ele sabia como me confortar, e isso me deixava irritada.
-Ame... Pare com isso. Já lhe falei várias vezes que sempre irei estar ao seu lado. Sempre. E que é meu dever protege-la. Não sou seu servo por que isso me foi imposto, mas sim, porque sinto prazer em servi-la. - Ele passava ponta dos dedos em meu rosto choroso, limpando as lágrimas que escorriam. - Nunca será um fardo para ninguém. Dá onde tirou isso?! - Sua voz me intimidava um pouco.
Mas eu não podia desistir.
-Não quero mais saber. Eu...
-Fique quieta! Não irei deixa-la ir embora! Jamais, nunca! Não irei te deixar novamente! Não irei perde-la de novo! Des daquele dia fiquei como um doido atrás de voce, de uma forma de tira-la daquele lugar! Seu pai lhe deu esse dom porque tem certeza de que voce é capaz! Eu também acredito nisso! Voce vai nos decepcionar?
Me encolhi, abaixando a cabeça.
-Me responda!
Eu voltei a encara-lo, tentando um olhar irritado.
-Eu não sou capaz de nada disso, Kevin! Simplesmente não sou! Papai me disse que iriamos nos encontrar novamente e olha o que aconteceu? Ele está morto! Ele está morto porque - Eu o segurei pela gola e o puxei para que minha voz causasse um verdadeiro impacto. - Por me amar! Por querer me proteger! Se esse carinho vai machucar a todos voces, então eu não quero! Kio foi embora porque talvez tenha notado isso! A última coisa que eu disse a ele foi que ele era um idiota e que eu não precisava dele! As pessoas não precisam de mim por perto. Por minha causa, o irmão do Shiro morreu naquele dia! Se talvez papai não tivesse me dado esse poder, talvez todos estariam bem! Nós ainda seríamos duas crianças e as peças estariam no lugar certo! Por isso...! Por isso... - Eu escondi rosto em sua blusa, a deixando úmida. - Por isso eu quero deixar de existir. Por isso, eu quero me esconder em algum lugar que ninguém mais...
Ele levantou meu rosto. Senti algo parecido com um chicote bater na minha bochecha. Doeu na hora. Mas talvez eu tivesse merecido.
Kevin tinha me dado um tapa. Eu o olhava com os olhos arregalados, e ele olhava assim para mim. Mas seu rosto ficou sério e ele me segurou pela orelha, não deixando meu olhar escapar de novo.
-Para. - Sua voz estava fanhosa. - Nunca mais diga algo assim, me entendeu? Me entendeu, Ame?! - Seus olhos se espremeram eu vi que estavam transbordando de lágrimas. Lágrimas que eu não queria que ele desperdiçasse comigo. Porque elas valiam mais do que isso. - Não existe mais ninguém - Ele me apertou contra o seu corpo, passando seus braços atrás de minhas costas, me prendendo em um abraço sincero e desesperado. Eu não merecia. - Não existe ninguém igual a voce. Se lembra que prometeu ficar comigo sempre?
-Prometi te proteger sempre. - Sussurrei.
-Eu prometi a mim mesmo que sempre estaria com voce. Por favor, então, por favor... P-para de falar essas idiotices. Sempre terá alguem ao seu lado. Então, para de falar que está sozinha. Eu preciso de voce. Sempre precisei. - Ele abafou o choro no meu ombro. - E... pr... is... voce... se... pre.
Eu lentamente me entreguei a cena, e o abracei também.
-Tudo bem. Para de chorar que nem garota. Eu estou aqui, Kevin. - O abracei mais forte. - Eu não entendo nada do que voce diz com voce chorando assim.
E tudo vai dar certo, de uma maneira ou de outra.
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