Senti os últimos degraus. Desajeitada, eu tropecei no último e dei de cara com o chão. Senti minhas vestes sendo puxadas. Meu corpo estava sendo arrastado pelo chão por uma sala escura. Então uma mão fria me levantou com indelicadeza, me segurando pela gola da blusa no ar.
-Me solta! - Bati no corpo daquela pessoa.
-Garotiinha, onde está você? - Escutei no outro canto da sala.
Aquele não era meu perseguidor. E de repente os passos pesados do homem pareciam estar lá longe.
Meu corpo caiu no chão com um baque. Minhas pernas doíam por conta da corrida. Meus palmos começaram a arder só agora e eu os meti entre as pernas.
Olhei feio para o lugar de onde antes a voz do homem tinha vindo.
-Garotinha? - Arfei.
Me levantei ainda com as mãos entre as pernas. Havia claridade entrando por de baixo de uma porta. Fiquei com um certo receio quanto a isso, mas parecia que não havia outra saída. Estava com medo de voltar e aquele homem ainda estar ali. Passei minhas mãos por ela, procurando por uma maçaneta.
-Achei. - E a puxei.
Ao entrar, eu não via nada. Depois de um flash que me cegou por alguns instantes senti meu corpo cair. Só piorou ainda mais as coisas quando ele se chocou contra o solo lamacento.
Agora, na claridade, pude ver os estragos. Minhas mãos estavam vermelhas e ainda ardiam um pouco. O céu estava um tanto avermelhado. Não arrisquei a me levantar. Parecia que todos os ossos do meu corpo doíam.
O chão coberto de folhas secas e limo me lambuzaram toda.
-Karin, corre! - Escutei vindo de entre as árvores.
-Essa voz... - Meu coração parecia se contorcer. - M-mentira.
Fiz um esforço para me levantar. Mas minhas pernas tremeram e me jogaram contra o chão de novo.
Latidos furiosos vinham do outro lado, a minha direita. Os cães pareciam descer a toda velocidade, com desejo de encontrar a caça - eu.
Um nome saiu por entre meus lábios, só que eu mesma não escutava minha própria voz. Eu sabia que estava gritando. E aquilo doía no peito.
Me levantei agora mesmo com as pernas no limite, e comecei a tentar escalar por entre as árvores do bosque da colina. A voz daquela pessoa não parava de me mandar ir embora, fugir. Mas eu precisava revela. Só um toque, só um olhar... qualquer coisa!
Por favor! Por favor! Não vai! N...não vá. Não se torne apenas uma lembrança.
Cai da cama em cima da minha pilha de livros de estudo. O ventilador ligado, a velha bagunça... A mesma coisa.
Passei a mão na testa. Eu suava frio, igual as outras vezes que acordara daquele sonho. M-mas, foi tão real dessa vez. Ou eu apenas estava enlouquecendo.
Olhei em minha agenda. Antes de pega-la me deparei com uma meia suja e fedorenta que estava sobre ela - que nojo!
-Sábado, hm? - Suspirei.
Nos finais de semana eu costumava dormir ridículamente o dia todo. Não era para menos. Eu quase não pregava os olhos durante a semana. Mas eu não estava exausta. Na verdade, eu me sentia excelente.
Abri os armários da cozinha procurando pelo pote de café. Estava cheio ainda. Esperava que estivesse na validade também. Fazia tempo que eu não tomava um café quente... arf! Mas um café quente iria ficar a desejar. Eu não tinha microondas. Muito menos um fogão. Então foi café gelado mesmo.
Estava chovendo. Mesmo assim, eu queria dar uma saída para ir ao meu lugar favorito"a livraria. Podia passar horas e horas dentro de uma livraria, lendo e relendo livros, revistas, gibis e mangás.
"Karin-chan, vamos ler um livro juntos? ..."
A livraria ficava muito mais além do que a última parada do ônibus. Eu teria de andar a pé. Mas iria valer o sacrifício. Eu estava entusiasmada. A parte mais difícil foi ir até o ponto de baixo daquele temporal.
Sentei-me de novo no último banco. Deixei meu olhar correr solto pela paisagem. Gostava de vagar por entre meus pensamentos. Mas minha mente agora era uma zona de terror. Me lembrava daquele sonho esquisito, da última noite de que me recordava naquele lugar.
Desde a minha fuga, parecia que todas as minhas memórias tinham sido deletadas. Eu não ligava muito em tentar me lembrar do meu passado, já que toda vez que tentava eu ficava deprimida ou com uma dor de cabeça irritante.
Voltei ao presente. Passei meu olhos por todos os rostos de dentro do veiculo e depois olhei pela janela. Só via borrões. Chovia muito forte.
Ao passarmos por um asfalto esburacado, tive que me segurar para não cair do banco. Quando minhas mãos soltaram o ferro gelado, senti dor. Meus palmos arderam. Agitei as mãos no ar esperando a dor passar. Quando parou de queimar, observei minhas mãos com cuidado. Pareciam marcas de queimadura.
-Queimadura... me queimei só... no... no... - Então aquele pensamento me atingiu como uma bala no crânio.
Me lembrei do labirinto quente do sonho. Quando por acidente eu encostei minhas mãos em um cano de metal quase pegando fogo. Minhas mãos arderam por um momento só ao lembrar.
Isso. Venha. Estarei te aguardando.
Aquilo teria sido real?
-Última parada, Estação Grooves. - A voz grossa do motorista despertou-me de meus pensamentos.
Fui a primeira a descer, quase aos tropeços.
Precisava refazer meu caminho. Precisava ir para aquele lugar!
"Antes, entre a direita."
As máquinas de fábrica velhas que atrapalhavam a passagem do beco sem saída. Passei por todas elas. Achei ter ralado as pernas, ou o braço, mas meu desejo de alcançar meu destino era maior.
Chegando ao fim do corredor de ferrugens velhas, vi de novo a janela de vidro. Fechada. Talvez teria sido um sonho e eu tivesse machucado minhas mãos em um lugar qualquer. Talvez eu tivesse enlouquecido de vez.
-Talvez não tenha olhado direito! - Gritei, dando um pulo com toda minha força em cima da placa de vidro. Ela só estalou. Pulei novamente. Mais estalos.
Não iria a chegar a lugar nenhum apenas pulando sobre ela.
A sobra de alguma coisa se modelava a minha frente. Olhei para cima. Era perfeito. Um gancho velho. E deveria ser bem pesado.
Ao lado, havia um cano sujo que poderia usar para escalar até chegar ao gancho. Rapidamente, realizei a tarefa. Mas meu braço ainda não chegava ao gancho. Eu teria de arriscar a pular. Meus lábios tremeram ao ver a altura. Mas um forte impulso tomou conta de meu corpo e eu me arremessei em cima da enorme garra de ferro que chacoalhou e caiu. Fiquei pendurada no metal que a prendia enquanto ela estilhaçava o grossa placa de vidro em pedaços. Depois soltei, desaparecendo no meio da poeira.
Refiz todo o caminho. Quase bati com a cara no cano de novo, mas fui um pouco mais ágil desse vez. Logo, estava de frente com as escadarias. Mas...
-Está trancado? - Um alçapão cobria a entrada.
Um grosso cadeado mantinha qualquer forma de abrir aquilo inútil.
Senti uma ponta de choro dentro de mim. Queria tanto pelo menos escutar a voz daquela pessoa novamente. E quem sabe gritar de volta.
Bati com as mãos na porta de madeira resistente. Nada. Intacta.
-Por favor, abra! - Tentei puxar o cadeado. Mas ele era muito resistente.
Desistindo, me fechei numa bola e enfia a cara entre as pernas. Minhas lágrimas começaram a alagar meus olhos. Mas eu tentava reprimir o choro.
Ei... ei! Ei! Garota...!
Minhas pernas tremiam e eu não fazia idéia de como voltar para a superfície sem me queimar feio naquelas malditas engrenagens. Abafei o choro na roupa.
Vai esperar a morte vir te pegar?
E o que eu poderia fazer? Estava presa.
Você é mais forte do que isso. Eu sei que é. Deseje!
O que?
Deixe sua mente vagar. Deixe que a magia devore seu coração. Sinta a energia. Fique com um desejo doido de alcançar seus objetivos e ampliar sua perspectiva! Nossa voz é mais forte do que a morte, você sabe. Sangue por sangue.
Meus olhos se abriram. Me sentia melhor.
Vai se aventurar a morrer?
-Sim! - Gritei.
O cadeado se destruiu e vi meu corpo deslizar pelo ar. Fui arremessada em um clarão e minha cabeça doeu. Não que tivesse sofrido algum impacto.
Boa menina.
Um sorriso em seus lábios se abriu. Depois de tanto tempo...
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