Que prazer ve-la de novo. Tão boba e medrosa quanto antes. Ou até mais.
-M-minha cabeça... - Minha visão ainda estava meio embaçada.
Me apoiei no que parecia ser uma parede. Dei um tempo para que meu corpo se restabelecesse. Mesmo assim, fui caminhando com a mão ainda na parede. Resolvi apoiar o corpo inteiro. Estava tão zonza a ponto de desmaiar.
-Aaah! - Por azar eu me apoiei em uma porta que estava entreaberta e cai no corredor ao lado de fora.
Agora eu realmente tinha batido a cabeça. Mas não estava doendo tanto quanto antes. Rapidamente me recuperei e me apressei ao me por de pé. Minha visão melhorou e logo pude enxergar normalmente. Estava em um longo corredor com várias portas. Algumas abertas, outras não. O chão era de pedras e o lugar iluminado a luz de castiçais belíssimos.
-Mas que lugar é este? - Comecei a andar por ali, explorando.
Parecia mais um dormitório ou algo do gênero. Todos os quartos tinham camas e velhos guarda-roupas.
Escutei vozes. Alguém estava vindo. Pulei para a primeira porta que vi, me escondendo na semi-escuridão do quarto.
Os passos se aproximaram e aquelas pessoas pareciam estar no corredor. Minha pressão aumentou e comecei suar. Aquela sensação de medo... Já fazia tempo que eu não sentia medo.
-Ele trouxe a garota? Quem ele pensa que é? Uma humana daquelas... Aqui dentro não vai durar por muito mais tempo. - Uma voz infantil e graciosa. Ao mesmo tempo, um tanto fria e melancólica. - Vai tentar ir atrás do príncipe desaparecido Gaion... Francamente. Sair daqui é suicídio. Ainda mais para procurar uma pessoa mentalmente adoecida.
-Eu ainda não entendi as intenções do Kurama-san. O que a garota tem a ver? - Uma voz mais rouca. Parecia ser um garoto.
-Ele acha que se o príncipe ver a garota novamente irá se lembrar de tudo e se curar. O príncipe Iwasaki está enlouquecido. Por isso está preso. Não há jeito.
-Acha mesmo? Kurama-san parecia ter certeza quando falou que...
-Yasu não sabe de nada! Fundamos essa fortaleza para nos proteger dos malditos Killers que nos cercam! O príncipe Iwasaki nos abandonou! Não foi ele quem fugiu a alguns anos do Koyama? Fugiu de seu dever para conosco e o mundo caiu no caos! E fugiu por causa daquela nojentinha! E que agora está em alguma lugar por aí! Por causa dela tudo isso aconteceu! Por causa dela somos o que somos!
-Nanako-sama, bom... está certo.
E os dois continuaram a conversa, mas eu não pude ouvir o resto. Eles já tinham ido embora.
-Onde eu fui me meter? - Passei as mãos em meus cabelos um tanto ensebados e dei uma espiada no lado de fora.
Nada. O corredor estava vazio novamente.
Rapidamente, corri para o lado oposto em que Nanako e o garoto tinham ido. A direita, o corredor continuava. Segui por ele até o final, onde haviam escadarias que levavam para cima e outras para baixo. Desci os degraus de pedra apressada. Desci pelo menos uns quatro andares. Até chegar a um enorme salão. Ali tinha sofás, estantes, prateleiras, livros e alguns animais empalhados na parede. A sala era coberta por todo um tapete perfeitamente detalhado. Havia também uma lareira. Em cima dela, notei um brasão com um enorme A. Um dragão se enroscava por ele.
O salão tinha também janelas e uma porta. Tudo em um estilo rústico bem antigo. Mas bem refinado.
Atravessei a sala e me puis na ponta dos pés para olhar para fora pela janela. Conseguia enxergar uma tipo de loja bem ali na frente e ao lado algumas barracas de verduras e coisas do tipo. Mas tudo em um estilo um tanto medieval.
Não tinha certeza se o apropriado era sair daquele lugar. Então me virei para o salão novamente. Aquele lugar passava uma sensação de aconchego. Muito melhor do que minha casa bagunçada e pequena.
Agora, mais tranqüila, as dores voltaram. Senti que meu corpo apelava por um banho e por algo para comer.
Será que era um sonho aquilo?
Não!
Cambaleei para a poltrona mais próxima e me joguei nela. Estava pensando em voltar...
Escutei a porta se abrindo. Levei um susto e me encolhi atrás do pequeno sofá.
Um suspiro abafado ecoou pela sala. Por debaixo da poltrona consegui ver os pés daquela pessoa. Calçava um velho e desbotado par de botas.
Os pés se viraram para o outro lado da sala, o da lareira.
Meus joelhos doeram e lentamente, tentei voltar para a posição de antes. Mas ao apoiar meus braços no chão a madeira em baixo do tapete estalou. Só esperava que ele não tivesse ouvido.
Então me abaixei de novo. Com a claridade dava para ver a poeira no tapete debaixo do móvel. Mas isso não era importante. Os pés daquela pessoa estavam quase a parados a frente da pequena poltrona. Me assustei e soltei um grito sussurrado.
-Hum. Tem ratos por aqui. - E se demorou um pouco.
Depois disso, virou-se para as escadarias e as subiu. Escutei seus passos desaparecerem.
Quando fui me levar, a porta se abriu de novo. Dessa vez, violentamente. Alguém entrou quase pulando ali. Não me abaixei a tempo e cai para trás fazendo um barulho alto o suficiente para qualquer um que estivesse por perto ouvir.
-S-saco... - Murmurei.
De pé de novo, meu olhar rodou a sala e não consegui ver mais ninguém. Ou parecia que só havia eu ali.
-Hunf, f-foi só minha cabeça. - Revirei os olhos.
Senti algo tocando em meu ombro. Soltei mais um grito sussurrado e olhei para meus pés que pisavam um em cima do outro de vez em quando. Olhei sobre o ombro e então, eu vi.
Depois de tanto tempo...
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